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Repartiram entr si as minhas vestes, lançaram sortes sobre a minha túnica.

A ciência moderna tem comprovado de múltiplos modos a autenticidade do Santo Sudário, o lençol que envolveu o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo morto. Agora, recente obra de cientista francês comprova a veracidade também da túnica usada por nosso Divino Salvador quando carregou a cruz até o Calvário, como sempre se acreditou.
Quem chega à cidadezinha de Argenteuil – hoje absorvida pela periferia urbana de Paris – não faz idéia do imenso tesouro que sua igreja paroquial encerra. Em relicário dourado, num templo habitualmente deserto, nada mais nada menos que a preciosa Túnica de Nosso Senhor Jesus Cristo!
A mesma que, segundo tradição milenar da Igreja, foi tecida por Nossa Senhora para o menino Jesus. E a piedade popular afirma que foi crescendo com Ele no transcurso dos anos. A mesma que Ele usou na sua Paixão, quando foi entregue pelos fariseus a Pilatos, e que portou até o alto do Calvário, esmagado sob o peso da cruz. A mesma que os cruéis algozes romanos, vendo que era inconsútil – isto é, formando uma só peça, sem costuras – lançaram à sorte, para não ter que dividi-la entre eles. Assim fizeram, cumprindo o que fora anunciado pelos Profetas.
Na Igreja paroquial de Argenteuil, o ambiente é de desolação. Os sacerdotes, há tempos, tornaram-se padres-operários, e não há quem atenda bem o visitante ou peregrino.
Já se foram os tempos – e entretanto os fatos que vamos relatar pressagiam próximo o dia em que eles voltarão – em que as multidões vinham cheias de fé, transidas(Impregnado, repassado) de amor sobrenatural, venerar a Túnica encharcada do Sangue do Cordeiro de Deus derramou em abundância para a Redenção da humanidade pecadora.
Voltaram-se contra a preciosa relíquia os protestantes, com ódio furibundo(Furioso, enfurecido, colérico). Tentou destruí-la a sanha(Ira, fúria, rancor, ódio) ímpia da Revolução Francesa, ébria(Que se acha em estado de anormalidade por efeito de paixão ou de qualquer intensa perturbação emocional; alucinado) de impiedade, ceticismo e furor anticristão. Desferiu-lhe um tremendo golpe de desprestígio o mito do progresso que, penetrando na Igreja , favoreceu o naturalismo. E com o advento do “progressismo” dito católico, adverso às devoções tradicionais, a relíquia foi relegada a um olvido ainda maior. Até que, por fim, a tendência de fazer da Religião preponderantemente uma experiência sensível, num ambiente de excitação e festa, pretendeu sepultar para sempre aquele despojo sacratíssimo da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Confirmado pela ciência moderna fato ocorrido a 2000 anos.



A Túnica permanecia em Argenteuil lembrando, apesar do esquecimento a que era relegada, a bondade infinita do Redentor, desprezada pelos séculos de pecado e de Revolução. E, por isso mesmo, era uma increpação muda em relação a tanta recusa e dureza de coração. Ela apesar de ser ignorada e menosprezada, incomodava. Aos fatores do caos na Igreja – denunciava-lhes o desvario. Às almas fieis, inspirava profunda compaixão e contrição enternecida. E naqueles que tinham notícia dela – em número aliás maior do que se crê -, a graça alimentava uma esperança.
Para esse abandono tão marcante, contribuía também o fato de que, no passado, haviam desaparecido as provas da autenticidade da relíquia. E sabe-se bem quanto o espírito moderno é ávido de demolir todo objeto religioso que não se cerca de atestados, até de clareza matemática...
Mas eis que, nesta passagem de milênio, lançando mão de equipamentos os mais avançados, a ciência moderna veio rasgar esse cerco de isolamento, afirmando, com base em complicados exames: “Essa é a Túnica com que Nosso Senhor Jesus Cristo carregou a Cruz até o alto do Calvário, como sempre se acreditou!”
As tais conclusões conduz, notadamente, o trabalho intitulado “Jesus e a ciência – a verdade sobre as relíquias”, do engenheiro André Marion, pesquisador do mundialmente reputado Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS (Paris). Esse professor é especialista no processamento numérico de imagens, leciona na Universidade de Paris-Orsay e é autor de numerosas publicações científicas e técnicas. Ele já fez descobertas surpreendentes a respeito do Santo Sudário de Turim, com base em métodos ótico-digitais ultra-modernos.
Há poucos e parcos registros do destino da Santa Túnica de Nosso Senhor Jesus Cristo logo após a Crucifixão e nos primeiros séculos.
Sabemos pelo Evangelho que foi tirada a sorte para indicar quem tomaria detentor da Túnica do Divino Redentor, tendo a relíquia ficado na posse de um soldado romano. Provavelmente ela foi recuperada pelos primeiros cristãos, voltando talvez a Nossa Senhora ou aos apóstolos. Tudo indica que a veneração da Túnica ficou restrita aos discípulos. Com efeito, após Pentecostes, a Sinagoga desatou impiedosa e exterminadora perseguição aos cristãos.
Nossa Senhora foi residir em Éfeso, fora da Terra Santa com João Evangelista.
O ódio persecutório dos judeus de então – que entrou num recesso após a destruição de Jerusalém – logo cedeu lugar às perseguições romanas iniciadas por Nero no ano 64. Até que, em 312, o Imperador Constantino, aboliu o culto pagão e passou a favorecer o Cristianismo.
Em 326, Santa Helena – mãe do próprio Constantino – viajou à Ásia Menor e a Terra Santa e trouxe as relíquias da Paixão, que foram expostas a veneração pública. Assim a Santa Cruz, a Coroa de Espinhos, os pregos da Paixão, a Túnica de Nosso Senhor, o Véu da Verônica e outras relíquias de incomensurável valor foram sendo levados a Constantinopla, nova capital do Império Romano.
No início do século IX, Irene, Imperatriz do Oriente, ofereceu a Santa Túnica de Nosso Senhor como presente ao Imperador Carlos Magno, que acabara de ser sagrado Imperador do Ocidente pelo Papa São Leão III. Carlos Magno, por sua vez, confiou a custódia da relíquia à Abadia de Nossa Senhora da Humildade, localizada em Argenteuil, 30 quilômetros de Paris. Esse mosteiro estava reservado para as grandes damas da corte que se afastavam do mundo. A Abadessa Théodrade, era uma das filhas do grande Carlos, e célebre por sua beleza e pelo zelo em implantar a regra de São Bento nos mosteiros do Império carolíngio.
Porém, mais um espectro ameaçador ergueu-se contra a Túnica embebida no Sangue Redentor. Os vikings, ferozes guerreiros pagãos da Escandinávia, assolaram nos séculos IX e X as costas da França e entraram pelos rios massacrando as populações, destruindo as cidades e pilhando os templos. Paris foi atacada seis vezes, sendo que, em 845, por cerca de 120 navios vikings. O perigo era iminente. A Abadessa Théodrade e as religiosas tiveram que abandonar o mosteiro.
Surgiu então o dilema: o que fazer da divina Túnica? Era arriscado às religiosas transportarem-na, pois poderiam ser surpreendidas na estrada. Solução encontrada: guarda-la num cofre, junto com os certificados de autenticidade da relíquia. O cofre por sua vez, foi murado no interior da igreja, numa altura que não chamaria atenção dos bárbaros.
Os anos transcorreram. A princesa imperial que se tornara abadessa e as demais religiosas faleceram no exílio. E levaram consigo o segredo.
No século XII, quando o Abade Suger, de Saint Denis, restaurou o antigo Mosteiro de Argenteuil, pairava um mistério sobre o local. Sabia-se que a Túnica estava lá. Mas... Em que lugar? O Abade ordenou que se efetuassem restaurações. Assim em 1156 – em virtude de uma visão, segundo uns; devido a providencial acaso, segundo outros – os pedreiros descobriram que uma parte da parede da igreja abacial era oca. Vasculhando, encontraram um cofre dentro da qual estava a Santa Túnica, com os certificados de autenticidade.
Ao tomar conhecimento do fato, um frêmito de fé e devoção perpassou toda a França. No mesmo ano, os Arcebispos de Sens e Rouen, os Bispos de Paris, Chartres, Orléans, Troyes, Auxerre, Châlons, Èvreux, Meaux e Senlis procederam ao reconhecimento da relíquia e dos documentos anexos, e lavraram famoso atestado conhecido como Charte de 1156. E, numa cerimônia memorável, apresentaram a Túnica para uma multidão de fiéis, entre os quais figurava o Rei Luís VII.
Sucederam então séculos em que gerações de nobres, burgueses e plebeus peregrinavam em grandíssimo número, recebendo graças extraordinárias e sendo favorecidos por milagres, que indiretamente confirmavam a autenticidade de relíquia tão venerável.
No fim da idade média, uma perseguição indizivelmente mais encarniçada desatou-se contra a Túnica de Argenteuil. A Revolução protestante. Em 1544 as guerras de Religião atingiram o clímax, e o Rei Francisco I mandou fortificar Argenteuil. Mas não foi suficiente. Em 1567 os protestantes invadiram a cidade, incendiaram a igreja e enforcaram o pároco. Mas foi como se a Santa Túnica tivesse desaparecido de entre os muros do santuário. Os huguenotes nem sequer a viram, e nada puderam fazer contra ela. Depois do massacre “ela reapareceu intacta, misteriosamente como tinha sumido”.
Reis e Rainhas continuaram a peregrinar a Argenteuil com freqüência. Os milagres se multiplicaram, os Papas cobriam a santa relíquia com inúmeros privilégios, os nobres enriqueciam o santuário e os historiadores elaboravam seus primeiros estudos.
Em 1790, a Revolução Francesa, herdeira do furor anticatólico protestante, voltou-se contra a sagrada Túnica. O Pároco da basílica, Padre Ozet, procurou um meio termo com os revolucionários e jurou a Constituição Civil do Clero, ficando excomungado ipso facto. Os revolucionários radicalizavam-se, tendo então o sacerdote juramentado doado o relicário em vermeil, todo o ouro e a prata da Igreja á Convenção Nacional, na ocasião empenhada na eliminação de nobres e opositores. Em 18 de novembro de 1793 o pároco, na sua política de concessões, concebeu uma idéia desesperada e insana: rasgou a Túnica inconsútil, enterrou a parte principal no jardim e distribuiu outros pedaços entre alguns paroquianos. Aquilo que os sádicos carrascos de Nosso Senhor não fizeram, fez um sacerdote de Cristo, preocupado em estabelecer acordos com a iniqüidade.
As tentativas de se tornar simpático a Revolução de nada adiantaram. O Padre Ozet foi preso e passou dois anos no cárcere, tendo sido libertado no fim do terror. Logo desenterrou o pedaço principal e foi procurar os outros fragmentos esparsos. Mas só recuperaram alguns. Com eles reconstitui a Túnica, faltando até hoje uma parte importante da frente. Por sua vez, as “autênticas” (documentos) da relíquia desapareceram para sempre.
Primeiros exames científicos.
Os trabalhos de 1892 permitiram efetuar a primeira investigação científica a qual constatou:

a) Tratar-se de túnica inconsútil;
b) Esteve em contato direto com apele;
c) Fora marcado com grandes manchas de sangue;
d) Era tecida com fio de lã de ovelha, fino como pelo de camelo, com uma trama em espinha de peixe;
e) Era de cor marrom escuro avermelhado, lembrando o hábito franciscano ou carmelita.

As análises do Dr. Philippe Lafon, diretor do Laboratório de Pesquisa Aplicada à Medicina e Higiene, e do Dr. J. Roussel, membro da Sociedade de Química de Paris, corroboraram (Dar força a; fortificar, fortalecer) que as manchas eram de sangue. Em 1983, estudos microscópios da famosa Manufatura dos Gobbelins indicavam tratar-se de tecido com todas as características dos primeiros séculos da era cristã no Oriente Médio.
O Parecer foi ratificado em 1931 por numerosos especialistas consultados pelo Pe. Parcot.
Na época de Nosso Senhor, a indumentária masculina compunha-se habitualmente de várias peças: a primeira, mais interior, envolvia a cintura; a segunda era uma túnica de baixo, que ia até os joelhos (este é o caso da Túnica de Argenteuil); a terceira, uma túnica que ia até os pés; e, por fim, o manto, ou capa, dobrada sobre os ombros, além de sandálias.
A Túnica é inconsútil. Esse tipo de túnica era pouco freqüente e, de modo geral, indicava posição social. Também sobressai a excelência do fio e a perfeição do feitio. Ela é sedosa ao tato. A trama é tão delicada que pode até passar despercebida. Segundo o costume da época. Nossa Senhora deve ter, Ela própria fabricado o fio, fiando continuadamente quatro ou cinco fibras de ovelha; e depois tecido a túnica num tear caseiro. A cor avermelhada ou arroxeada da tintura é comum, não sendo própria dos ricos, que usavam púrpuras. Bem podemos imaginar o amor insondável com que Ela se empenhou na tarefa, quiçá já antevendo o destino sublime, trágico e grandioso que teria aquele tecido. Sob este ponto de vista, a Santa Túnica de Argenteuil também é uma relíquia indireta da Mãe de Deus.
Os rigorosos exames do Professor Marion.
A Santa Túnica fica normalmente dobrada num relicário, onde pode ser vista através de um vidro protetor. Ela é desdobrada e exposta solenemente a cada 50 anos. Por ocasião da exposição solene de 1934, ela foi submetida a exaustivo estudo fotográfico, incluindo o uso de raios infravermelhos e ultravioletas. Em 1984 houve a exibição pública, sendo tirada fotos só por amadores.
Em 1997, o Professor Marion, que havia feito sensacionais descobertas no Santo Sudário de Turim com técnicas computacionais não destrutivas, solicitou ao Bispo de Pontoíse, custódio oficial da relíquia para praticar análogos testes na Santa Túnica de Argenteuil. A resposta foi negativa. O Professor Marion encaminhou outro pedido ao Vaticano e recebeu da Secretária de Estado igual recusa.
Enquanto isso, o especialista localizou nos arquivos da Diocese de Versailles as chapas tiradas em 1934. Estavam bem conservadas. Sobre elas aplicaram as técnicas de digitalização de imagens, baseadas em scanners e computadores poderosos. É de salientar a precisão do método, que chega a ser de 10 a 20 milésimos de milímetro.
Assim ele pode mapear as manchas de sangue, que não são facilmente perceptíveis num primeiro olhar. Por fim, comparou o mapa obtido com as manchas de sangue -aliás, minuciosamente estudadas- do Santo Sudário de Turim.
Porém, desde logo surgia uma dificuldade. O Santo Sudário envolveu o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo esticado e imóvel no Santo Sepulcro, enquanto a Santa Túnica de Argenteuil fora portada por Ele vergado sob a Cruz. Caminhando com passo cambaleante, desequilibrando-se e caindo na ruela pedregosa, imensamente enfraquecido por desapiedadas torturas.
Se imaginarmos Nosso Senhor segurando com suas mãos a extremidade da Cruz na altura do ombro, é fácil supormos que a Túnica deve ter formado pregas. Essas pregas raspavam nas chagas abertas nas divinas costas, enquanto a parte da frente da Túnica ficava solta por efeito da curvatura geral do corpo. Todos esses fatores faziam com que o sangue se espalhasse no pano de um modo irregular.
O Professor Marion solicitou então a ajuda de um voluntário com as proporções anatômicas do Santo Sudário. Ele simulou os movimentos da via Crucis, utilizando uma túnica do mesmo tamanho da de Argenteuil. Os movimentos foram repetidos várias vezes e em várias formas, tendo sido sistematicamente fotografados.
A seguir com base nessas fotos e por métodos computacionais, o Professor Marion criou um primeiro modelo virtual do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo carregando a Cruz. No monitor do computador esse modelo aparece como o desenho de um manequim. Sobre ele aplicou então as imagens da Túnica de Argenteuil. Dessa maneira reproduziu as pregas, que naturalmente se formam pelo ajuste do corpo, e a difusão das manchas de sangue provocada pelos movimentos dolorosíssimos sob a Cruz. Da mesma maneira aplicou a imagem da Santa Túnica a um segundo modelo virtual com base no Santo Sudário de Turim.

E EIS A ADMIRÁVEL SURPRESA!

Na primeira experiência, a distribuição das manchas sanguíneas na Túnica correspondeu perfeitamente aos ferimentos e às posturas próprias ao carregamento da Cruz. Na segunda, as manchas ficaram posicionadas de modo a se superporem exatamente com as chagas do Santo Sudário.
Em ambas as experiências, na tela do computador aparecem às feridas – as mais sangrentas de todas - provocadas pelo madeiro, bem diferenciadas das horríveis dilacerações dos açoites da flagelação, indicando a posição da Cruz.
Até pormenores históricos que intrigavam os cientistas ficaram esclarecidos. Um deles é que os romanos - executores materiais da Crucificação, sob a pressão do ódio judeu - não costumavam obrigar o condenado a carregar a Cruz inteira. Eles já deixavam o tronco principal encravado no local do suplício - no caso, o Calvário -, mas forçavam o sentenciado a levar a trave da Cruz, chamada patibulum.
Em sentido contrário, os quatro Evangelhos não falam do patibulum, mas só da Cruz: “Et baiulans sibi crucen exivit in eum” (João 19, 17). São Mateus e São Marcos e São Lucas mencionam o cruzeiro no episódio em que Nosso Senhor Jesus Cristo a carregá-lo.
Ora, na análise computadorizada das fotografias da Túnica aparecem com toda clareza possível às chagas e tumefações provocadas por uma cruz, e não por um mero patibulum. As manchas de sangue indicam que a Via Sacra os dois madeiros cruzaram-se na altura da omoplata esquerdo de Nosso Senhor.
Na iconografia tradicional, na Via Sacra Nosso Senhor aparece habitualmente com um cíngulo, ou cordão cingindo os rins. Tal cordão não deixara nenhum vestígio conhecido. Mas, no ensaio digital, a presença do cordão, de que nos fala a tradição, aparece perfeitamente identificada!
A conclusão do Professor Marion é a seguinte: “O procedimento praticado foi de longe, muito mais preciso que os que tiveram lugar no passado. Segundo nossos antepassados, era necessário acreditar que um só e mesmo supliciado tinha manchado com seu sangue a túnica (de Argenteuil) e o Sudário (de Turim). Essas repetidas afirmações requereriam um estudo aprofundado: desejamos então verificar, por nós mesmos, se tal comparação pode se justificar. Os resultados aparecem, entretanto conclusivos. “As correspondências das feridas é um argumento a favor da autenticidade das duas relíquias, que devem se referir bem ao mesmo supliciado”. È muito difícil imaginar que falsários tenham tentado correlacionar de modo tão perfeito os dois objetos...”.

Fonte: André Marion, Jésus et la science-La v du Chriti.

OBS. Segundo a grande Mística alemã Anna Catarina Emerich, que teve as visões da vida Paixão e morte de Jesus, a túnica e todas as outras vestes de Jesus, foram todas compradas imediatamente por José de Arimatéia e Nicodemos, passando a fazer parte do tesouro dos primeiros cristãos. Nada ficou com os soldados pagãos.


Fonte: Recados do Aarão


Plinio Corrêa de Oliveira

Há erros funestíssimos entre os católicos brasileiros, e que com extraordinária oportunidade devem ser desmascarados na Semana Santa. Pouco nos importa que outros não cumpram o seu dever. Cumpramos o nosso. E depois de termos feito todo o possível, resignemo-nos diante da avalanche que vem. Porque, ainda que pereçam o Brasil e o mundo inteiro, ainda que a própria Igreja seja devastada pelos lobos da heresia, ela é imortal. Singrará as águas revoltas do dilúvio. É de dentro de seu seio sagrado que sairão depois da tempestade, como Noé da arca, os homens que hão de fundar a civilização de amanhã.

Mas é aí que não querem chegar certos católicos. Eles só compreendem Cristo sobre um trono de glória, só Lhe são fiéis nos dias parecidos com o Domingo de Ramos, quando a multidão O aclama. Para eles, Cristo deve ser um rei terreno, deve dominar o mundo constantemente. E se a impiedade dos homens O reduz de rei a crucificado, de soberano a vítima, não mais se importam com Ele.

Jesus del Gran Poder

Cristo quis passar por todos os opróbrios, todos os vexames, todas as humilhações, mostrando que a História da Igreja também teria seus calvários, suas humilhações, suas derrotas, e que muito mais meritória era e é a fidelidade no Gólgota do que no Tabor.

Foi para ensinar homens assim, que Nosso Senhor se submeteu a todas as humilhações no Calvário. Há pessoas de uma mentalidade detestável, que julgam absolutamente natural o Redentor sofrer, a Igreja ser vexada, humilhada, perseguida. “É a Paixão de Cristo que se repete”, dizem eles. E enquanto essa Paixão se repete, levam sua vida farta e cômoda nas orgias, nas imundícies, na exacerbação de todos os sentidos e na prática de todos os pecados. Para tais indivíduos é que foi feito o látego com que foram expulsos os vendilhões do Templo.

Não é verdade que devamos cruzar os braços ante as investidas dos inimigos da Igreja. Não é verdade que devamos dormir enquanto se renova a Paixão. O próprio Cristo recomendou que seus Apóstolos orassem e vigiassem. E se devemos aceitar os sofrimentos da Igreja com a resignação com que Nossa Senhora aceitou os padecimentos de seu Filho, não é menos exato que será um motivo de eterna condenação para nós, se nos portarmos ante as dores do Salvador com a sonolência, a indiferença e a covardia de discípulos infiéis.

A verdade é esta: devemos estar sempre com a Igreja, “porque só ela tem palavras de vida eterna”. Se ela é atacada, lutemos por ela. Mas lutemos como mártires, até a efusão de nosso sangue, até o nosso último recurso de energia e de inteligência. Se, apesar disso tudo, ela continuar a ser oprimida, soframos com ela, como São João Evangelista ao pé da Cruz. E estejamos certos de que, neste mundo ou no outro, Jesus misericordioso não nos privará do esplêndido prêmio de assistirmos à sua glória divina e suprema.


Neste momento tão especial em nossa Igreja, em que celebramos a Paixão, Morte, Crucificação e Ressurreição de Nosso Senhor, analisaremos uma bela passagem bíblica em particular.

Vamos ler a profissão de fé consignada por São Paulo em 1 Cor 15,3-8:

"3. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;
4. foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras;
5. apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze.
6. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos);
7. depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos.
8. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo."

Esta passagem data de aproximadamente 56 d.C., pouco mais de vinte anos após Jesus ter subido aos céus. Nesta ocasião, transmitiu o que escutou. Tratava-se de uma doutrina que ele havia recebido (v.3), provavelmente no ano de 35, em sua visita a Jerusalém.

Estas frases são curtas, incisivas, dispostas com um paralelismo que lhes comunica um ritmo peculiar. Os versículos 6 e 8 fogem a estas regras, mas todos os restantes versículos mostram que foram criadas para serem freqüentemente repetidas oralmente, como é o Pai-Nosso, por exemplo.

Trata-se, de uma fórmula de fé, cuidadosamente transmitida desde a Ascensão de Jesus. Muito provavelmente o v.6 talvez tenha sido introduzido depois e o v.8, uma notícia pessoal do próprio São Paulo.

Esta fórmula de fé demonstra, cabalmente, que a ressurreição corpórea de Cristo é uma realidade histórica. Aliás, nem os relatos históricos extra-bíblicos desmentem esta afirmação. O texto diz claramente em VER, não em CRER, porque Jesus APARECEU.

A História Científica não nega este fato. Além dos textos apócrifos confirmarem a ressurreição, existem outros relatos de historiadores que repetem tal consentimento. Leia o seguinte registro histórico de Flávio Josefo, da obra Antiguidades Judaicas, escrito da época:

“Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o CRISTO. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele o fez crucificar. Os que haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres”.

Repito: o registro de Flávio Josefo não é apócrifo, é um registro histórico!

Até Rudolf Bultmann (1976), da teoria racionalista - que prega que foi a mensagem de JEsus que ressuscitou, e não o próprio Jesus - vê neste texto um obstáculo sério a sua tese:

"Só posso compreender o texto de 1 Cor 15,1-8 como tentativa de apresentar a ressurreição como fato objetivo, merecedor de fé." (Glauben un Verstehen I, Tübingen 1964, 54s)

O texto apócrifo de uma carta de Pilatos a Herodes, também confirma a ressurreição:

"1. Não foi boa a ação que, por teu incitamento, pratiquei, quando os judeus me trouxeram Jesus, chamado Cristo. Depois de ter sido crucificado, ressuscitou dos mortos no terceiro dia, como me foi comunicado até pelo centurião. Eu mesmo decidi mandar emissários à Galiléia. Lá foi visto em seu próprio corpo e em sua exata fisionomia. 2. Com a mesma voz e com os mesmos ensinamentos se manifestou a mais de quinhentos homens tementes a Deus. E estes difundem o seu testemunho, sem nenhum medo. Pelo contrário, anunciam sempre com maior coragem a ressurreição e um reino eterno. Parece que o céu e a terra se alegram com seus santos ensinamentos."

Se Jesus não tivesse ressuscitado, inclusive, vazia seria nossa fé, uma vez que Ele não teria vencido a morte e tudo o que fizeram teria perdido o seu valor e o seu sabor.

O êxito e a força persuasiva da pregação dos Apóstolos, após a Ascensão de seu Mestre, são incompreensíveis se, após a dolorosa experiência da Paixão de Jesus, eles não tivessem-NO visto ressuscitado.

As mulheres na época encontraram o sepulcro vazio de Jesus, não foi forjada pela Igreja primitiva, uma vez que as mulheres eram consideradas testemunhas pouco fidedignas. Em Lc 24,10-12 vemos isto claramente:

"10. Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa.
11. Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito.
12. Contudo, Pedro correu ao sepulcro; inclinando-se para olhar, viu só os panos de linho na terra. Depois, retirou-se para a sua casa, admirado do que acontecera." (Lc 24,10-12)

Até os inimigos de Jesus não negaram este fato. Trataram de explicá-los por vias diversas. Leia Mt 28,11-15:

"11. Enquanto elas voltavam, alguns homens da guarda já estavam na cidade para anunciar o acontecimento aos príncipes dos sacerdotes.
12. Reuniram-se estes em conselho com os anciãos. Deram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenando-lhes:
13. Vós direis que seus discípulos vieram retirá-lo à noite, enquanto dormíeis.
14. Se o governador vier a sabê-lo, nós o acalmaremos e vos tiraremos de dificuldades.
15. Os soldados receberam o dinheiro e seguiram suas instruções. E esta versão é ainda hoje espalhada entre os judeus."

Ou seja, a tradição do sepulcro vazio é historicamente bem fundamentada. São Pedro, ainda, mostra claramente a intenção de transmití-la desta forma. Vejamos At 10,37-42:

"37. Vós sabeis como tudo isso aconteceu na Judéia, depois de ter começado na Galiléia, após o batismo que João pregou.
38. Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele.
39. E nós somos testemunhas de tudo o que fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, suspendendo-o num madeiro.
40. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que aparecesse,
41. não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou.
42. Ele nos mandou pregar ao povo e testemunhar que é ele quem foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos."

Logo, a certeza moral e histórica justificam à razão do homem, fazendo que aderir à fé na ressurreição seja um ato razoável, inteligente, digno e não cego ou infantil, imaturo.

Após a ressurreição, inclusive, Jesus antecipou para nós as propriedades do corpo glorioso, propriedade corporal que todos os eleitos de Deus receberão no fim do tempos, no Juízo Final. É o que está em Fl 3,21 e em 1 Cor 15,41-44, por exemplo. Teremos os chamados dons sobrenaturais, que compreendem:

a) a impassibilidade: o corpo estará submetido à alma racional, que estará submetida perfeitamente a Deus. Não haverá mais doenças, ferimentos, fadiga, sono, frio ou calor. Implica em eterna saúde, bem-estar inalterável, pois o domínio do homem sobre o corpo será perfeito.

b) a sutileza: implica o poder de aparecer e desaparecer, assim como o de penetrar através dos corpos sólidos, como Jesus ressuscitado fez (Jo 20,19-26). Como dito sobre a impassibilidade, o corpo estará submetido à alma racional, que estará submetida perfeitamente a Deus. O domínio do homem sobre o corpo será perfeito, conferindo o efeito em sua parte corpórea de algo da natureza dos espíritos, os quais chamamos sutis. Como Cristo ressuscitado, os corpos serão palpáveis, mantendo a consistência desta terra.

c) a agilidade: Também como conseqüência deste domínio perfeito sobre o corpo, haverá um efeito também sobrenatural sobre o movimento. A agilidade livrará o corpo do seu peso e ele poderá ir para onde deseja a alma com uma facilidade e velocidade incomparáveis.

d) a claridade : como um jorro de glória sobre o corpo humano (Mt 13,41; Ap 21,23). Esta claridade é fruto da visão beatífica. Jesus tinha este atributo e os demais, contudo, suspendera a impassibilidade (para sofrer por nós na cruz) e a claridade. Só a deixou ver por ocasião da transfiguração (Mt 17), a três dos apóstolos – Pedro, Tiago e João.

A Páscoa, portanto, é uma data especialíssima para o cristão. É a confirmação de nossa futura vitória, graças a Cristo!

Feliz Páscoa! Jesus ressuscitou!


A Semana Santa tem início no “Domingo de Ramos”, que é assim chamado porque celebra a entrada de Jesus em Jerusalém, montado em um jumentinho – o símbolo da humildade – e aclamado pelo povo simples que o aplaudia como “Aquele que vem em nome do Senhor”.

Aquele povo tinha visto Jesus ressuscitar Lázaro de Betânia há poucos dias e estava maravilhado. As pessoas estavam certas de que Jesus era o Messias anunciado pelos Profetas. Pensavam que ele fosse escorraçar Pilatos e reimplantar o reinado de Davi e Salomão em Israel.

‘Que Messias é esse? Que libertador é esse? É um farsante! Merece a cruz por nos ter iludido’. A entrada solene de Jesus em Jerusalém foi um prelúdio de suas dores e humilhações. Aquela mesma multidão que o homenageou motivada por seus milagres, agora lhe vira as costas e muitos pedem a sua morte.



Jesus, que conhecia o coração dos homens, não estava iludido. Dessa forma, o Domingo de Ramos é o início da Semana que mistura os gritos de hosanas com os clamores da Paixão de Cristo. O povo acolheu Jesus saudando-o com ramos de oliveiras e palmeiras. Os ramos significam a vitória. “Hosana ao Filho de Davi: bendito seja o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel; hosana nas alturas”.

Os Ramos santos nos fazem lembrar que somos batizados, filhos de Deus e defensores da fé católica. Os Ramos sagrados, que levamos para nossas casas após a Missa, lembram-nos que estamos unidos a Cristo na mesma luta pela salvação do mundo, a luta árdua contra o pecado e o cristianismo “light”, adaptado aos gostos e interesses pessoais. Impera, como diz Bento XVI, a ditadura do relativismo.


O canto popular “O povo de Deus”, repetido muitas vezes em coro por nós, nos revela a experiência de um povo que caminha em comunidade, com um objetivo comum: chegar à pátria definitiva. Essa caminhada do povo de Deus, com um objetivo determinado, recebe o nome de procissão. A palavra procissão é derivada do verbo latino procedere, e do substantivo processionis, que quer dizer: “ação de avançar, marchar, caminhar, ir adiante, saída solene”.


A procissão é um rito religioso de significado universal. Caminhar junto é uma necessidade de todo indivíduo que vive em comunidade. Ao caminhar junto, objetivos e sonhos são partilhados. As orações e cantos rezados e cantados juntos são expressões da fé no Salvador.


Procissões não são manifestações religiosas apenas dos católicos. Judeus, muçulmanos e hindus também se reú­nem num determinado lugar e partem cantando e rezando rumo a outro lugar estabelecido anteriormente.


A procissão dos cristãos tem origem na Sagrada Escritura. A caminhada é um elemento muito importante na história da salvação. No livro do Êxodo, encontramos o povo que caminha rumo à terra prometida. O livro dos Números nos mostra as normas estabelecidas por Deus ao povo que caminhava: Quando se levantava a nuvem sobre a tenda, os israelitas punham-se em marcha; no lugar onde a nuvem parava, aí acampavam. À ordem do Senhor levantavam o acampamento, e à sua ordem o assentavam de novo (Nm 9,17-18).


No Novo Testamento é narrada apenas uma procissão: a entrada de Jesus em Jerusalém: E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus! (Mt 21,9).


As primeiras procissões dos católicos apareceram por volta do início do século IV, logo após a declaração de liberdade religiosa pelo imperador Constantino. Hoje as procissões são realizadas em vários momentos. As mais comuns são: Domingo de Ramos; Semana Santa; Via-Sacra; Corpus Christi; procissões em honra dos santos padroeiros e de Nossa Senhora. É importante observar que as procissões sempre estão relacionadas com o ano litúrgico.


Em cada região de nosso país existem particularidades e datas diferentes para a caminhada do povo de Deus. No entanto, nunca podemos perder de vista que a procissão é sempre uma caminhada realizada por um grupo de pessoas, que marcha com um único objetivo. A palavra de Deus sempre deve orientar e motivar qualquer procissão: leituras e cantos são expressão da religiosidade do povo que espera ansiosamente entrar na casa do Pai.


por Pe. Maciel M. Claro, sacerdote, missionário claretiano.


Por João Batista Passos

“Não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-lo.” CIC 1033

O Inferno existe e existe pela irrevogável liberdade dada ao homem pelo Criador. Quem não crê na existência do inferno está negando pontos fundamentais de sua própria existência e condição humana, entre elas está negando o dom da Liberdade e do amor a Deus e a própria inteligência.

Pensar na existência do inferno não é pensar em um Deus ameaçador que chantageia aqueles que n’Ele não crêem ou que não O seguem com um lugar tenebroso, ao qual chamamos de inferno, mas aponta para a condição que nos é própria, ou seja, somos livres por optar que caminhos seguir e temos a inteligência de reconhecê-los como algo bom ou mal.

Temos a capacidade de amar a Deus, de forma livre e consciente, temos inclusive o incansável desejo de que isto se dê de fato em nossas vidas, levando-nos a uma busca persistente em meio a nossa liberdade e capacidade de pensar e escolher. O inferno está presente em nossas ações: às vezes acertamos nas nossas decisões e escolhas; às vezes erramos conscientemente, levando-nos a tristes sentimentos e perspectivas sombrias.

Isso nos ensina que a nossa escolha não se refere apenas ao ato de crer e não crer, mas que nos envia ao mais intenso diálogo com a nossa realidade, com a própria existência, tomando a cada dia, a cada hora, decisões que nos levam a amar a Deus e decisões que nos tornam pessoas melhores. Portanto, o inferno é uma pena escolhida por aqueles que vivem sem buscar os sentimentos que Deus tem para conosco.

Deus nos quer, nos ama e vem nos resgatar. Concede-nos a graça da Fé que nos favorece em nossas escolhas. Quem crê em Deus e busca com Ele todas as coisas, vive em uma nova perspectiva, percebe-se o agir de Deus mais facilmente e por Ele logo se apaixona.

É temível aos olhos daqueles que amam a Deus e desejam estar em sua presença, perdê-lO de vista. As pessoas que vivem nesta realidade plena se mantêm na liberdade de crer e de amar, de buscar ou de abandonar. É duro possuir esta liberdade para aqueles que amam ao Senhor, pois tal liberdade nos autoriza a continuar amando-O ou negá-lO.

Da mesma forma aos que não crêem, estes possuem talvez o estranho medo de querer amar ao Senhor, de pensar na hipótese de que Deus possa nos salvar. Porém Deus os respeita, respeita a liberdade daqueles que crêem e daqueles que não crêem ainda em seu soberano poder e amor.

"Enquanto não se tiver fixado definitivamente em seu bem último, que é Deus, a liberdade comporta a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, portanto, de crescer em perfeição ou de definhar e pecar. Ela caracteriza os atos propriamente humanos. Torna-se fonte de louvor ou repreensão, de mérito ou demérito. " CIC 1732

A liberdade que o Senhor concede a nós, criaturas tuas, é muito mais do que nos implica em crer ou não crer, mas mostra que tal liberdade é a maior grandeza de toda a criação, e envolto desta grandeza, a qual chamamos liberdade, estamos nós, homens, mulheres e crianças, queridos e amados por Deus. A liberdade é a grandeza da qual o homem se dispõe em amar a Deus, amar a si mesmo e ao próximo de forma integral e livre.

Sem a liberdade, aí sim, o homem estaria fadado a ser uma mera criatura, sem gostos e sem pensamentos próprios, sua inteligência se reduziria ao mero instinto de sobrevivência, poderíamos até ser salvos nestas circunstâncias, porém, jamais saberíamos o que é verdadeiramente o Amor.

Então, não podemos reclamar que a existência dos abismos do inferno como se fosse uma infeliz ação do Criador. Quem pensa assim teme a sua própria condição humana, teme ser livre e teme a própria inteligência. Quem pensa que o mundo é oco e que as nossas escolhas e decisões não interferem pelos caminhos e destinos nossos, não reconhece em si a dignidade de ser "imagem e semelhança de Deus".

“Deus não predestina ninguém ao Inferno.” (CIC 1037)

Não somos predestinados a condenação, antes somos chamados a todo custo para a salvação eterna em Jesus Cristo. Se n’Ele crermos e perseverarmos aumentaremos ainda mais a nossa capacidade de escolher e de agir, seremos ainda mais livres (ou realmente livres), teremos mais capacidade de dizer o nosso responsável “sim” ou “não” e com alegria, reconheceremos que a nossa condição humana, possui a liberdade de voltar-se ao seu Criador e n’Ele repousar.

Por esta grandeza irrevogável e irretocável conferida ao ser humano, a sua capacidade de raciocinio, compreensão e de escolha, características conferidas a nós, estamos livres para escolher entre estar com o Senhor e Salvador que nos ama livremente e nos concede a mesma maneira de amar ou que nos arrisquemos por conta própria lançar-se ao nada que nada pode fazer pela nossa vida.


O VERDADEIRO DOM DAS LÍNGUAS

A virgem Santíssima e o dom das línguas

Questão IV: Se a Virgem recebeu o dom de línguas, chamado por alguns “glossolalia”.

a) “Afirmativamente, porque recebeu este dom com os apóstolos no dia de Pentecostes, e, como disse Santo Alberto Magno: A Virgem estava com eles quando apareceram as línguas repartidas como de fogo, logo recebeu o dom das línguas com eles” (Mariale, q. CXVII); b) Ademais, ainda que não tivesse de ir pregar o Evangelho as diversas nações e gentes, todavia, no principio da Igreja nascente se concedia com freqüência este dom aos fiéis, ainda a aqueles a quem não se havia conferido o ministério de pregar e propagar o Evangelho como consta (At, XIX, 6); c) E assim convinha, porque acudindo Maria muitos fiéis de diversas nações, já por piedade filial, e que buscavam de instruções, devia conhecer seus idiomas para entendê-los e instruí-los plenamente nas coisas da fé. d) Finalmente, Suarez julga provável que ainda antes de Pentecostes, Maria já tivesse usado desta graça, caso a necessidade ou a ocasião tivesse exigido, como quando Cristo foi adorado pelos magos, é de crer que Maria entendeu a sua linguagem, como é também crível que, quando foi ao Egito, entendia e falava a língua dos egípcios. (In 3, disp. XX) – (ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santíssima. Madrid: BAC, 1945, p. 350-351)


Padres da Igreja e o dom das línguas

No séculos II, Santo Irineu (c.115-200) se refere a uma fala extática não-idiomática, do tipo que os pentecostais praticam hoje. Descreve e condena as ações de um certo Marcos que “profetizava”, sob influência “demoníaca”. Marcos compartilhava o seu “dom” e outros também “profetizavam”. Seduzia mulheres e lhes prometia o carisma. Quando a recebiam, falavam algo sem sentido:

“Então ela, de maneira vã, imobilizada e exaltada por estas palavras e grandemente excitada... seu coração começa a bater violentamente, alcança o requisito, cai em audácia e futilidade, tanto quanto pronuncia algo sem sentido, assim como lhe ocorre”. (Contra Heresias I, XIII, 3)

Irineu também se refere ao dom de línguas dos apóstolos e da época em que vivia. Cita II Cor. 2:6, explicando que “os perfeitos” falam em “todos os tipos” as línguas:

“... nós também ouvimos muitos irmãos na Igreja,... e que através do Espírito, falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz para o benefício geral as coisas escondidas dos homens, e declaram os mistérios de Deus...”. (Contra Heresias V,VI,1)

Ao informar que falam todos os tipos de língua, Irineu parece se referir a línguas que admitem classificação.

O curioso é que o movimento de herético de Montano (c.150-200) envolveu um êxtase religioso, com elocuções não-idiomáticas, semelhantes à pseudo-glossolalia pentecostal.

De acordo com descrições registradas por Eusébio (c.265-?), Montano entrou em uma espécie de delírio e balbuciava “coisas estranhas”. Ele “encheu” duas mulheres com o “falso espírito”, e elas falaram “extensa, irracional e estranhamente”:

“ficou fora de si e [começou] a estar repentinamente em uma sorte de frenesi e êxtase, ele delirava e começava a balbuciar e pronunciar coisas estranhas, profetizando de um modo contrário ao costume constante da igreja (...) E ele, excitado ao lado de duas mulheres, encheu-as com o falso espírito, tanto que elas falaram extensa, irracional e estranhamente, como a pessoa já mencionada.” (História da Igreja V,XVI:8,9 )

Depreende-se deste texto que o fenômeno lingüístico montanista envolvia:

(a) uma forte expressão emocional, deduzida das menções de “êxtase”, “frenesi” e delírio;

(b) o texto indica uma linguagem não-idiomática, de “balbucios”, e um falar “estranho”, “irracional”. Tomadas em conjunto, estas características assemelham-se à glossolalia pentecostal. A comparação torna-se tão evidente, ao ponto de o montanismo ser apelidado de “protótipo dos pentecostais”.

Sabe-se que a “glossolalia” montanista se tratava de uma reminiscência dos excessos frígios. Sob esta ótica, a glossolalia pentecostal perdeu o apoio da igreja do segundo século e se alinhou com uma religião não-cristã da mesma época.

Orígenes (c.195-254) em sua época, se opôs a um certo Celso, que clamava ser divino, e falava línguas incompreensíveis:

“A estas promessas, são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional poderia encontrar o significado, porque elas são tão obscuras, que não têm um significado em seu todo.” (Contra Celso, VII:9)

Uma linguagem ininteligível soa “estranha”, “obscura” e “fanática” para Orígenes. Assim como para Irineu e mais tarde foi para Eusébio. Para Orígenes, as palavras “completamente ininteligíveis”, eram mais o subproduto de uma distorção religiosa.

Arquelau, bispo de Carcar no fim do segundo século comenta sobre o dom de línguas no Pentecostes. O contexto indica uma identificação como idiomas naturais. Para Arquelau, Mane era incapaz de conhecer a língua dos gregos porque não possuía o dom de línguas do Espírito, que o capacitaria a entendê-las:

“Ó seu bárbaro persa, você nunca foi capaz de conhecer a língua dos gregos, dos egípcios, ou dos romanos, ou de qualquer nação, (...). Pelo que diz a Escritura? Que cada homem ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua através do Espírito, o Parácleto”. (Disputa com Mane, XXXVI)

Na Didaquê Siríaca comenta-se o evento do Pentecostes. Os discípulos estavam preocupados sobre como iriam pregar ao mundo, se eles não conheciam os idiomas. Então, receberam o dom de falar idiomas estrangeiros e foram para os países onde esses idiomas eram falados:
“de acordo com a língua que cada um deles tinha diferentemente recebido, para que a pessoa se preparasse para ir ao país no qual a língua era falada e ouvida”. (Didaquê Síriaca, seção introdutória).

No século IV, Cirilo de Alexandria (c.315-387), Doutor da Igreja em seus Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16), interpreta o dom de línguas do Pentecostes como idiomas estrangeiros. Isto indica que, pelo começo do quarto século, a glossolalia apostólica também era tida como um idioma comum. Cita por nome alguns idiomas falados pelos apóstolos:

“O galileu Pedro ou André falavam persa ou medo. João e o resto dos apóstolos falavam todas as línguas para aquela porção de gentios (...) Mas o Santo Espírito os ensinou muitas línguas naquela ocasião, línguas que em toda a vida deles nunca conheceram” (Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16)

Para Gregório Nazianzeno (c.330-390), Doutor da Igreja, o dom de línguas em Atos também se referia a idiomas estrangeiros:

“Eles falaram com línguas estranhas, e não aquelas de sua terra nativa; e a maravilha era grande, uma língua falada por aqueles que não as aprenderam”. Gregório ainda argumenta que o dom foi de falarem línguas estrangeiras e não dos ouvintes as entenderem. Segundo ele, se fosse assim, o milagre não seria dos que “falam” em línguas, mas “dos que ouvem”. (Do Pentecostes, oração XLI:16)

Ambrósio (330-397), também Doutor da Igreja, embora não discuta a natureza do dom de línguas, ressalta que cada pessoa recebe dons espirituais diferentes. Para ele,

“todos os dons divinos não podem existir em todos os homens, cada um recebe de acordo com a sua capacidade ao deseja ou merece” (Do Espírito Santo II, XVIII, 149)

Se Ambrósio também quer dizer com isto que o falar em línguas não se manifesta em todos os cristãos, a citação pode se confrontar e divergir completamente com a posição pentecostal de que todos devem ter “o” dom de línguas.

São João Crisóstomo (Doutor da Igreja) (347-406), é o primeiro a interpretar detidamente a glossolalia em I Coríntios. Em sua conhecida retórica de orador, questiona a ausência do dom de línguas: “Por que então eles aconteceram, e agora não mais?”
São João Crisóstomo detalha sua explicação. Ele vê o dom de línguas do N.T. como um fenômeno reverso ao da Torre de Babel. Os discípulos receberam o dom porque deveriam

“ir afora para todos os lugares (...) e o dom era chamado de dom de línguas porque ele poderia falar de uma vez diversas línguas”.

Comentando I Co. 14:10, aplica a passagem à diversidade de idiomas:

“i.e., muitas línguas, muitas vozes de citianos, tracianos, romanos, persas (...) inumeráveis outras nações.”

E sobre I Co. 14:14, São João Crisóstomo sublinha que aquele que fala em línguas não as entende, porque não conhece o idioma em que fala:

“Pois se um homem fala somente em persa ou outra língua estrangeira, e não entende o que ele diz, então é claro que ele será para si, dali em diante, um bárbaro (...) Pois existiam (...) muitos que tinham também o dom da oração, junto com a língua; e eles oravam e a língua falava, orando tanto em persa ou linguagem latina, mas o entendimento deles não sabia o que era falado”.98 (Homilias na Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo XXXV).

Para Agostinho (Doutor da Igreja) (354-430), o dom de línguas concedido aos apóstolos no Pentecostes se tratava da capacidade sobrenatural de falar línguas estrangeiras. Demonstra que, no período apostólico, o Espírito operava...

“sensíveis milagres... para serem credenciais da fé rudimentar” (Contra os Donatistas: Sobre o Batismo, III:16).

Agostinho reforça o dom de línguas como idiomas naturais. Eram línguas que os discípulos“ não tinham aprendido”. E, na pregação posterior,

o... “evangelho corria através de todas as línguas”.100 (Epístola de São João, Homilia VI:10)

"Nos primeiros tempos, o Espírito Santo descia sobre os fiéis e estes falavam em línguas, sem as ter aprendido conforme o Espírito lhes dava a falar. Foram sinais oportuno para esse tempo... o sinal dado passou depois" (Comentário da Primeira Carta de São João, Tratado IV, 10).

Algo a se notar nos Padres da Igreja é a completa ausência do dom de línguas do tipo pentecostal. Percebe-se que na Igreja do tempo dos Padres, o dom de línguas não esboçava qualquer centralidade, ou mesmo relevância como possui hoje em dia para a heresia pentecostal. Caso o dom de línguas como se difunde hoje, fosse fundamental na doutrina apostólica como evidência do batismo do Espírito Santo, teria certamente teria feito parte dos credos e da tradição dos Padres da Igreja.

Logo, num prisma negativo, pseudo-glossolalia pentecostal considerados neste artigo não encontram suporte nos Pais da Igreja:

(1) A glossolalia não-idiomática :

(a) não foi considerada como dom do Espírito;

(b) foi rejeitada pela igreja da época;

(c) revelou origens e feições não-cristãs. Tida como principal manifestação lingüística do pentecostalismo, a glossolalia não-idiomática encontra reprovação no conjunto dos Pais da Igreja.
Nos Pais da Igreja a glossolalia:

(a) não é indicadora da plenitude do Espírito Santo;

(b) não é indicadora indireta da própria salvação do crente; ou

(c) não é um elemento distintivo dos verdadeiros crentes.

Em relação à glossolalia como o dom, os Pais da Igreja têm o falar em línguas como:

(a) não-obrigatório para o cristão;

(b) o dom de línguas na patrística é apenas “um” entre outros.


A doutrina do dom das línguas em Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, ao comentar o Capítulo XIV da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, escreveu:

“Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pag 178.)

Vê-se, portanto, que o dom de línguas foi dado aos primeiros cristãos para que anunciassem a religião verdadeira com mais facilidade. Os Coríntios, por sua vez, desvirtuaram o verdadeiro sentido do dom de línguas:

“Porém, os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, prefeririam esse dom ao dom de profecia. E aqui, por ‘falar em línguas’ o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la; esse tal fala em línguas. E também é falar em línguas o falar de visões tão somente, sem explicá-las, de modo que toda locução não entendia, não explicada, qualquer quer seja, é propriamente falar em língua” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 178-179.).

Temos aqui uma consideração importante. Para São Tomás, o “falar em línguas” pode ser entendido de duas formas:

a) falar em uma língua desconhecida, mas existente, como no caso de Pentecostes, no qual pessoas de várias línguas compreendiam o que os apóstolos pregavam.

b) a pregação ou oração sobre visões ou símbolos.

E o doutor angélico confirma isso mais adiante:

“ suponhamos que eu vá até vós falando em línguas’ (I Co 14, 6). O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer símbolos desconhecidos” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 183.)

Haja vista que a primeira forma de falar em línguas é suficientemente clara – ou seja, que é um milagre pelo qual uma pessoa, que tem por ofício pregar às almas, fala numa língua existente sem nunca a ter estudado – consideremos a segunda forma de manifestação desse dom, segundo São Tomás. Neste caso, falar em línguas é uma simples predicação numa linguagem pouco clara, como, por exemplo, falar sobre símbolos, visões, em parábolas, etc:

“(...) se se fala em línguas, ou seja, sobre visões, sonhos (...)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.).

E ainda:

[lhes falarei] “ ‘Em línguas estranhas’, isto é, lhes falarei obscura e em forma de parábolas” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200).

“(...) em línguas, isto é, por figuras e com lábios (...)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200.)

Para São Tomás, quem assim procede, isto é, usa de símbolos nas práticas espirituais, tem o mérito próprio da prática de um ato de piedade. Caso o indivíduo compreenda racionalmente o que diz, lucra, além do mérito, o fruto intelectual da ação.

Quem reza o Pai-Nosso, por exemplo, mesmo sem compreender perfeitamente o valor de suas petições, tem o mérito próprio da boa ação de rezar. Por outro lado, quem reza o Pai-Nosso com o conhecimento de seu significado mais profundo, lucra, além do mérito, a consolação intelectual da compreensão de uma verdade espiritual. Por esse motivo, São Paulo exorta aos que “falam em línguas” – ou seja, que usam símbolos nos atos de piedade – para que peçam também o dom de “interpretar as línguas”, quer dizer, de compreender o que diz por meio simbólico, afim de que possa ganhar, além do mérito, a compreensão racional do ato.

No que se refere ao uso público do dom de línguas, o Apóstolo determina que ele nunca deve ser usado sem que haja intérprete, ou seja, sem que haja quem explique os símbolos para os que não os compreendem.

Comentado o versículo 27, no qual São Paulo exorta que não falem em línguas mais que dois ou três durante o culto público, diz São Tomas:

“É de notar-se que este costume até agora (...) se conserva na Igreja. Por que as leituras, epístolas e evangelhos temos em lugar das línguas, e por isso na Missa falam dois (...) as coisas que pertencem ao dom de línguas, isto é, a Epístola e o Evangelho” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.)


Para São Tomás, a leitura da Epístola e do santo Evangelho, na Missa, são a forma de “falar em línguas” que a Igreja conservou dos tempos apostólicos! Nada mais contrário ao delírio pentecostal carismático!

Ora, no que diz respeito a “interpretação das línguas”, na Missa, depois da Epístola e do Evangelho, o padre faz o sermão, pelo qual explica os símbolos dos textos sagrados que foram lidos. O sermão é, pois, a ‘interpretação das línguas’ (Epístola e Evangelho) que foram faladas na Missa.Fica, portanto, bastante claro o verdadeiro significado do dom de línguas, que nada mais é do que:

1 - o milagre de pregar o Evangelho numa língua sem a ter estudado ou

2 - o simples fato de usar uma linguagem simbólica na vida espiritual, seja na oração particular, seja na oração pública, sendo que nesta última é necessário alguém que “interprete as línguas”, ou seja, que explique o significado dos símbolos ao povo, função dos ministros da Igreja.


Cf. AQUINO, TOMÁS de. COMENTARIO A LA PRIMERA EPÍSTOLA DE SAN PABLO A LOS CORINTIOS. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/es/index3.htm


Santo Antônio e o dom das línguas

“ E todos estiveram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em diversas línguas, segundo o Espírito Santo lhe dava a falar”. Falavam todas as línguas; ou também falavam sua língua hebréia, e todos os entendiam, como se falassem na língua de cada um dos ouvintes”
(PÁDUA, Santo Antônio de. Sermones, Tomo I. Domingo de Pentecostes (I). Buenos Aires:El mensajero de san Antonio, 1995, p. 333.)

“Sobre todas memorável ficou a pregação, que o santo franciscano fez no dia da Ressurreição. Tinham afluído, como vimos, a Roma gentes das diversas regiões e nacionalidades da terra, como latinos, gregos, alemães, franceses, ingleses e de outras línguas. Pregou também Santo Antônio, segundo a vontade do sumo Pontífice, naquela grande solenidade; e este seu sermão foi um digno remate e coroa aos seus triunfos oratórios. Inflamado pelo Espírito Santo, anunciou a palavra de Deus de um modo tão eficaz, devoto e penetrante, e com tal suavidade, clareza e inteligência, que todos os presentes, apesar da diversidade das línguas, lhe entenderam as palavras, tão clara e distintamente, como se houvesse pregado na língua de cada um” (MARTINS (S.J), Manuel Narciso. Vida de Santo Antônio. Bahia: Duas Américas, 1932, p. 74


São Francisco Xavier e o dom das línguas

O livro Milagros y prodígios de San Francisco Javier, que foi escrito pela historiadora de arte Maria Gabriela Torres Olleta, constitui o sexto e, de momento, último volume da colecção “Biblioteca Javeriana” publicada desde 2004 pela Cátedra San Francisco Javier, Universidade de Navarra, como preparação para o ano jubilar de 2006. O livro conta que quando São Francisco Xavier falava em sua língua própria, no Oriente, cada um que o ouvia o entendia em sua língua materna. O dom das línguas (pp. 45-47), cuja enorme importância se justifica pela atividade missionária de Xavier entre muitos povos e muitas nações diferentes, foi um outro aspecto muito fomentado pela hagiografia de S. Francisco Xavier, tendo sido, por isso, igualmente incluído na bula de canonização. (OLLETA, Maria Gabriela Torres. Milagros y prodígios de San Francisco Javier. Biblioteca Javeriana, 2006, p. 45-47)


São Francisco Solano e o dom das línguas

“São Francisco Solano, cuja festa comemoramos no dia 14, santo genuinamente franciscano, aprendeu milagrosamente em 15 dias o dialeto de uma tribo indígena. Adquiriu também o dom das línguas, falando em castelhano a índios de tribos diferentes, sendo entendido como se estivesse expressando-se no dialeto de cada um. Uma vez, por exemplo, estando em San Miguel del Estero durante as cerimônias da Quinta-Feira Santa, veio uma terrível notícia: milhares de índios de diversas tribos, armados para a guerra, avançavam para atacar a cidade. A balbúrdia foi geral. Só Frei Francisco, calmo, saiu ao encontro dos selvagens. Estes, que o respeitavam, pararam para o ouvir. E cada um o entendeu em sua própria língua. Ficaram tão emocionados, que um número enorme deles pediu o batismo. No dia seguinte, viu-se essa coisa portentosa: ao lado dos espanhóis, esses índios convertidos participavam da procissão da Sexta-feira Santa, flagelando-se por causa de seus pecados.” (Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 184; Les Petits Bollandistes, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IX, pp. 8 e ss; Enriqueta Vila, Santos de America, coleção Panoramas de la Historia Universal, Ediciones Moreton, S.A., Bilbao, 1968, pp. 93 e ss. )


O dom das línguas e o Papa Bento XVI


“Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente. No Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão. O orgulho e o egoísmo do homem geram sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência.O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu." Disponível em:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/documents/hf_ben-xvi_hom_20060604_pentecoste_po.html


O dom das línguas e a teologia

F. Prat em "La Théologie de Saint Paul" (Beauchêsne éditeur, Paris 1913) diz:

"Trata-se de falar à multidão, Pedro fala em nome de todos e, não podendo falar senão uma língua por vez, é natural que ele falasse na sua língua própria. Se houve milagre, foi nos ouvintes que ele se realizou e não em Pedro. [Pois cada um entendeu o que Pedro dizia na sua própria língua] (F. Prat, La Theologie de Saint Paul, p. 175).


"Cristão é meu nome e Católico é meu sobrenome. Um me designa, enquanto o outro me especifica. Um me distingue, o outro me designa. É por este sobrenome que nosso povo é distinguido dos que são chamados heréticos."
São Paciano de Barcelona, Carta a Sympronian, 375 D.C.
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Mantenha-se sempre do lado da Igreja Católica, porque só Ela pode lhe dar paz verdadeira, posto que só Ela possui Jesus no Santíssimo Sacramento, o verdadeiro Príncipe da Paz."
Santo Padre Pio...
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"A Igreja Católica compreende seus antagonistas, seus antagonistas não entendem a Igreja Católica"
Hilaire Belloc, As Grandes Heresias...
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"Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo."
Mateus 23,24...
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"A Fé Católica não ensina o que pensávamos que ensinava e A acusávamos inutilmente de fazê-lo".
Santo Agostinho, Confissões, 6,11, 400 A.D.
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"Os heréticos condenam-se a si mesmos já que por própria opção abandonam a Igreja, um abandono que, sendo consciente, torna-se sua condenação ."
São Jerônimo Comentários acerca de Titus, 3,10 386 A.D.
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"Aonde está Pedro, aí está a Igreja."
Santo Ambrósio de Milão, Nos doze Salmos 381 A.D.
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"Um homem Cristão é Católico enquanto vive no corpo; decepado deste, torna-se um herege. O Espírito não segue um membro amputado."
Santo Agostinho.
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"A Igreja Católica sempre tem o que falta ao mundo"
G.K. Chesterton...
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"Quando o mundo está errado, prova que a Igreja está certa."
G.K. Chesterton...
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"É contraditório que um Protestante aceite a Bíblia e rejeite a autoridade da Igreja Católica que lha deu."
Anônimo...
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"Ao atacar a Igreja Católica, Protestantes estão cortando suas próprias raízes."
Autor Desconhecido...
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"As Igrejas Protestantes têm canções e orações. As Igrejas Católicas têm canções, orações e sacrifício." Dr. Scott Hahn...
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"Nenhum Protestante deveria citar a Escritura, porque ele não tem meios de saber quais são os livros inspirados; a menos que, é claro, queira aceitar a autoridade da Igreja Católica com relação à essa questão."
Fr. William Most...
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"Graças a Igreja Católica, a autoridade e a integridade da Bíblia se manteve intacta."
Autor Desconhecido...
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"A Igreja Católica tem a Verdade em plenitude."
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"Todo vocês devem seguir a liderança do bispo, como Jesus Cristo seguiu a do Pai; seguir o presbitério como seguiriam os Apóstolos; reverenciar os diáconos como reverenciariam os mandamentos de Deus. Não permitam que ninguém toque na Igreja, a não ser o bispo ou alguém enviado por ele. Onde está o bispo, é onde o povo deve estar, assim como onde Jesus Cristo está, igualmente está a Igreja Católica. Sem a autorização do bispo, não é permitido batizar ou organizar um culto; mas tudo que ele aprova é também agradável a Deus. Se agirem assim, tudo que fizerem será isento de perigo e válido."
Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Cristãos de Esmirna, 107 A.D..
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"Pelo que foi dito, então, parece-me claro que a verdadeira Igreja, aquela que é realmente antiga, é uma só; e dela participam aqueles que, em acordo com o que foi determinado, são justos... Dessa forma dizemos que em substância, conceito, origem e imanência, antiga, Igreja Católica está só, juntando como o faz na unidade de uma fé que resulta de alianças familiares, - ou melhor dizendo, de uma aliança em eras distintas, pela vontade do DEUS uno e através de um Senhor, - aqueles que já foram escolhidos, aqueles predestinados por DEUS, que sabia desde a criação do mundo que eles seriam justos.San Clemente de Alexandria, Estromata (Miscelânia), 202 A.D..
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"Portanto, a Igreja Católica é a única que retém o verdadeiro culto. Esta é a fonte da verdade; esta, o domicílio da fé; o templo de DEUS. Quem quer que não entre nela ou não saia daqui é um alienado em termos de esperança de vida e salvação... Porque, , ao contrário disso, todos os vários grupos de hereges têm confiança de que são os Cristãos, e pensam que a Igreja Católica é deles. Que se saiba que a verdadeira Igreja é na qual há confissão e penitência, e que cuida de maneira salutar dos pecados e das mágoas aos quais os fracos na carne estão sujeitos. Lactantius, As Instituições Divinas, 304 A.D..
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"Levemos em conta que a própria tradição, ensinamento e fé da Igreja Católica, desde o princípio, dadas pelo Senhor, foi pregada pelos Apóstolos e foi preservada pelos Pais. Nisto foi fundada a Igreja; e se alguém se afasta dela, não é e nem deve mais ser chamado Cristão."
Santo Atanásio, Carta a Serapião de Thmuis, 359 D.C..
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"Eu não deveria acreditar no Evangelho a não ser que este seja movido pela autoridade da Igreja Católica."
Santo Agostinho de Hipona, Contra a Carta de Mani, 397 D.C.
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"A Igreja é Santa, a Única Igreja, a Verdadeira Igreja, a Igreja Católica, lutando sempre contra todas as heresias. Ela pode lutar, mas não pode ser derrotada. Todas as heresias são expulsas por Ela, como os galhos pendentes são arrancados de uma vinha. Ela permanece presa à sua raiz, em Sua vinha, em Seu amor. As portas do inferno não prevalecerão contra ela"
Santo Agostinho de Hipona, Sermão aos Catecúmenos sobre o Credo, 6,14, 395 D.C.


I. Origem: antes do mais, diga-se algo sobre a etimologia de “Carnaval”.

Comumente os autores explicam este nome a partir dos termos do latim tardio “carne vale”, isto é, “adeus carne” ou “despedida da carne”; esta derivação indicaria que no Carnaval o consumo de carne era considerado lícito pela última vez antes dos dias de jejum quaresmal. - Outros estudiosos recorrem à expressão “carnem levare”, suspender ou retirar a carne: o Papa São Gregório Magno teria dado ao último domingo antes da Quaresma, ou seja, ao domingo da Qüinquagésima, o título de “dominica ad carnes levandas”; a expressão haveria sido sucessivamente, carneval ou carnaval”. - Um terceiro grupo de etimologistas apela para as origens pagãs do Carnaval: entre os gregos e romanos costumava-se exibir um préstito em forma de nave dedicada ao deus Dionísio ou Baco, préstito ao qual em latim se dava o nome de currus navalis: donde a forma Carnavale.

Como se vê, não é muito clara a procedência do nome.

Quanto à realidade por este designada deve-se dizer o seguinte:

As mais antigas notícias de pompas semelhantes às que hoje chamamos “Carnaval” datam, como se crê, do séc. VI antes de Cristo, na Grécia: as pinturas de certos vasos gregos apresentam figuras mascaradas a desfilar em procissão ao som de música as pompas do culto do deus Dionísio, com suas fantasias e alegorias, são certamente anteriores à era cristã. Entre os gregos, análogas festividades eram ocasionadas pela entrada de novo ano civil (mês de janeiro) ou pela aproximação da primavera e a conseqüente despedida do inverno. Elementos da religiosidade pagã e da mitologia costumavam inspirar essas celebrações; em geral os povos não-cristãos intencionavam, com seus ritos exuberantes, expiar as faltas cometidas no inverno ou no ano anterior e pedir aos seres superiores a fecundidade da terra e a prosperidade para a primavera e o novo ano. Disto dão testemunho os costumes vigentes ocasião de tais solenidades: para exprimir a expiação e o cancelamento das culpas passadas, por exemplo, encenava-se a morte de um fantoche ou boneco que, depois de “haver feito seu testamento” e após uma paródia de transporte fúnebre, era queimado ou lançado à água ou de qualquer modo destruído (rito celebrado geralmente no dia 1º de janeiro) Em algumas regiões procedia-se à confissão pública dos vícios: matava-se um peru, o qual, antes de morrer, proclamava pela boca de um dos cidadãos os malefícios da gente do país. A denúncia das culpas tomava não raro um caráter pilhérico e teatral: era, por exemplo, o cômico Arlequim que, antes de ser entregue à morte confessava os seus pecados e os alheios. Apesar das intenções sérias que inspiraram inicialmente tais manifestações públicas, compreende-se que elas tenham mais e mais dado lugar à licenciosidade e a deploráveis abusos, fomentados elo uso de máscaras, trajes alegóricos, pela exibição de préstitos, peças de teatro, etc. Em tese, as danças e o tripudiar característico dessas festas deviam servir de exortação ao povo para que cheio de alegria iniciasse a nova estação do ano. As religiões ditas “de mistérios” provenientes do Oriente e muito difusas no Império Romano, concorreram não pouco, pelo fato de seguirem rituais exuberantes, para o incremento das festividades carnavalescas. Estas, em conseqüência, tomaram o nome de “pompas bacanais” ou “saturnais” ou “lupercais”. As demonstrações de alegria porém, tornando-se subversivas da ordem pública, o Senado Romano, no séc. II a.C. resolveu combater os bacanais; os adeptos destes passaram a ser acusado de graves ofensas contra a moralidade e contra o Estado.

Dado o motivo de tais festividades populares, entende-se que a data de sua celebração tenha sido vária: podia ser o dia 25 de dezembro (dia em que os pagãos celebravam Mitra ou o Sol Invicto) ou o dia 1º de janeiro (começo do novo ano), ou 6 ou 17 de janeiro ou 2 de fevereiro (datas religiosas pagãs) ou algum termo pouco posterior.

II. Atitude da Igreja: quando o Cristianismo se difundiu, já encontrou tais orgias no uso dos povos. Por princípio, o Evangelho não é contrário às demonstrações de júbilo, contanto que não degenerem em celebrações libertinas e pecaminosas. Por isto, os missionários não se opuseram formalmente à realização do Carnaval, mas procuraram dar-lhe caráter novo, depurando-o de práticas que tinham sabor nitidamente supersticioso ou mitológico e enquadrando-o dentro da ideologia cristã; assim, como motivo de alegria pública, os pastores de almas indicavam por vezes algum mistério ou alguma solenidade do Cristianismo (o Natal, por exemplo, ou a Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria, dita “festa da Candelária”, em vez dos mitos pagãos celebrados a 25 de dezembro 6 de janeiro u 2 de fevereiro). Por fim, as autoridades eclesiásticas conseguiram restringir a celebração oficial do Carnaval aos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas (em nossos tempos alguns párocos bem intencionados promovem, dentro das normas cristãs, folguedos públicos nesse tríduo, a fim de evitar sejam os fiéis seduzidos por divertimento pouco dignos).

Como se vê, a Igreja não instituiu o Carnaval; teve, porém, de o reconhecer como fenômeno vigente no mundo em que ela se implantou. Sendo em si suscetível de interpretação cristã, ela o procurou subordinar aos princípios do Evangelho; era inevitável, porém, que os povos não sempre observassem o limite entre o que o Carnaval pode ter de cristão e o que tem de pagão. Está claro que são contrários às intenções da Igreja os desmandos assim verificados Em reparação dos mesmos, foram instituídas a adoração das Quarenta Horas e as práticas de Retiros Espirituais nos dias anteriores à quarta-feira de cinzas.

D. Estevão Bettencourt, osb.

Revista PR, Nº 5, Ano 1958, Página 213


Da carta de São Paulo aos Romanos:(Rm 14, 1-4; 14, 10-11; 14,13)

No que deve ser evitado de todas as formas na nossa conduta Cristã, qualquer ato de julgamento, menosprezo, rejeição ou até mesmo intolerância para com aqueles aos quais aparentam ser mais leigos na fé que nós, iniciantes na vida cristã e pessoas as quais podemos considerar como "não-religiosas". No que compete somente a Deus (julgar); Ele que sonda e conhece o coração de cada homem e somente Ele sabe quando este ou aquele irmão tem sido ou não um bom Cristão ou se tem sido ou não agradável aos Seus olhos.Cada vez que alguém usa de julgamento para com um irmão "mais jovem", chegando-se até mesmo a usar de termos como por exemplo: "Católico morno"; "Pseudo-Católico"; "Católico de carteirinha"; ou: "Se você pensa, fala ou age assim, você não é Católico(a)"... é a nos mesmos a quem estamos no rebaixando diante da presença de Jesus, porque está escrito que todo aquele que se exaltar será humilhado, e ao julgar cada irmão, como se este ou aquele fosse digno somente de piedade e misericórdia, e como se somente nós fossemos dignos de graça e de salvação, estamos nos exaltando diante de homens. E a todo aquele que se exalta, Deus, no dia do Seu julgamento irá reservar à estes os últimos lugares, enquanto que os primeiros lugares no Reino serão destinados àqueles que foram por estes primeiros, julgados.

A nossa conduta diante dos irmãos mais leigos

Sejamos, pois, sempre acolhedores para com estes, sejamos pacientes e estejamos sempre dispostos em ajudar a cada um destes irmãos na sua caminhada e crescimento na fé Cristã,e por inúmeras que sejam as vezes em que algum deles vier a cair, que sejamos também sempre pacientes e estejamos sempre prestes a estendê-los as nossas mãos; mas o que não convém e que não pode acontecer jamais de nossa parte, é que usemos para com eles de qualquer tipo de julgamento que seja ou qualquer ato de desprezo ou preconceito.

Não devemos julgá-los por sua conduta

Ao ver que algum deles usam ainda de alguma conduta que não convém a Cristãos ou que ainda crêem em... ou praticam algo que seja anti-cristão ou que possa não edificar na fé cristã, não sejamos radicais ao extremo, mas com um coração acolhedor e pedindo sempre ao Espírito Santo para que nos ilumine, procuremos auxiliá-los na busca pela Verdade, mostrando-lhes as verdades com fundamentos bíblicos e sempre com o interesse em explicá-los quais são as coisas que são e que não são convenientes a Cristãos Católicos e o por quê. Se ainda assim este ou aquele irmão continuar insistindo no erro e não quiser "nos ouvir", nem assim o abandonemos, mas nos coloquemos fervorosamente em orações, intercedendo por nossos irmãos que, de alguma forma ainda "teimam" em prosseguir nos erro; e sempre pedindo também em nossas orações por eles, pela intercesssão de Nossa Senhora, que com seu infinito Amor de Mãe, não quer que nenhum de seus filhos de perca e que não cessa de rogar por cada um de nós, sempre com seu Amor e com sua prece de Mãe.E assim peçamos ao Senhor Deus com confiança, para que nos ilumine com Seu Espírito Santo, para que sob a ação do mesmo Espírito, possamos acolher nossos irmãos mais leigos e mais fracos na fé, sempre como coração aberto e de mãos estendidas.


Quando o direito à vida de um único ser humano inocente deixa de ser garantido, a vida de todos passa a correr risco. Basta ficar incluído na categoria errada.

No momento em que escrevo, o canal britânico de TV Sky Real Lives está prestes a difundir o vídeo, ao vivo, do suicídio do professor aposentado Craig Ewert, afetado por doença neurológica, numa clínica médica de Zurique especializada em assistência aos que decidem terminar com a própria vida. Na Suíça, porque na Inglaterra o suicídio assistido ainda é crime, passível de uma pena máxima de 14 anos de prisão para o cúmplice.

O suicídio de Craig Ewert fará parte do documentário Right to Die? (Direito de morrer?), do cineasta John Zaritsky, devendo ser exibido no horário de maior audiência, às 21 horas. Com essa difusão, o canal Sky Real Lives deseja provocar um debate em torno da eutanásia, e assim desencadear um processo legislativo que termine concedendo às pessoas da área clínica a “permissão para matar”.


O caso da italiana Eluana Englaro


Debate similar convulsionou a opinião pública italiana no segundo semestre de 2008, após a Corte de Apelações de Milão ter autorizado o pai de uma moça de 36 anos a matá-la por inanição, retirando-lhe a sonda que a alimenta.

Há 16 anos em estado de coma, como decorrência de um acidente de automóvel, a italiana Eluana Englaro não representa nenhum peso para a família, pois vive numa clínica dirigida por freiras católicas, que lhe prodigalizam todos os cuidados: sessões de fisioterapia, passeios em cadeira de rodas, gestos de carinho, etc. Não está ligada a nenhum aparelho, sendo apenas alimentada, à noite, por uma sonda. A freira Albina Corti, responsável pela clínica, afirma que “a vida de Eluana não se interrompeu. É um mistério, mas ela vive...”. E pode recuperar a consciência, como tem acontecido em casos largamente noticiados.

Privá-la de comida e de água, como seu pai o deseja e a Corte de Milão autorizou, equivale pura e simplesmente a matá-la de fome. O que é um absurdo, considerando-se que Eluana não está doente, menos ainda em fase terminal, mas simplesmente desacordada. Convém ressaltar que, em seu caso, nem se pode falar de “alimentação artificial”, porquanto seu aparelho digestivo está perfeitamente em ordem. Apenas a alimentação é administrada artificialmente, devido à sua incapacidade de mastigar e deglutir.

Por essa razão, nenhum hospital ou clínica do norte da Itália, público ou privado, aceitou receber Eluana para infligir-lhe a morte. Agiram, aliás, coerentes com o juramento de Hipócrates, até hoje repetido pelos médicos: “Aplicarei os regimes para o bem do doente, segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei, por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza à perda”.

Infelizmente, a clínica Cidade de Udine acabou aceitando receber Eluana para retirar a sonda. Mas o Ministro da Saúde, Maurizio Sacconi, enviou uma circular proibindo todos os centros sanitários da Itália de desconectar as sondas que alimentam e hidratam os pacientes em estado vegetativo permanente. O braço de ferro entre a família e os defensores de Eluana ainda continua.

O caso levantado no Grão-Ducado do Luxemburgo


O Grão-Duque Henrique de Luxemburgo

Movido pelos mesmos sentimentos — e por suas convicções católicas, segundo as quais a vida humana inocente é sagrada, devendo ser respeitada desde a concepção até a morte natural —, o Grão-Duque Henrique abriu uma crise constitucional no Luxemburgo, do qual é o soberano. No início de dezembro de 2007, anunciou que não sancionaria um projeto de lei autorizando a eutanásia, aprovado em primeira instância pelo parlamento do Grão-Ducado, por pequena maioria. O primeiro-ministro Jean-Claude Juncker comunicou que, nesse caso, promoveria uma reforma constitucional, com vistas a retirar do Grão-Duque o direito de sancionar as leis (o que implica em avaliar se elas são pertinentes) e limitar sua participação em promulgá-las. Acontece que a maioria dos luxemburgueses parece estar de acordo com seu monarca, em sua recusa de aprovar o projeto que permite a morte assistida de seus concidadãos. Apesar disso, a Câmara dos Deputados do Luxemburgo aprovou depois, por 31 votos a 26, o projeto de lei que autoriza a eutanásia no Grão-Ducado, em 18 de dezembro último. Entretanto, tal projeto não poderá entrar em vigor enquanto não for completada a referida reforma constitucional, a qual não será alcançada facilmente. Grupos pró-vida do pequeno Estado europeu já estão pleiteando a realização de um referendo para que o eleitorado se pronuncie sobre a pretendida limitação de poderes ao seu soberano.

Os casos acima relatados revelam quanto está aceso na Europa o debate sobre a eutanásia.

Eutanásia e suas modalidades: a ativa e a passiva

“Eutanásia” provém das palavras gregas “eu” (bom, agradável, doce) e “thanatos” (morte). Literalmente significa “morte agradável”. No seu sentido comum atual, a eutanásia é uma ação ou uma omissão cuja intenção primeira é dar a morte a um doente para suprimir sua dor ou sua decadência física.

Na eutanásia há, pois, três elementos:

–– Uma intenção: causar a morte;

–– Uma finalidade: suprimir a dor ou a decadência física;

–– Meios empregados: ação ou omissão.

Se o paciente é morto pela administração deliberada de substâncias mortíferas, denomina-se eutanásia ativa; se sua vida é eliminada pela interrupção de uma terapia ou de um tratamento médico proporcionado e ordinário, mas necessário para sua sobrevivência, chama-se eutanásia passiva (por exemplo, interromper os medicamentos de controle da pressão arterial de um paciente que sofre de hipertensão, provocando sua morte por derrame cerebral ou qualquer outra conseqüência).

Ativa ou passiva, a eutanásia é sempre imoral, por tratar-se de um suicídio (se o próprio paciente pratica o ato ou a abstenção que acarreta a morte), ou um homicídio (se o ato ou abstenção é praticado pelo pessoal médico ou pela família do paciente).

A eutanásia passiva distingue-se da simples abstenção terapêutica, pelo fato de esta última consistir na interrupção de um tratamento extraordinário e desproporcionado (por exemplo, o emprego do pulmão artificial num agonizante), cuja continuação pareceria uma mera obstinação terapêutica, sem nenhuma esperança de melhora.

Obrigatoriedade de conservar a vida do enfermo

Papa Pio XII

A legitimidade moral da abstenção terapêutica de tratamentos extraordinários foi assim justificada pelo Papa Pio XII, num discurso sobre a reanimação e a respiração artificial:

“A razão natural e a moral cristã dizem que o homem (e quem esteja encarregado de cuidar de seu semelhante) tem o direito e o dever, em caso de doença grave, de tomar as medidas necessárias para conservar a vida e a saúde. Tal dever, ele o tem para consigo mesmo, para com Deus, para com a comunidade humana, e mais amiúde para com pessoas determinadas. Deriva da caridade bem ordenada, da submissão ao Criador, da justiça social e ainda da estrita justiça, assim como da piedade para com a família. Mas obriga habitualmente só ao emprego dos meios ordinários (segundo as circunstâncias de pessoas, lugares, épocas, cultura), quer dizer, a meios que não imponham nenhuma carga extraordinária para si mesmo ou para outro. Uma obrigação mais severa seria demasiadamente pesada para a maior parte dos homens, e tornaria mais difícil a aquisição de bens superiores mais importantes.”(1)

Evidentemente, o fornecimento de água e alimento por vias artificiais é moralmente obrigatório, conforme ensinou o Papa João Paulo II:

“Em particular, gostaria de realçar como a administração de água e alimentos, mesmo quando é feita por vias artificiais, representa sempre um meio natural de conservação da vida, não um ato médico. Por conseguinte, o seu uso deve ser considerado, em linha de princípio, ordinário e proporcionado, e como tal moralmente obrigatório, na medida em que, e até quando, ele demonstra alcançar a sua finalidade própria, que, neste caso, consiste em fornecer ao doente alimento e alívio aos sofrimentos.”(2)

Por isso é que, no caso da jovem Eluana, a suspensão da alimentação equivale a um homicídio, e não a uma mera abstenção terapêutica.


Sete de fevereiro de 2009. Há cem anos nascia em Fortaleza, no Ceará, Dom Hélder Câmara, o religioso que defendeu os pobres, a justiça social, a paz entre os povos. Hoje Olinda acordou com o repicar dos sinos... no Alto da Sé, a sinfonia era pra lembrar o centenário de nascimento do Dom da Paz, uma das mais importantes personalidades brasileiras do Século 20. Ele morreu há dez anos, mas as obras sociais que criou continuam transformando vidas.

Confira aqui o site criado para homenagear a obra do religioso.

As homenagens continuam às 15h, com o lançamento do selo e do carimbo dos Correios em homenagem a Dom Hélder, desenhado por Silvania Branco. Às 16h30, vai ser celebrada uma missa campal nos jardins da Igreja das Fronteiras para festejar o centenário do religioso. O presidente nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio, vai coordenar a concelebração eucarística.

Depois, uma escultura do arcebispo doada pela Prefeitura do Recife será inaugurada. A estátua, localizada ao lado da Igreja das Fronteiras, vai compor o circuito dos poetas da cidade. Músicas feitas em homenagem a Dom Hélder serão reunidas em CD, sob a coordenação do padre Rubens Almeida.

Para encerrar a festa, o Bloco da Saudade presta homenagem carnavalesca ao Dom, com apresentação especial. “Dom Hélder nasceu no dia de carnaval e sempre teve um temperamento alegre, otimista, cheio de esperança“, afirma a diretora do Centro de Documentação, Lúcia Moreira. “Todos os anos ele é homenageado pelo Bloco da Saudade”.

A Câmara de Vereadores do Recife e a Assembléia Legislativa de Pernambuco também têm eventos em homenagem a Dom Hélder em suas agendas de fevereiro.

Em Brasília, uma sessão solene na Câmara dos Deputados vai reverenciar o Dom da Paz. Em Fortaleza, terra natal do religioso, o Seminário de Prainha, onde ele estudou e foi ordenado, também dá início às celebrações.

O arcebispo emérito de Olinda e Recife foi um homem de muitas ações e lutas. Chegou a ser reconhecido internacionalmente como um dos principais defensores dos Direitos Humanos no Brasil durante o regime militar.

Dom Hélder foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Recebeu 33 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades ao redor do mundo. Não quis morar no Palácio dos Manguinhos, a sede a Arquidiocese de Olinda e Recife. Preferiu a simplicidade de uma pequena e centenária igreja.

O homem que dedicou a vida à luta pelos Direitos Humanos e aos pobres, recebeu o carinho e reconhecimento do papa João Paulo II, que em discurso, resumiu: “Meu irmão, irmão dos pobres”.




“O Bispo dos pobres”





Dom Hélder Câmara nasceu em 7 de fevereiro de 1909 e morreu, aos 90 anos, em 28 de agosto de 1999.

Foi um dos maiores líderes da Igreja Católica brasileira, considerado o pioneiro no movimento renovador conhecido por “ opção pelos pobres ”. Nomeado arcebispo de Olinda e Recife em 1964, foi acusado de comunista por suas denúncias de violação de direitos humanos no regime militar e por seus trabalhos com movimentos populares – criou as Comunidades Eclesiais de Base.

Respeitado internacionalmente, só não recebeu o Prêmio Nobel da Paz porque no início dos anos 70, período da ditadura, o governo (1969-74), secretamente, moveu uma campanha contra a sua candidatura; no entanto, o povo o elegeu cardeal, sem nunca ter sido e um verdadeiro representante da paz.



FRASES
“Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade”.
Mensagem de Natal em 1992


“Pobreza é suportável, mas miséria é uma acinte à natureza humana”.
Em 17,nov.90

“Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo...”

“Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio...”

“Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante ...Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo...”

Fonte: Folha de S.Paulo- 28/08/1999
Câmara, D.Hélder , Mil razões para viver, Civilização Brasileira1987


No dia 11 de fevereiro a Igreja celebra o Dia mundial do Enfermo. O Vaticano publicou hoje, 7 a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia do Enfermo. Este ano, a mensagem se dirige particularmente às crianças.

Leia abaixo a mensagem na íntegra

"Queridos irmãos e irmãs,

No Dia Mundial do Enfermo, que celebramos em 11 de fevereiro, memória litúrgica da Bem-aventurada Maria, Virgem de Lurdes, as Comunidades diocesanas se reúnem com seus bispos em momentos de oração, para refletir e programar iniciativas de sensibilização sobre as realidades do sofrimento. O Ano Paulino, que estamos celebrando, oferece a ocasião propícia para determo-nos e meditarmos com o Apóstolo Paulo sobre o fato que, "assim como os sofrimentos de Cristo são copiosos para nós, assim também por Cristo é copiosa a nossa consolação". (2 Cor 1,5).

A relação espiritual com Lourdes evoca também a materna solicitude da Mãe de Jesus pelos irmãos de seu Filho "que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada". (Lumen gentium, 62).

Este ano, nossa atenção se dirige particularmente às crianças, criaturas mais frágeis e indefesas; e entre elas, às crianças enfermas e sofredoras. Pequenos seres humanos levam em seus corpos conseqüências de enfermidades que causam invalidez; outros lutam contra males hoje ainda incuráveis, não obstante o progresso da medicina e a assistência de válidos cientistas e profissionais do campo da saúde. Existem crianças feridas no corpo e na alma em conflitos e guerras, e outras ainda, vítimas inocentes do ódio de insensatas pessoas adultas. Existem meninos e meninas "de rua", carentes do calor de uma família e abandonados a si mesmos; e menores profanados por pessoas sem escrúpulos, que violam sua inocência, provocando sequelas psicológicas que as marcarão pelo resto da vida.

Não podemos ignorar o incalculável número de menores que morrem por causas como sede, fome, carência de assistência sanitária, assim como os pequenos refugiados, escapados de suas terras com os pais em busca de melhores condições de vida. De todas estas crianças, eleva-se um silencioso grito de dor que interpela nossas consciências de homens e cristãos.

A comunidade cristã, que não pode ficar indiferente diante de situações tão dramáticas, sente o dever premente de intervir. Com efeito, como escrevi na Encíclica Deus caritas est, "A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário" (25, b). Auspicio, portanto, que o Dia Mundial do Enfermo ofereça também a oportunidade às comunidades paroquiais e diocesanas de assumirem sempre mais a consciência de ser “família de Deus”, e as encoraje a tornar visível em aldeias, bairros e cidades, o amor do Senhor, que pede que "na própria Igreja enquanto família, nenhum membro sofra porque passa necessidade." (ibid.). O testemunho da caridade faz parte da própria vida de toda comunidade cristã. Desde seus inícios, a Igreja traduziu os princípios evangélicos em gestos concretos, como lemos nos Atos dos Apóstolos. Hoje, em meio a novas condições de assistência sanitária, sente-se a necessidade de uma colaboração mais estreita entre os profissionais da saúde que atuam em diversas instituições médicas e as comunidades eclesiais presentes no território. Nesta perspectiva, confirma-se todo o seu valor do Hospital Pediátrico Menino Jesus, instituição ligada à Santa Sé que celebra este ano 140 anos de vida.

Vamos além. Visto que toda criança enferma pertence a uma família que compartilha seu sofrimento, freqüentemente com graves dificuldades, as comunidades cristãs não podem deixar de ajudar os núcleos familiares atingidos pela doença de um filho ou filha. Seguindo o exemplo do "Bom Samaritano", é preciso inclinar-se às pessoas tão duramente provadas e oferecer-lhes o amparo de uma solidariedade concreta. Desta forma, a aceitação e a partilha do sofrimento se traduzem em útil apoio às famílias das crianças doentes, gerando nestas um clima de serenidade e esperança, e fazendo sentir a seu redor uma ampla família de irmãos e irmãs em Cristo. A compaixão de Jesus pelo pranto da viúva de Nain (cfr Lc 7,12-17) e pela implorante oração de Jairo (cfr Lc 8,41-56) são, entre outras coisas, pontos de referência para aprender a compartilhar os momentos de aflição física e moral de tantas famílias. Tudo isso pressupõe um amor desinteressado e generoso, reflexo e sinal do amor misericordioso de Deus, que nunca abandona seus filhos na provação, mas lhes oferece sempre admiráveis recursos de coração e inteligência para serem capazes de enfrentar adequadamente as dificuldades da vida.

A dedicação cotidiana e o empenho contínuo a serviço das crianças enfermas constituem um testemunho eloqüente de amor à vida humana, de modo especial, à vida de quem é vulnerável e totalmente dependente dos outros. É preciso afirmar, com vigor, a absoluta e suprema dignidade de toda vida humana. Com o passar dos tempos, o ensinamento que a Igreja incessantemente proclama não muda: a vida humana é bela e deve ser vivida em plenitude, mesmo quando é frágil e envolvida no mistério do sofrimento. É a Jesus, crucificado, que devemos dirigir o nosso olhar: morrendo na Cruz, Ele quis compartilhar a dor de toda a humanidade. Em seu 'sofrer por amor', percebemos uma suprema co-participação aos sofrimentos dos pequenos doentes e de seus pais. Meu venerado predecessor, João Paulo II, que ofereceu um exemplo luminoso da aceitação paciente do sofrimento, especialmente no final de sua vida, escreveu: "Na Cruz está o «Redentor do homem », o Homem das dores, que assumiu sobre si os sofrimentos físicos e morais dos homens de todos os tempos, para que estes possam encontrar no amor o sentido salvífico dos próprios sofrimentos e respostas válidas para todas as suas interrogações." (Salvifici doloris, 31).

Desejo agora expressar o meu apreço e encorajamento às Organizações internacionais e nacionais que assistem as crianças doentes, especialmente nos países pobres, e que com generosidade e abnegação, oferecem sua contribuição para assegurar-lhes cuidados adequados e amorosos. Ao mesmo tempo, dirijo um apelo aos responsáveis das Nações para que sejam reforçadas as leis e medidas em favor de crianças doentes e de suas famílias. A Igreja, por sua vez, como sempre, e ainda mais quando a vida de crianças está em jogo, se faz disponível para oferecer sua cordial colaboração, na intenção de transformar toda a civilização humana em «civilização do amor» (cfr Salvifici doloris, 30).

Concluindo, gostaria de expressar a minha proximidade espiritual a todos vocês, queridos irmãos e irmãs que sofrem por alguma enfermidade. Dirijo uma saudação carinhosa às pessoas que os assistem: Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, agentes de saúde, voluntários e todos os que se dedicam com amor a curar e aliviar o sofrimento de quem é atingido pela doença. Uma saudação toda especial a vocês, queridas crianças enfermas e que sofrem: o Papa as abraça com carinho paterno, assim como a seus pais e familiares, e lhes assegura uma recordação na oração, convidando-os a confiar na materna ajuda da Imaculada Virgem Maria, que contemplamos mais uma vez no último Natal enquanto abraçava com alegria o Filho de Deus feito menino. Ao invocar para vocês e para todos os enfermos a materna proteção da Virgem Santa, Saúde dos Enfermos, concedo a todos, de coração, uma especial Benção Apostólica".
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