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Fomentar a leitura em qualquer idade sempre é sinônimo de enriquecimento, mas incentivar esse hábito entre os mais jovens da sociedade é uma garantia total de um futuro melhor. Uma criança que lê irá se convertendo em um adulto com ideias próprias e uma mentalidade firme, capaz de questionar o que a cerca e de compreender mais facilmente seu lugar no mundo.
Uma criança que lê será um adulto que pensa, porque não há um domínio maior do conhecimento do que aquele que nos oferecem os livros. Quando lemos nos nutrimos de imaginação e raciocínio que os outros depositaram em folhas em branco, e somos mais receptores quando nos abrimos: as crianças, sem preconceitos, são capazes de ler com toda a sua gama de emoções depositadas na leitura.

Uma criança que lê será livre para sempre

Ler nos ajuda a pensar e pensar nos liberta, assim, se seu filho gosta de passar o tempo lendo histórias, é melhor que continue agindo assim. Na verdade, essa será a forma mais eficaz que ele terá para enxergar uma variedade de situações, opiniões e de condutas que a vida oferece: com certeza isso ajudará a formar a tolerância da criança e ela ganhará em respeito e solidariedade.
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Em muitas ocasiões, como adultos, aquilo que era desconhecido em nosso pequeno mundo habitual nos surpreendia ou, inclusive, incomodava. Essas sensações provêm sobretudo de querer acreditar que o seu é o válido e o do outro não pode ser, pensamento que deriva sobretudo da ignorância.
Ler é como viajar em todos os seus sentidos e nos ajuda a abrir a mente: uma criança que lê descobrirá outras culturas, outros modos de vida, outros costumes diferentes dos seus e saberá, muito antes do que aquele que não lê, que existem outras coisas além do olhar cotidiano. Ter consciência disso fará com que ela se torne um adulto que escapará de juízos de valor gratuitos e se sentirá menos preso aos interesses de outras pessoas.

O refúgio contra as misérias da vida

Por sorte ou por azar, o mundo administra os que acreditam ser normais, mas dá vida plena a aqueles que acreditam ser loucos. Já dizia Dom Quixote: ele lia e lia até que encontrou a forma de viver baseado em suas crenças e ilusões que o permitia ser feliz, enquanto ao seu redor continuava sujeito a uma realidade convencional que julgava a sua maneira de viver.
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Os “loucos” que leem são capazes de encontrar o refúgio das misérias da vida enquanto os que não o fazem vivem nelas sem sequer estarem conscientes disso. Por isso, é preciso deixar uma criança chorar e rir ao ler um livro, é necessário permitir-lhe se apaixonar por uma história e apoiá-la se ela decidir entrar com tudo nesse campo da imaginação que está ao alcance de qualquer um.
Por outro lado, ao se deparar mesmo com um texto pequeno, ela se surpreenderá com o que encontra e é provável que sofra mais com o que absorve, uma vez que será para ela como uma entidade estranha que quer mudar o seu conformismo. Unamuno empregou as palavras corretas ao pedir que as crianças cresçam lendo porque dessa maneira serão adultos menos vulneráveis, menos indefesos e mais humanos.

Leitura: a fábrica da imaginação

Existem várias atividades que ajudam a desenvolver e melhorar a imaginação independentemente de quantos anos nós tenhamos, incluindo uma das mais bonitas que é a leitura: uma fábrica inteira onde é forjada e recolhida toda criatividade dos seres humanos.
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Uma criança que lê será uma criança que pensa, afirmou algum pensador genial, e ele não estava enganado. Ler é brincadeira, é entretenimento, é construir sonhos, é refletir, é um estado de ânimo, é isolamento e companhia, é prazer. Ler brinda lembranças que foram cumpridas e outras que cumpriremos, e move as incertezas mais internas para nos aproximarmos delas.


Nas Bem-aventuranças, Jesus Cristo afirma: “Felizes as pessoas que promovem a paz, porque serão chamadas filhas de Deus.” (Mateus 5:9)
 
Para a tradição de fé cristã, a promoção da paz é uma resposta à graça de Deus que nos acolhe como seus filhos e suas filhas.
 
A fé em Jesus Cristo não permite nenhum tipo de discriminação e prática do ódio. Quem odeia o seu irmão e a sua irmã rompe com a graça amorosa de Deus.
 
Por isso, não podemos aceitar e nem concordar com a relação entre fé cristã e racismo religioso. Quem odeia e pratica a violência, física ou moral, contra uma pessoa de outra tradição religiosa, está pecando contra Deus.
 
Jesus Cristo nos ensina a prática da convivência e da hospitalidade. No seu encontro com a samaritana (João 4:5-43), apesar de Jesus ser de uma tradição de fé diferente da tradição de fé da samaritana, eles conversaram, dialogaram, expressaram seu modo de pensar e viver a experiência de Deus. Neste diálogo havia divergências de compreensões sobre onde seria o lugar verdadeiro para adorar Deus. No entanto, tal divergência não impediu Jesus de aceitar o convite da samaritana para ficar em sua comunidade. Diz o texto que Jesus passou alguns dias entre samaritanos e samaritanas. Jesus não foi arrogante com a comunidade samaritana, mas mostrou a possibilidade da convivência. Por causa disso, segundo o texto, os samaritanos e as samaritanas creram Nele. Talvez não no sentido de abandonar a sua tradição de fé samaritana, mas no fato de ter experimentado que era possível a convivência entre judeus e samaritanos, desde que uma tradição de fé não se julgasse maior ou melhor que a outra.
 
Cada tradição de fé é uma maneira de experimentar a fé em Deus. Não há melhor e pior quando a prática da fé nos leva ao encontro de nossos irmãos e irmãs. A falsa religião é toda aquela que pratica e promove o ódio e o racismo.
 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil expressa irrestrita solidariedade a toda a população afrodescendente do Brasil, a todas as tradições religiosas de matriz africana e a toda a juventude negra que é exterminada por causa do racismo. Neste sentido, enviamos nossa lembrança especial às famílias dos jovens de Paraisópolis.
 
Comprometemo-nos a afirmar o direito à existência da sua cultura, da sua fé, das suas ancestralidades.
 
Eu sou porque você é – é isso que aprendemos do povo negro. Eu e o outro só existiremos como humanidade se assumirmos que somos seres em relação. Seremos melhores cristãos e cristãs se não agredirmos irmãs e irmãos afrodescendentes. Seremos melhores cristãos e cristãs se a tradição religiosa afro-brasileira existir e celebrar seus ritos com liberdade, amorosidade e tambores. 
 
Que Deus tenha compaixão de nós e provoque-nos a superar o racismo e todo sentimento de exclusivismo que segrega e mata.
 
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil


– “Por que é que os padres não se casam?” (Pedro II – Rio de Janeiro-RJ).
Será oportuno, antes do mais, reconstituir brevemente a histórico da questão.
Na Era Apostólica, São Paulo recomendava que o bispo fosse “marido de uma só esposa” (1Timóteo 3,3; Tito 1,6). Com isto, certamente não queria afirmar que todo bispo tinha a obrigação de ser casado, pois nesta hipótese contradiria à palavra do Senhor, que reconhece e preza “aqueles que se castraram (=se conservaram virgens) por causa do reino dos céus” (Mateus 19,12); contradiria também a si mesmo, visto que Paulo desejava aos fiéis “fossem todos como ele mesmo era” (1Coríntios 7,7), isto é, celibatários, a fim de se entregarem sem divisão ao serviço do Senhor (cf. 1Coríntios 7,32-34). Na verdade, o Apóstolo queria inculcar que, no século I da nossa era, quando as comunidades cristãs constavam de muitos adultos e casados recém-convertidos, não se escolhesse para o episcopado algum varão casado em segundas núpcias (bígamo em sentido lato); estas [segundas núpcias], com efeito, eram geralmente desaconselhadas (não, porém, condenadas) pela antiga Igreja, por parecerem uma expressão de incontinência.
Houve, pois, nos tempos iniciais do Cristianismo, bispos, sacerdotes e diáconos legitimamente casados; nenhuma lei lhes proibia o uso do matrimônio.
Mais frequentes, porém, desde os primórdios eram os clérigos que espontaneamente abraçavam o celibato. A razão disto era o conselho do Senhor que exortava à continência (“quem o pode entender, entenda” – Mateus 19,12); eram também os dizeres de São Paulo que, sem derrogar a santidade do matrimônio, afirmava ser a virgindade um estado superior, estado no qual se pode servir ao Senhor sem solicitude supérflua (cf. 1Coríntios 7,32-34).
No século IV esta praxe espontânea começou a ser sancionada por leis de concílios regionais, que visavam assegurar aos eclesiásticos os benefícios do celibato. Diversas, porém, foram as prescrições promulgadas no Oriente e no Ocidente.
No Oriente, a legislação chegou ao seu termo definitivo em 692 (Concilio Trulano II ou Quinissexto); foi então proibido aos sacerdotes, diáconos e subdiáconos contrair matrimônio após receberem a respectiva ordem sacra; caso, porém um leigo casado desejasse ordenar-se, as núpcias anteriormente contraídas não lhe seriam empecilho, nem se exigiria que, depois de ordenado, deixasse de viver maritalmente com a esposa; apenas se lhe pedia que se abstivesse do consórcio conjugal quando estivesse para celebrar as funções do altar (que não eram cotidianas); ao sacerdote viúvo ficaria vedado casar-se em segundas núpcias. Quanto aos bispos, o Concilio lhes prescrevia continência absoluta, de sorte que, se um futuro bispo estivesse casado, a esposa, depois de sua sagração, deveria recolher-se a um mosteiro distante, ficando o marido obrigado apenas a prover às despesas de sua subsistência. São estas as determinações ainda hoje vigentes entre os cristãos orientais, quer cismáticos (com poucas exceções), quer unidos a Roma; o Direito Canônico não lhes impõe o celibato, que nunca foi obrigatório na tradição oriental. Em vista da cláusula um pouco-mais rigorosa imposta aos bispos, estes no Oriente são de preferência nomeados dentre os monges, que por profissão abraçam a castidade perfeita.
No Ocidente, o primeiro decreto restritivo se deve ao Concílio de Elvira (Espanha) reunido por volta do ano de 300: proibia aos bispos, sacerdotes e diáconos, sob pena de degradação, uso do matrimônio e o desejo de ter prole (cânon 33). Esta determinação, que a princípio só visava a Espanha, em menos de um século estava em vigor (às vezes sob forma de conselho apenas) em todo o Ocidente. A fórmula definitiva de tal disciplina foi promulgada pelo Concílio Ecumênico do Latrão I em 1123: a todos os clérigos, a partir do subdiaconato, foi prescrito de maneira peremptória o celibato; em consequência, o matrimônio contraído por um eclesiástico depois da respectiva ordenação era declarado inválido. O Concilio de Trento promulgou de novo tal lei no século XVI, época em que os Imperadores Ferdinando I (1556-1564) e Maximiliano II (1564-1576), da Alemanha, exerciam pressão sobre o Papa Pio IV (1559-1565) a fim de obterem o casamento dos sacerdotes de seu reino, ameaçados pela rebordosa luterana.
Sucessivas determinações da autoridade da Igreja têm corroborado frequentemente até nossos dias a obrigação celibato clerical. No início do século XX, violenta campanha se desencadeou contra essa praxe; na Tchecoslováquia, por exemplo, vários sacerdotes, reivindicando o direito de se casar, aderiram à “Iednota”, associação de tendências cismáticas, à qual o Papa Bento XV resistiu energicamente, declarando numa alocução consistorial de 16 de dezembro de 1920:
– “Veneráveis Irmãos: o que várias vezes já afirmamos ocasionalmente, Nós agora o atestamos solene e categoricamente: nunca esta Sé Apostólica atenuará ou mitigará essa lei profundamente santa e salutar do celibato eclesiástico; muito menos ainda a abolirá” (Acta Apostolicae Sedis XII [1920], p.585).
Na França, Paul-Louis Couchoud, que se dizia historiador das religiões, chegou a publicar um pseudodecreto de Leão XIII que abolia a disciplina do celibato para o clero da América Latina; o documento foi formalmente comprovado falso. Mantendo tão rijamente a tradição, a Igreja visa proporcionar aos seus ministros absoluta liberdade para se dedicarem ao próximo e desenvolverem frutuoso apostolado.
Eis, porém, que muito chamou a atenção pública uma dispensa concedida neste setor por Sua Santidade o Papa Pio XII. Tratava-se do pastor protestante Rodolf Goethe, descendente do poeta Wolfgang Goethe, que, casado e sem filhos, se converteu ao Catolicismo na idade de 69 anos. Por concessão do Santo Padre, o bispo de Mogúncia, aos 22 de dezembro de 1951, o ordenou sacerdote, ficando o mesmo autorizado a viver em matrimônio com sua esposa; o neo-sacerdote não foi destinado ao ministério paroquial, mas ao serviço de chancelaria e à cura espiritual de outros convertidos. No mesmo dia 22 de dezembro de 1951, o semanário católico inglês “Tablet” (p.470) lembrava que anteriormente já se haviam verificado duas outras ordenações de pastores protestantes casados e convertidos, dos quais um, com a idade de 40 anos, era pai de alguns filhos. No Seminário de Mogúncia, quando o sacerdote Goethe era ordenado, preparava-se para o presbiterado outro ex-pastor casado.
Estes fatos representaram, sem duvida, grande novidade na praxe da Igreja latina, novidade talvez sem precedentes.
Há quem, a propósito, aponte o episódio seguinte: numa carta ao rei Filipe II da Espanha (1556-1598), datada de 20 de abril de 1565, o Cardeal Pacheco, Embaixador da Espanha em Roma, referia que seu colega D’Arco, Embaixador de Maximiliano II da Alemanha, lhe afirmara que os legados do Papa Paulo III na Alemanha, sob o Imperador Carlos V (1519-1556), tinham dispensado do celibato dezoito sacerdotes. Como se vê, a notícia é complicada e passou por diversos intermediários; julga-se bem provável que o Embaixador D’Arco tenha aludido simplesmente aos poderes concedidos pelo Papa Paulo III aos seus legados em 1548 para reconciliarem sacerdotes casados, com a cláusula de se absterem do ministério sacerdotal.
Está, sem dúvida, no poder da Igreja desligar do celibato os clérigos ocidentais, para que vivam à semelhança dos orientais; trata-se de questão meramente disciplinar, não de lei divina nem de dogma. A razão por que o Santo Padre assim procedeu no caso do pastor Goethe era exposta nos seguintes termos pelo Superior do Seminário de Mogúncia, Monsenhor Reuss:
– “Não há dúvida: antigos pastores protestantes, à custa de penosos sacrifícios convertidos ao Catolicismo com sua família, são particularmente aptos a servir pela oração e pelo trabalho à magna causa da reunião de todos os cristãos na única Igreja de Jesus Cristo. Ordenados sacerdotes, eles se tornam colaboradores valiosíssimos na conquista deste grande objetivo da Igreja universal” (texto publicado na revista “Etudes” nº 227:6 p.255).
O motivo da dispensa era, pois, o apostolado. Com efeito, tem-se delineado na Alemanha protestante do pós-guerra uma volta notável da atenção para Roma. O fenômeno se explica por diversos fatores: a perseguição movida pelo nazismo aos cristãos em geral, o deslocamento de populações que passam a viver em “diáspora”, as dificuldades que os luteranos encontram para se constituir juridicamente. Em tal situação entende-se que a Igreja Católica lance mão de recursos novos para corresponder às expectativas dos irmãos separados. Enquanto este ou outro motivo grave o postular, o celibato eclesiástico poderá ser esporadicamente dispensado.
É inegável, porém, o grande interesse que tem a Cristandade inteira em se conservar a legislação vigente; os benefícios que ela de fato acarreta, são muito mais ponderosos do que as razões que se possam apresentar em contrário. O sacerdote tem que viver como homem de Deus, totalmente devotado aos interesses das almas.
  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 4:1957 – ago/1957


POR HERMES FERNANDES (Pastor)
Mais uma vez os humoristas do Porta dos Fundos provocaram a fúria dos evangélicos.
No especial de fim de ano apresentado pela Netflix, Jesus Cristo, o Filho de Deus, é apresentado como homossexual que prefere se divertir a salvar o mundo.
Segundo o “Observatório da Imprensa”, esse é o enredo do filme: “em A Primeira Tentação de Cristo acompanhamos a festa surpresa que José (Rafael Portugal) e Maria (Evelyn Castro) prepararam para seu filho Jesus (Gregório Duvivier), que chega acompanhado de seu namorado Orlando (Fábio Porchat). (…) Mas, o convidado mais especial da festa, além do próprio aniversariante, é Deus (Antonio Tabet) que tem uma missão para seu filho: carregar e espalhar sua palavra pelo mundo. Contrariando Cristo, que é de humanas, e prefere coisas como malabares, miçangas e saraus de poesia”.
Rapidamente, pastores e líderes vieram a público pedirem para que os crentes cancelassem sua assinatura da Netflix.
Apesar do “admirável zelo” demonstrado pelos defensores da fé, há algo que me deixa preocupado. Será que se eles fizessem piadas com os excluídos, os oprimidos, com os que não se enquadram nos moldes do sistema, demonstraríamos o mesmo zelo em defendê-los? Por que só nos manifestamos em causa própria? E se a brincadeira envolvesse símbolos de outras tradições religiosas? Isso não revelaria o quão corporativistas temos sido?
Canso de ler comentários do tipo “quero ver fazer sátira com Maomé.” Sinceramente, isso não me parece muito cristão.
Aliás, louvo a Deus por viver em um ambiente que permite tal liberdade.
Em vez de me sentir ofendido, prefiro levar na esportiva. Confesso que, às vezes, até rio. Se não da piada em si, da ignorância de quem a contou.
Outra questão que julgo relevante: até que ponto não somos nós mesmos os culpados por termos nossa fé alvo de tantas chacotas? Que tipo de cristianismo temos vivido?
Talvez devêssemos aproveitar a ocasião para fazer uma mea culpa e reavaliar alguns de nossos posicionamentos junto à sociedade e às suas demandas.
Se assim procedermos, talvez o que seja motivo de riso para alguns, se torne motivo de lágrimas para nós, conduzindo-nos ao arrependimento de nossa apatia e de nossa fé caricata.
Não é a Cristo que atacam, nem mesmo os nossos mais caros símbolos, mas ao nosso cristianismo alienado e descomprometido com a ética do reino de Deus.
Apresentar Jesus como um homossexual possivelmente se deva à maneira preconceituosa com que seus pretensos seguidores tratam os homossexuais.
Nossa homofobia deve ofender mais a Deus do que qualquer sátira.
Creio que no juízo haverá menos rigor com quem conta piadas sobre a nossa fé do que com quem torna nossa fé motivo de piadas.


Por Humanista RJ,
Há alguns anos tive que procurar por ajuda psicológica e, no lugar onde fui procurar essa ajuda, havia um homem que, segundo me informaram, havia parado mentalmente nos anos setenta após ter sofrido um acidente automobilístico.
Não procurei saber se a informação era ou não verdadeira, mas imaginem alguém nos anos 2000, devido à enfermidade, teimando em não sair dos anos setenta! Certamente, para não sofrer tanto, algum mecanismo de fechamento nele mesmo o homem deve ter desenvolvido – já que o mundo a sua volta não parou de avançar, e velozmente, por sinal…
Parto então daqui para falar um pouco sobre o contexto do Concílio Vaticano II…
A modernidade inevitavelmente emergiu e, a partir do século XVI, foi se impondo e se solidificando, forjando um ser humano cada vez mais autônomo e senhor de si; nesse contexto o poder político da Igreja na Europa vai entrando em declínio crescente, e o saber científico passa, de modo também crescente, a ser a nova luz a guiar esse ser humano senhor de si – pois é ele próprio o criador dessa nova luz-guia.
O século XVIII marca a irrupção do homem contemporâneo, e “o mundo na contemporaneidade passa a ser reconhecido com consistência em si mesmo, autônomo em face da autoridade eclesiástica e em face da missão da Igreja.”
Frente a esse estado de coisas, a Igreja vai entrando e permanecendo, da modernidade à contemporaneidade, em um estado de isolamento, devido a uma postura de constante embate com o mundo e suas atualidades, fechada ao diálogo e aos sinais dos tempos.
Desde a reforma protestante, no século XVI – onde a Igreja, em vez de fazer a sua reforma, preferiu fazer uma contrarreforma, a Igreja católica assume uma forte atitude eclesiocêntrica de fechamento nela mesma que perdurou por quase quintetos anos.
Daí eu começar este texto com o exemplo do homem que, nos anos 2000, permanecia estacionado e fechado mentalmente nos anos 70 – isso com o mundo a sua volta modificando-se irremediavelmente.
Assim ficou a Igreja, nostálgica, amante e desejosa de uma época irretornável, fechada por tanto tempo no passado.
 Todavia, embora com quase cinco séculos de atraso, a reforma da Igreja enfim aconteceu, com o “novo pentecostes” que foi o Concílio Vaticano II.
O Concílio Vaticano II é um novo caminho de diálogo com o mundo, este não lhe é mais hostil e ameaçador, mas parte integrante de seu devir – mais ainda, agora a Igreja entende-se sendo no mundo como parte dele – não mais uma instituição de gueto, não mais uma instituição que se entende de modo esquizofrênico, isto é, mesmo no mundo entendendo-se e autoafirmando-se fora dele.
A ruptura trazida pelo concílio com o modelo estacionado e obsoleto de Igreja, aquela Igreja de molde imperial, clericalista e autorreferenciada, deu-se a partir de um movimento de retorno às fontes bíblicas e patrísticas, estabelecendo continuidade com a Tradição da Igreja e descontinuidade com o modelo eclesial tridentino.
Hoje, com efeito, vê-se que a Igreja vive uma forte tensão entre os que desejam o retorno aos fundamentos, aos tempos da Igreja da cristandade ou neocristandade e os que, acolhendo o espírito reformador do Concílio Vaticano II, desejam ardentemente uma Igreja atenta aos sinais dos tempos e amiga da modernidade, entendendo que só assim, dentro dessa modernidade, a Igreja como um todo pode cumprir o seu papel de ser sal, luz e bom fermento na massa.
Recepcionar o Espírito do Concílio Vaticano II é romper não só com os vínculos internos que prendem a Igreja aos grilhões de uma passado que não volta, mas romper também com as estruturas injustas a ela externas com as quais a própria Igreja aliou-se no decorrer da história – é romper com entendimentos e atitudes esclerosadas que mais afastou as pessoas do Evangelho do que as aproximou.
A Igreja da América Latina recepcionou este espírito conciliar de ruptura, que fez emergir uma Igreja atenta à exploração e opressão dos grandes sobre os pequenos, colocando-se ao lado dos explorados e marginalizados pelos sistemas opressores em vigência nos países pobres do continente.
É evidente que essa recepção não foi repentina, mas construiu-se paulatinamente e continua construindo-se, muito embora tenha sofrido baques profundos, e para muitos até pareceu que não avançaria mais.
A mentalidade elitista, tradicionalista, clericalista e de um carismatismo cada vez mais intimista e emocionalista, apartado (para não dizer opositor) de uma Igreja engajada nas lutas sociais como foi Jesus engajado nas lutas sociais de seu tempo, permanece nos corações e mentes dos cristãos inclusive não elitistas – pobres mesmo, e que certamente compõem uma parte expressiva, até mesmo hegemônica, de nossa Igreja. Isto tudo tornou-se uma realidade cultural, estrutural, e ao meu ver os pontificados de João Paulo II e Bento XVI foram momentos estanques do movimento reformador do Concílio.
Entretanto, Francisco foi suscitado por Deus a ser o Bispo de Roma e com ele o movimento reformador iniciado por João XXIII, o “Papa Bom”, e continuado por Paulo VI, é retomado.
Jorge Mario Bergolio escolheu o nome de um reconstrutor para seu papado, pois são Francisco de Assis recebeu a instrução divina de reconstruir a Igreja – tarefa que agora é encabeçada por Bergolio, o papa Francisco, saído da América Latina, de um continente de muita pobreza que convive com muita riqueza concentrada em mãos de minorias cada vez menores – talvez por isso Francisco tenha tanta sensibilidade para com os pobres, excluídos e desvalidos do mundo.
Sim, o Espírito do Concílio foi e continua sendo realmente um “novo pentecostes” para Igreja, um “Kairós”, porque sua origem está em Deus mesmo, na fé que gerou a Igreja e a sustenta – e “se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus” – At 5,38-39.
Graça e Paz.
Fontes consultadas:
BRIGHENTI, Agenor. Em que o vaticano II mudou a igreja. 1. ed. São Paulo: Paululias, 2016.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da libertação. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1975.


Mas se não é verdade que cometemos idolatria, então por que usamos imagens?

"Por que nós, católicos, temos imagens de quem adoramos, ou seja, de Deus? De onde nasceu essa ideia?” (Noemí F.Q., via Facebook)
O uso de imagens e quadros religiosos em igrejas e dentro de casa é muito difundido desde tempos imemoriais. A questão das imagens sagradas costuma ser bastante polêmica; e na relação entre a Igreja e as pessoas que pretendem seguir a Cristo fora dela, a polêmica se acirra mais ainda, porque essas pessoas, entre muitos outros erros, acham que a Igreja católica adora imagens, o que não é verdade.
Para esclarecermos o assunto, vamos repassar a história sagrada. Comecemos observando que, no Antigo Testamento, era severamente proibido o culto a todo tipo de imagens ou representações plásticas da divindade.
O primeiro mandamento do decálogo afirma com palavras contundentes: “Não farás para ti outros deuses diante de mim. Não farás escultura nem imagem alguma… Não te prostrarás perante elas nem lhes darás culto, porque eu, Javé, teu Deus, sou um Deus cioso…”. (Ex 20, 3-5). Fica proibido, portanto, todo tipo de imagens apresentadas como divindade.
Esse mandamento começa dizendo: “Não farás para ti outros deuses diante de mim”. Ou, dito de outra maneira: “Não faças nenhum ídolo”. Apesar desta proibição tão clara, porém, e imediatamente depois de prometer que iria cumprir a lei, o povo fabrica um bezerro de ouro e o adora como se fosse um deus: “Este é o teu Deus, Israel, aquele que te tirou do Egito” (Ex 32,8). Era justamente contra isso que Deus tinha advertido o seu povo. E é por causa deste pecado de idolatria que Deus decide destruir o povo. Só a intercessão de Moisés consegue a piedade e o perdão de Deus (Ex 32, 1-14).  E Deus dá um alerta aos israelitas também quanto às imagens que eles venham a encontrar entre os povos pagãos: “Queimareis as esculturas dos seus deuses e não cobiçareis o ouro nem a prata que as recobrem” (Dt 7,25).
Naturalmente, esta proibição permanece de pé no Novo Testamento com a mesma intenção e com o mesmo objetivo. A Bíblia mostra que os cristãos também evitaram o uso de imagens que pudessem ser objeto de adoração. São Paulo diz, em seu discurso em Atenas: “Se somos estirpe de Deus, não podemos pensar que a divindade se pareça com imagens de ouro ou de prata ou de pedra, esculpidas pela destreza e pela fantasia de um homem” (At 17, 29). O apóstolo São João também declara: “Filhos meus, guardai-vos dos ídolos” (1 Jo 5,21). Para a Igreja nascente, é bem claro que a adoração deve ser tributada somente a Deus. Por isso, no Império Romano, muitos cristãos foram martirizados: por se recusarem a adorar os ídolos.
Agora, levemos em conta que os ídolos não são necessariamente esculturas ou imagens. Também há ídolos imateriais, sutis e muito capazes de nos absorver, nos quais nos refugiamos e colocamos a nossa vã segurança. São ídolos que conservamos bem escondidos em nosso íntimo: a ambição material, o desejo de celebridade, o afã de poder, a sexualidade desordenada, a ilusão de ser os únicos amos da nossa vida, algum pecado ao qual estamos especialmente apegados e muitos outros ídolos afins. Em todos os casos, qualquer ídolo nos afasta de Deus e nos distrai do nosso autêntico objetivo de vida: a salvação.
Qual é o motivo da proibição do Antigo Testamento?
A verdadeira razão dessa proibição é que Deus é o único Deus. Ele não se resigna a ser, por exemplo, o primeiro entre os deuses. Ele é o único. Por conseguinte, os deuses ou ídolos não são nada. Isaías ridiculariza os ídolos e aqueles que os adoram (Is 44, 9-20).
Era proibido representar a Deus com imagens para que as pessoas não achassem que Deus tivesse a forma de uma criatura ou fosse um objeto. No fundo, o mandamento zela pelo bem do povo, para que o próprio povo não se condene adorando um erro. O que não se aceita, portanto, é recorrer a objetos materiais e depositar neles a plena confiança que devemos ao Deus único, vivo e verdadeiro. Deus não é um ser material, mas uma realidade espiritual. Por isso é que o povo não pode adorar sequer representações materiais do verdadeiro Deus, porque corre o perigo de confundir o Deus verdadeiro com a imagem que o representa, chegando a crer que se trata de um Deus material.
Por que, então, existiram e existirão as imagens?
O que muitos desconhecem é que, assim como existe uma proibição de cultuar imagens (e já sabemos o porquê), também existe uma permissão de fazer imagens!
Vamos levar em consideração que a proibição se refere diretamente à adoração das imagens em si mesmas, e não ao simples fato de fazê-las para que elas sirvam apenas como sinal da presença de Deus. Neste sentido, Deus mesmo manda fazer coisas, objetos e imagens. É o caso da Arca da Aliança, com seus querubins de ouro e com o propiciatório também de ouro puro (Ex 25, 10-22). São elementos que não merecem as honras divinas: não podemos render culto a eles como se eles fossem Deus.
Mas o povo precisava (e precisa ainda) desses sinais sensíveis. Deus mandou construir aquele sinal da sua presença no meio do povo. Recorre-se à Arca de Deus para fazer oração porque ela é sinal da presença de Deus. Prova disso é que a própria tenda do encontro foi construída por ordem divina e estava cheia de imagens. O Templo de Jerusalém também as tinha. E fica claro que elas não violavam a proibição decretada por Deus.
Outro exemplo? A fabricação da serpente de bronze, que Deus ordena a Moisés: “Faz uma serpente de bronze e expõe-na sobre um mastro (o próprio Jesus Cristo menciona aquela serpente de bronze como símbolo dele mesmo). Todo aquele que for ferido e olhar para ela, viverá” (Num 21, 6-9). Naturalmente, não é que a serpente de bronze tivesse alguma virtude especial que a elevasse ao nível de divindade. Olhar para ela era um ato de fé e de confiança na Palavra que Deus tinha pronunciado. Tanto é que, mais adiante, o povo se desvia dessa intenção e passa a prestar culto à própria serpente. Nesse momento, Ezequias manda destruí-la (2 Re 18, 4).
São do Antigo Testamento os textos da Bíblia que proíbem fazer imagens e devem-se ao risco de o povo cair na idolatria, a exemplo dos povos vizinhos, que adoravam ídolos como se eles fossem deuses. Já os textos do Novo Testamento que falam dos ídolos se referem propriamente a ídolos adorados por pagãos, e não a simples imagens. O II Concílio Ecumênico de Niceia, por isso, no ano de 787, “justificou o culto das sagradas imagens…” (Catecismo da Igreja Católica, 2131).
O Deus do Antigo Testamento não tinha corpo, era invisível. Não podia ser representado por imagens. Mas a partir de quando Deus se revelou em forma humana, Cristo se tornou “a imagem visível do Deus invisível”, como diz São Paulo (Col 1,15). No Novo Testamento, a permissão de usar imagens que representam a divindade assume um caráter novo, graças ao fato da Encarnação do Filho de Deus. Deus continua sendo puramente espiritual, mas assumiu uma natureza humana, que é material. Por esta razão, é lógico representá-lo para lhe dar culto (Catecismo da Igreja Católica, 1159; 2129).  A representação de imagens de Cristo é completamente lícita, já que é a representação de alguém que é realmente Deus. O culto que damos a Jesus, portanto, olhando para uma imagem dele, não é de adoração à materialidade dessa imagem, mas à própria Divina Pessoa que nela está representada. E ao olharmos, por exemplo, para a imagem do Cristo crucificado, recordamos o muito que Ele sofreu por nós e nos sentimos movidos a amá-lo mais e a confiar mais nele.
Em qualquer dos casos, o cristão sabe que a imagem, embora represente Cristo, não é a divindade em si, e, por consequência, não se presta culto a essa materialidade. Uma imagem representa o Filho de Deus ou outras pessoas intimamente relacionadas com Ele: por isso é lícito representar com imagens a Virgem Maria e os santos. A imagem é simplesmente uma representação e uma lembrança daquelas pessoas: quando se ora diante de uma imagem, não se cultua o objeto, não se fala à materialidade da imagem, mas se rende culto a Deus (culto de latria), a Maria (culto de hiperdulia) ou aos santos (culto de dulia). Diz o II Concílio de Niceia, de 787 (sessão 7ª, 302): “A honra tributada à imagem se dirige a quem ela representa” (Denzinger, pág. 155).
Na Igreja, veneramos os santos porque eles merecem o nosso respeito, admiração e gratidão. Graças às suas imagens, nós os recordamos e, ao mesmo tempo, eles nos trazem à mente verdades religiosas de grande proveito espiritual, dizendo-nos algo relacionado com as suas vidas. Por exemplo, graças às imagens podemos recordar quem era o santo (leigo, religioso, bispo etc.), que virtude ele mais praticou (pureza, desapego, humildade etc.), o que o tornou santo (martírio, estudo, missão etc.). Assim também, ao vermos uma imagem da Mãe de Deus, vem à nossa memória que, no céu, nós temos uma mãe imaculada que nos ama, que intercede por nós e que nos incentiva a levar uma vida santa.
Quando vemos uma imagem das almas do purgatório, recordamos a realidade do purgatório e somos movidos a orar pelos falecidos. As imagens são uma espécie de retrato de entes queridos, a quem recordamos com respeito e carinho. Quando beijamos a foto dos nossos entes queridos que já partiram ou que estão longe, não é a foto em si o que estamos homenageando: estamos recordando, pensando e sendo carinhosos como os nossos entes queridos ali representados.
Há nos livros de história retratos de grandes personagens para que os leitores os conheçam e, caso tenham sido bons, admirem e imitem; não há nisso mal nenhum.
Em edifícios e praças públicas há estátuas de grandes heróis a cujos pés são colocadas flores. Quem critica este gesto? Quem afirma que todas as pessoas que praticam esse gesto estão “adorando imagens”? Sabemos que, na verdade, o que elas fazem é homenagear e recordar com respeito essas pessoas, dignas, para elas, de lembrança e de respeito.
Os santos, através das suas imagens, não são adorados, mas sim venerados. A adoração é reservada somente a Deus. Venerar, porém, é reconhecer o valor de alguém ou de algo que merece o nosso respeito. Nós veneramos os nossos pais e a nossa pátria, mas não os adoramos. Adoramos somente a Deus.
Um protestante me disse uma vez: “Mas ajoelhar-se diante das imagens é adoração”. Este é outro erro dos protestantes. Isto é o que eles acham. Quem pode ver o interior das pessoas e acusá-las de idolatria, fazendo um juízo temerário com base em aparências exteriores? Mesmo os mais humildes, no fundo do seu coração, sabem que uma imagem sagrada ou religiosa não é Deus, nem é o santo a quem eles querem prestar respeito. Mesmo uma criança, sem muito conhecimento religioso, entende, quando vê uma imagem, que se trata simplesmente de uma imagem.
Devemos recordar que o gesto de ficar de joelhos tem significados diferentes dependendo da intenção com que é realizado. Diante de uma imagem, é um ato de veneração a quem a imagem representa. Quando os anciãos de Israel se prostravam diante da Arca da Aliança, não se prostravam diante de uma caixa de madeira, mas diante de Deus, ali representado. Quando rezamos diante do sacrário ou diante de uma custódia, não rezamos para uma caixa ou para um objeto metálico: rezamos e adoramos a Deus, presente no sacramento da Eucaristia.
Externamente, poderia parecer que um gesto de veneração a uma imagem é semelhante ao de um pagão idólatra que adora a imagem por si mesma. Há, porém, uma diferença substancial. Qual? A intenção do coração e o significado da imagem para a pessoa. As imagens não têm, para nós, o mesmo significado que tinham para os pagãos; eles de fato as consideravam deuses. Nós não as adoramos; nós sabemos perfeitamente que as imagens são apenas representações, seja de Cristo, seja dos seus santos.
Não devemos tirar as coisas do seu contexto. O proibido é a adoração das imagens como ídolos em si mesmas. A própria palavra hebraica usada no primeiro mandamento da Lei de Deus é “pésel”, que significa “ídolo”. Na mesma língua, há outras palavras que se referem a outros tipos de imagens não idolátricas, como as decorativas ou representativas. Se uma imagem não é um ídolo, ela não representa problema algum e podemos manter os nossos templos cheios delas, tal como estava o Templo de Salomão, que foi visitado por Jesus sem que Ele fizesse qualquer objeção à presença dessas imagens.
Quando os fiéis beijam as relíquias de santos e tocam nas imagens, o que eles fazem? Expressam amor pelos intercessores ali representados e que são estímulo para a nossa vida cristã. Trata-se, é claro, de uma fé simples, como a daqueles que esperavam receber a graça da cura ao tocar nos lenços de São Paulo (At 19,12), ou como o bem conhecido caso da hemorroíssa que, ao tocar no manto de Jesus, ficou curada (Marcos 5,26-31). Alguém considera que essas pessoas foram curadas por lenços e mantos? Jesus mesmo não falou da fé como de um grão de mostarda? (Mt 17,20).
Outro protestante me disse um dia: “Se a Igreja retirasse todas as imagens dos templos, eu poderia considerar a possibilidade de voltar à comunhão com ela”.
Esta não parece ser a solução para os problemas que enfrentamos com as seitas. Não vamos destruir todas as imagens porque alguns protestantes interpretam mal os ensinamentos da Igreja ou as atitudes de um bom fiel.
A solução do problema é a catequese, para que se chegue à maturidade da fé com toda a sua liberdade interior.


O QUE DEVE SER CANCELADO?
EIS A QUESTÃO

Algumas considerações sobre a polêmica do momento: cancelar ou não cancelar a assinatura da Netflix por causa do “Especial de Natal” produzido pelo grupo Porta dos Fundos.


1. Blasfêmia e sátira estão em dois campos de sentido diferentes. A blasfêmia é uma possibilidade de desvio dentro da comunidade de fé. A sátira é uma linguagem e um recurso crítico do campo das artes, de tipo humorístico.

2. Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o “alvo” que querem atingir. O “alvo” da blasfêmia é Deus. O “alvo” da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus.

3. A sátira se constrói com caricaturas: às vezes, exagerando traços que vão na linha da crença comum, para fazer enxergar o que não se vê; às vezes, construindo imagens chocantes, para provocar criticamente a crença comum.

4. Um grupo de humor não tem, em si mesmo, compromisso com o Jesus dos Evangelhos. As igrejas cristãs, essas sim, deveriam sempre ter. Num momento em que uma figura de Jesus domina a cena pública, com implicações políticas para toda a população, essa “figura” (que, como qualquer interpretação, nunca será idêntica a Jesus) pode se tornar alvo de todos os sujeitos de uma sociedade.

5. Ninguém precisa gostar de um grupo de humor (este, pessoalmente falando, não é o estilo que aprecio). Mas este desconforto e revolta que vários cristãos estão sentindo podem ser um alerta: a sátira, talvez, nos coloque diante do verdadeiro risco de blasfêmia que estamos correndo (nós, que cremos). Não esqueçamos: nas Escrituras, Deus transmitiu sua mensagem até mesmo pela boca de uma mula!

6. Ocasião, então, para um exame de consciência: a imagem de Jesus que temos projetado publicamente (em palavras e em gestos) é, realmente, aquela que nos transmitem os Evangelhos? Trata-se dAquele que, encarnando-se na periferia da periferia daquele tempo, veio trazer Vida em abundância para todos? Somos reflexo do Jesus que – para anunciar a vitória da graça sobre as infidelidades de todos nós – preferiu caminhar e conversar com pecadores, prostitutas, pobres e doentes, ao invés de convencer sacerdotes do Templo, mestres da Lei e fariseus?

7. Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso “Especial de Natal” não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país? Declaramos guerra a um “mundo perdido”, sem considerarmos nossa sempre necessária e contínua conversão à Santidade de Deus, que deseja que nenhum de Seus filhos se perca?

8. Neste tempo de Advento, façamos nosso próprio “Especial de Natal”, agradável a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: cancelemos todas as falsas imagens de Jesus que estamos consumindo e divulgando. Abracemos, de modo definitivo, o Jesus dos Evangelhos, o Cordeiro manso e humilde de Deus, o Anunciador incansável da Misericórdia do Pai, o Único que é uma Boa Notícia para nós e para todos.

PS.: Não estou jogando com teorias... Se não ficou claro, que fique agora: há, no mínimo, silêncio nosso diante dos feminicídios, invasões e assassinatos em terras indígenas e quilombolas, precarização do direito dos idosos, truculência com pessoas pobres que não cometeram crime (inclusive crianças!)... Segundo a mais sólida doutrina cristã, essas pessoas são "imagem de Deus". O risco de blasfêmia ao qual faço alusão é absolutizar símbolos (ainda que importantes) e relativizar vidas (sempre insubstituíveis). Seria o contrário do que fez Nosso Senhor Jesus Cristo.
Francys Silvestrini Adão SJ


O pecado, como categoria teológica, ao procurar expressar a realidade humana implicada com o fenômeno do mal presente na história, tenta, ao mesmo tempo, relacionar tal realidade a um sinal de perdição ou de salvação diante de Deus criador do humano e de toda a existência do universo. Nesse sentido, o pecado, como experiência religiosa e realidade teológica, mais que problema, constitui mistério da criação. Nesse sentido, a curiosidade proporciona múltiplas interrogações e, ao mesmo tempo, uma reação como resposta que se manifesta na diversidade de tentativas em amenizar e tranquilizar a angustiante dúvida. As posturas científicas, ao interpretarem o fenômeno do mal presente na natureza cósmica, física e moral, diversificam-se; ora assemelhando-se, ora contrapondo-se[1].
Para certa teoria evolucionista, o mal está presente na criação devido ao seu estado de imperfeição. Segundo tal concepção, o perfeito é só Deus, e Deus é uno e indivisível. Caso a sua obra fosse perfeita como ele próprio, estaria atribuindo à criatura a mesma e total condição de sua natureza, de forma que o criador e a criatura seriam a mesma coisa.
Tal concepção científica contribuiu à nossa reflexão teológica a partir da história da salvação, revelando-nos um Deus que, por ser infinitamente amor e bondade, cria o humano e tudo o que o cerca com respeito e liberdade. O pecado entra no mundo criado por obra do maligno, condicionando toda a criação a sofrer um parto difícil rumo ao seu destino, que é Cristo, aquele que teologicamente resgata o sentido da evolução histórica, cujo horizonte é o Reino de Deus.
A presença de Jesus Cristo na história humana é o gosto de compromisso de Deus com a sua criação. Apesar do pecado, a graça revela, um Deus como Senhor da vida que liberta o humano. A verdadeira conversão pessoal exige mudança de ordem particular e social. O pecado está presente na história humana e universal como problema e mistério, manifestando-se concretamente nos relacionamentos interpessoais e estruturais[2].

I. AUTONOMIA DO PECADO SOCIAL
A visão pessoal do pecado não se contrapõe de forma nenhuma à visão social. Ao contrário, a dimensão pessoal pode ser considerada como pressuposto ou via de acesso ao se refletir sobre o âmbito social do pecado. Isso ocorre quando a liberdade é orientada ao próximo e atuada mediante a comunicação com ele, uma vez que o ser humano é, por sua natureza intimíssima, um ser social e seu livre agir sempre conduz a implicações sociais.
Sobre essa base podem-se compreender os mecanismos e as estruturas em que o ser humano e a sociedade estão inseridos. Não se trata de fatalidade ou determinismo, mas criação dos seres humanos, que devem assumir a responsabilidade de forma dinâmica e criativa[3].

1. A libertação como condição da liberdade
Os mecanismos e estruturas pecaminosas desenvolvem-se dinamicamente, a partir de certas tendências ideológicas que influenciam e condicionam o que se encontra à sua volta, implicando, assim, a liberdade e a consciência de cada pessoa.
Para o aspecto estrutural e social do pecado, não existe liberdade individual em estado perfeito, pois cada liberdade é uma liberdade contextualizada, remanejada por estruturas e mecanismos carregados de injustiças e morte. Consequentemente a liberdade não tem possessão de si mesma, manifesta-se sempre alienada devido à sua ambiguidade histórica. Contudo, a busca de sua realização exige a incansável busca constitutiva de sua própria natureza. Nesse sentido a liberdade, apesar de seu relativismo, sempre conduz em si própria importante força de libertação, uma vez que o ser humano sempre é, simultaneamente, sujeito e objeto de sua existência.
A concepção contemporânea ampliou o conceito de pessoa. A mentalidade científica do novo tempo não aceita mais o significado de pessoa como realidade expressivamente introvertida, individualista, fechada, como uma ilha distante e isolada. O conceito de pessoa que faz referência a um ser subsistente em si mesmo, que age a partir de seus próprios princípios intimistas, não tem mais sentido para o novo tempo. O novo paradigma das ciências concebe a pessoa como um ser de relações a partir da categoria da intersubjetividade. O ser pessoal age mediante a sua capacidade de relação com a comunidade e com o social. Do encontro pessoal deve cultivar a comunhão, a responsabilidade e o amor. A mesma coisa se pode dizer da liberdade e da libertação. Elas encontram seu conteúdo quando estabelecem relação, quando correspondem plenamente à integridade pessoal e social. Disso resulta a orientação ao outro, comunicação entre o Senhor Deus, que é livre, com a pessoa livre. Para a nossa realidade latino-americana, a prática em favor da vida e dos seus direitos é um pressuposto para a “liberdade libertada”, assim como para a formação da “consciência conscientizada”[4].

2. A caminho de uma nova consciência
Ao abordarmos a problemática do pecado em nosso contexto latino-americano, é inevitável deixarmos de levar em conta a condição excludente a que se vê submetido o hemisfério sul do nosso continente. A nova ordem econômica do capitalismo transnacional expressa uma situação de pecado[5]onde os mais fortes continuam mais que nunca dominando os fracos nacional e internacionalmente.
Dentro de um mundo onde os sistemas econômicos e políticos funcionam em virtude do seu poder explorador, no decorrer de todo o processo histórico constatamos sempre esta situação de pecado onde alguns sempre exercem uma prática dominante sobre muitos, e isso tanto em nível de relações interpessoais quanto estruturais[6].
Nós, que refletimos tal situação, a experimentamos e procuramos interpretá-la de várias maneiras. Contudo, solidarizamo-nos com a experiência comum de que somos frágeis diante dos desafios que defrontamos no mundo do qual somos parte. Os sistemas que o dominam não são de responsabilidade exclusivamente individual, isso porque tais sistemas possuem sua autonomia de responsabilidade ao carregarem em suas instituições a presença destruidora do pecado.
Por outro lado, isso pode induzir-nos à autodefesa, tentando amenizar nossa participação no estado reinante do pecado. Essa postura busca justificar que não somos nós que criamos tais sistemas, nem temos o poder de estabelecer e controlar os mecanismos dos mercados mundiais; contudo, podemos estar sendo coniventes com as regras de um capitalismo renascente, alicerçado numa ideologia de corte neoliberal — preocupante para muitos, em termos de presente e futuro. Podemos estar sendo condicionados a participar do jogo da oferta e da procura, da produção e do consumo. Os nossos protestos parciais não modificam os fatores de injustiça e de pecado existentes em tais, sistemas.
Disso podemos concluir que somos simultaneamente sujeitos e objetos da ordem mundial tal como se apresenta. Nossos atos maliciosos estão intimamente ligados com uma atitude estruturalmente maliciosa, preexistente e anônima.
Para a teologia de corte latino-americano, essa situação concreta da pessoa e da sociedade constitui o ponto de partida da elaboração de sua reflexão. O ambiente em referência é sintomaticamente feito de opressão, exploração, injustiça e violência institucionalizada. A análise e a interpretação teológica da realidade concreta penetrada pelo pecado vêm da fé na graça de Deus, presente na Boa Nova pregada por Jesus Cristo.
A Igreja e sua teologia, ao chamarem de pecado as estruturas e mecanismos que condenam as pessoas a uma vida de alienação e exploração, não desejam diminuir a importância da dimensão pessoal. O ponto de partida, o lugar epistêmico da construção teológica é um problema e um mistério pessoal e social, pois a relação com Deus e com o próximo inevitavelmente se manifesta nas mesmas estruturas e mecanismos que exercem força influente, impedindo uma vida de relação plena e humanamente digna. As instituições, as estruturas e os mecanismos sociais não são concebidos simplesmente como expressão de uma ordem essencial preestabelecida para um fatalismo determinado e um destino imutável. Tal visão histórica, própria de um tempo estagnado e inerte, não tem sentido para uma mentalidade teológica que anuncia a esperança e a evolução da consciência humana que ansiosamente busca Jesus Cristo — aquele que, como Deus e como homem, na história recupera e dá verdadeiro e profundo sentido à vida humana. Humano como Jesus, só poderia ter sido Deus. Jesus Cristo é o exemplo de humanista que deve ser imitado e seguido pelos cristãos.
Para a teologia do novo tempo, qualquer realidade social é criação histórica, fruto da livre atividade humana. À medida que a injustiça, a miséria e a opressão resultam de estruturas econômicas, sociais e políticas, atrás disso está camuflada a responsabilidade humana. Essa planejada e efetiva produção do mal é chamada pela teologia contemporânea de situação de pecadopecado estrutural, pecado social[7].
Assim, a superação do pecado deve conter sempre em si o elemento da libertação. A liberdade, para garantir uma qualidade compromissada e solidária, não deve ser buscada somente como valor que objetive a autorrealização do sujeito, mas também como valor implicado com a objetividade social. Disso se conclui que a libertação do sujeito, vítima do pecado, deve manifestar-se mediante a conversão do coração da pessoa, concomitantemente com a conversão das estruturas sociais nas quais o pecado se tornou enfermidade crônica e se cristalizou como negação concreta de liberdade ao adquirir poder nos sistemas socioeconômicos implantados no continente latino-americano.
Por isso é de grande relevância que a conversão do coração e a mudança das estruturas não sejam vistas como alternativas, mas dentro de uma realidade analética de recíproca interdependência. É em relação à mencionada interdependência que o pecado social justifica e garante sua autonomia[8].

II. PECADO SOCIAL E NOVA ORDEM MUNDIAL
O pecado social não apenas agride fisicamente a vida humana, mas também ataca os princípios fundamentais que dão consistência à valorização da vida humana como um todo. Trata-se de um rompimento com o Ethos, com a própria razão da vida, da cultura, do patrimônio ético-moral que as religiões, as artes e as ciências construíram ao longo de seu desenvolvimento histórico; valores que dão sentido ao projeto do Deus criador. A violação dos legítimos direitos da humanidade é sintomática em nossa realidade atual[9].

1. A modernidade e sua cultura
Ao refletirmos sobre o pecado na sociedade contemporânea, não podemos prescindir dos valores impostos pela modernidade, que carrega em seu bojo uma cultura universalizante propagadora do pecado no mundo e por ele penetrada[10]. A nova fisionomia da modernidade assume características próprias deste tempo devido ao recente fenômeno da nova ordem mundial.
É desafiante estabelecer diálogo com a cultura moderna, uma vez que há tensão entre a complexidade de tal cultura e a busca ansiosa de alternativas que respondam à solução para os diversos problemas de ordem social que concretamente estabelecem uma situação de pecado. Tanto as Igrejas e suas pastorais quanto as organizações, movimentos e todas as entidades de boa-fé — que lutam incansavelmente pelos direitos da humanidade dentro de uma sociedade em mudança — aspiram a uma sociedade convertida segundo a vontade de Deus.
A mudança a que nos referimos aqui não significa conversão. A conversão é transformação plena, nova e criativa, e não simples reforma. Atualmente a mudança social acontece como exigência permanente da própria modernidade, que introduz um rompimento cultural ao assumir um princípio contestatório do passado e uma busca desenfreada de novas experiências, sem os devidos critérios éticos como meios necessários para se atingir um resultado humanizante[11].
Ao mesmo tempo em que a sociedade assume atitude contestatória aos princípios éticos perenes, a economia passa por grandes mudanças: torna-se moderna, mostrando a nova face do capitalismo. Os interesses econômicos do capitalismo renascente, através de seus mecanismos próprios, subordinam o conteúdo ético-moral presente nas ciências humanas. Estas — juntamente com setores da religião, da arte e da política — adquirem independência na estrutura social, perdendo seu poder influente no poder econômico, que autônoma e independentemente exerce sua força hegemônica[12].
Isso compromete a evolução do sonho da humanidade: a conquista democrática. Esta nova fase histórica marca o limiar do terceiro milênio, gerando mudanças profundas e rápidas, provocadas pela inteligência e criatividade do ser humano. Trata-se de mudança social e cultural que atinge a todos. Estamos inaugurando a terceira grande revolução tecnológica, que traz consequências em vários campos: social, cultural, educacional, sexual etc. Trata-se da revolução termonuclear, segundo Darcy Ribeiro, a revolução da informática, que resultará num desfecho social construtivo, constritivo ou destrutivo. Tal revolução gera uma crise civilizatória tão profunda mundialmente, partindo de dois polos assimétricos, Sul e Norte[13], que não se pode deixar de perceber juntamente com o processo os condicionamentos do pecado institucionalizado, pois a idolatria do novo tempo consiste exatamente na crença das promessas messiânicas do poder neoliberal, que, por intermédio dos fetiches do progresso moderno, anuncia a solução mágica para o desenvolvimento social. Não há desenvolvimento social alheio ao desenvolvimento humano. Lutar contra o pecado social, na América Latina, é lutar contra os ídolos-deuses modernos, aos quais a idolatria manifesta-se na busca pela força obsessiva do poderdo dinheiroda técnicada superioridade e do prazer[14].

2. A sociedade moderna e sua ideologia
Partindo da realidade da modernização ou modernidade no atual contexto, tal novidade cultural assume como filosofia o neoliberalismo. Todos os países se sentem pressionados a entrar nesse processo e a aderir a essa lógica. A nova utopia social consiste em buscar a modernização através do neoliberalismo. Para a racionalidade da nova ordem, o processo de mundialização deve atingir os diversos setores da vida social: mundialização da economia, da ciência, da comunicação da informatização e da tecnologia.
O neoliberalismo imprime a lógica que fundamenta a doutrina política da atual fase capitalista, alicerçando o pensamento da nova modalidade de acumulação do capital. A produção básica deixa de ser nacional ou internacional para tornar-se mundial. É a economia da globalização. Essa nova orientação da economia assume como diretriz a ser seguida a utilização da tecnologia de ponta, que só os países do Norte detêm, e, apesar de ser em parte transferida para os países do Sul, não lhe dá o direito de gerenciamento e de domínio, mas apenas o direito de dominar uma tecnologia obsoleta. Sem domínio tecnológico não há condições de competitividade, não há autonomia. A nação torna-se periférica, excluída, não participa do mercado de igual para igual, torna-se nação sem respeito. Tal tipo de mercado mundialmente estruturado fundamenta-se num funcionalismo dogmático, perverso para a vida social e pessoal.
A sociedade baseada nos princípios da filosofia neoliberal é desumana e ateia, pois os pobres, os deficientes e os débeis são ameaças ao bem-estar dos poderosos. O funcionamento da sociedade de corte neoliberal é excludente. Toma sempre o partido de uma elite dominante e marginaliza a maior parte da sociedade. Às massas sobrantes é negada a possibilidade de qualquer tipo de convivência social, até mesmo a do estado de exploração[15].
Para esse modelo social, a parte crescente da população excluída é um estorvo, a economia caminha melhor com a sua inexistência. Os excluídos são os sem nada, não têm nenhuma serventia, pois “os ricos enriquecem sem eles, os governos são eleitos sem eles, a sociedade civil se organiza sem eles, são um custo a mais”[16].
A liberdade apregoada é absolutizada em chave individualista, promove a competitividade, a concorrência, o carreirismo e a livre iniciativa como motor da história. Tal ideologia tenta excluir o poder do Estado de direito e o direito de Estado como protetor do bem comum[17]. O Estado da sociedade neoliberal torna-se tirano: tudo é negociável, tudo se relativiza; torna-se Estado-objeto submisso ao novo poder econômico. Nesse Estado se caracteriza a individualização dos ganhos e a socialização das perdas.
No Brasil, hoje mais do que nunca, é insuportável o quanto se paga de impostos, encargos sociais, taxas etc. Diante de tal situação, os direitos humanos da população empobrecida, que deve encontrar na instituição estatal o seu aparato protetor, ficam completamente abandonados. Com a ausência de tal poder político de direito e de fato, os direitos humanos são estruturalmente violados e o Estado torna-se um traidor da justiça e da paz, pois deixa de exercer a sua interferência responsável na defesa do bem comum de uma população sofrida e empobrecida.
Os interesses do atual sistema econômico reduzem o ser humano a algo fabricado e descartável por este mesmo sistema. Apesar de o sistema prometer liberdade e bem-estar no plano privado, na prática não garante sequer um mínimo de bem-estar à sua população, condenada à miséria e à exclusão. A economia neoliberal é uma verdadeira ameaça aos dois terços da humanidade, que se concentram, em sua maior parte, no Sul do globo terrestre e vivem em extrema pobreza. A opção por esse modelo econômico-político é perversa. Trata-se de opção por uma ética eficientista que se impõe à ética solidária que defende a justa distribuição dos bens do nosso planeta[18].
A partir da ótica dos inúmeros e graves problemas sociais produzidos pelo sistema da nova ordem, que atingem e agridem os legítimos direitos humanos, devemos constatar a situação de pecado institucionalizado. Apesar de todo o progresso que a modernidade oferece, o desenvolvimento humano deixa ainda muito a desejar. Há crescente situação de pobreza, aumento do analfabetismo, consequência do abandono da área educacional, falta de moradia, falta de política agrária, fome, subnutrição, mortalidade infantil, corrupção, desonestidade política, desemprego como fruto da recessão, violência urbana e rural etc.
A saída política que costuma ser dada a tantos problemas sociais não passa de paliativos que atacam os efeitos, e nunca as causas. Entre tais problemas emerge o problema do crescimento demográfico. Buscam-se saídas no aborto, na esterilização, na eutanásia, na pena de morte. Não poucos políticos tiram proveito eleitoral disso. São temas explorados e manipulados pelos meios de comunicação[19].
O pecado social identifica-se com o projeto teórico e prático que nos apresenta o quadro panorâmico da nova ordem, onde uma realidade idolátrica contrapõe-se ao projeto de Jesus.
Jesus, por meio de sua pregação e ação, tornou presente em nosso meio o projeto do Reino de Deus. Reino de solidariedade, de amor e de paz. Como cristãos somos convocados pela fé no Senhor e pela esperança na História criada e por criar a “promover a justiça e a participação no interior de nossas nações, educando nestes valores, denunciando situações que os contradizem e dando testemunho de relação fraterna”[20].
Na graça de Deus, todo pecado pode ser derrotado, como nos encoraja a carta de São Paulo: “… onde avultou o pecado, a graça superabundou, para que, como imperou o pecado na morte, assim também imperasse a graça por meio da justiça, para a vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor”[21].


[1] Cf. Antônio Moser, O pecado ainda existe?, São Paulo, Paulus, 1976, pp. 34-40.
[2] Cf. Catecismo da Igreja católica, nº 386; Teilhard de Chardin, L’Énergie humaine, Paris, Seuil, 1963, p. 105; id., Le phénomène humain, Paris, Seuil, 1955, p. 346; G. Crespy, La pensée théologique de Teilhard de Chardin, Paris, Universitaires, 1961, p. 122; E. Martinazzo, Teilhard de Chardin, Roma, Herder, 1965, p. 107.
[3] Cf. A. Moser, Teologia moral: desafios atuais, Petrópolis, Vozes, 1991, p. 27; C. Boff, “O pecado social”, in REB nº 37, 1977, pp. 675-701; Frei Betto, “Dimensão social do pecado”, in Grande Sinal, Petrópolis, Vozes, 1975, pp. 491-502.
[4] Cf. A. Moser, Teologia moral: desafios…, pp. 28-30; id. e B. Leers, Teologia moral: impasses e alternativas, Tomo V, Petrópolis, Vozes, pp. 145-168; B. Häring, Teologia moral para o terceiro milênio, S. Paulo, Paulus, 1991, pp. 46-48; J. B. Libânio, Pecado e opção fundamental, Petrópolis, Vozes, 1975; J.Barreiro, Educação popular e conscientização, Petrópolis, Vozes, 1980, pp. 51-100.
[5] Cf. Doc. de Puebla, nº 437.
[6] Cf. Elza Morante, La Storia, Torino, Giulio Einaudi Editore, 1974, p. 7.
[7] Cf. Doc. de Puebla, nn. 281, 452.
[8] Ibid., nn. 28, 330, 487; B. Hãring, op. cit., pp. 49-74.
[9] Cf. Doc. de Puebla, nn. 63-70; S. Domingo, nn. 9, 44.
[10] Cf. GS 56; Puebla, nº 421.
[11] Cf. CNBB, Ética: pessoa e sociedade, Doc. nº 50, S. Paulo, Paulinas, nº 32.
[12] Cf. Doc. S. Domingo, nn. 252-262; CNBB, op. cit., nn. 20-28, 31.
[13] Cf. D. Ribeiro, O processo civilizatório, Petrópolis, Vozes, 1979, p. 182.
[14] Cf. Doc. de Puebla, nn. 405, 491, 493, 500; S. Domingo, n. 154; Catecismo da Igreja católica, nn. 2113, 2289.
[15] Cf. CNBB, op. cit., nn. 33-37; G. Iriarte, Neoliberalismo sim ou não?, S. Paulo, Paulinas, 1995.
[16] A. Mercadante, “A estabilização e os sem nada”, in Folha de S. Paulo, 21/12/95, p. 8.
[17] Cf. nota 15.
[18] Cf. CNBB, op. cit., nn. 29-30.
[19] Idid., nn. 167, 179; P. C. F., Evoluções demográficas: dimensões éticas epastorais — Instrumentunt laboris, Cità del Vaticano, Libreria Editrice Vaticana.
[20] Cf. Doc. de S. Domingo, nº 209.
[21] Rm 5,20.

Pe. José Benedito Simão

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