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O Jornal Folha de São Paulo, noticiou no dia 9 de novembro 2009, que os pastores Fábio Inácio de Souza, 30, e Marcos Gladstone, 33, vão assinar contrato de união estável no Rio de Janeiro. Eles já estão juntos há três anos, e agora vão assinar contrato de união estável no próximo dia 20, no Dia de Zumbi dos Palmares, porque, segundo eles, representa a luta contra o preconceito.

Dois dias após começarem o namoro, em 2006, eles fundaram a Igreja Cristã Contemporânea, hoje com três sedes e mais de 500 seguidores. A denominação tem como objetivo acolher o público gay que, segundo eles, não se sentia bem em outras igrejas.

Antes de conhecer Gladstone, Souza foi pastor da Igreja Universal do Reino de Deus e, por quatro anos, noivo de uma mulher. "Íamos nos casar, mas chegou um momento em que não pude mais me enganar. Quando resolvi assumir minha homossexualidade, tive que me afastar da igreja porque aquilo era visto como um pecado."

Os dois, que passarão a lua de mel na Costa do Sauípe, na Bahia, planejam adotar uma criança e querem todos os direitos que os casais heterossexuais têm. “Estamos construindo um patrimônio juntos", afirma Souza. Os dois esperam abrir caminho para novas uniões entre pastores evangélicos. Fica a pergunta: será que as comunidades protestantes vão abrir as portas à homossexualidade, como fizeram os anglicanos que voltaram para a Igreja Católica?

Data da publicação: 09/11/2009


1257 – O Senhor mesmo afirma que o Batismo é necessário para a salvação. Também ordenou a seus discípulos que anunciassem o Evangelho e batizassem todas as nações. O Batismo é necessário, para a salvação, para aqueles aos quais o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento. A Igreja não conhece outro meio senão o Batismo para garantir a entrada na bem-aventurança eterna; é por isso que cuida de não negligenciar a missão que recebeu do Senhor, de fazer “renascer da água e do Espírito” todos aqueles que podem ser batizados. Deus ligou a salvação ao sacramento do Batismo, mas ele mesmo não está ligado aos seus sacramentos.

1258 – Desde sempre, a Igreja mantém a firme convicção de que as pessoas que morrem em razão da fé, sem terem recebido o Batismo, são batizadas pela sua morte por e com Cristo. Este Batismo de sangue, como o desejo do Batismo, acarreta os frutos do Batismo, sem ser sacramento.] 1259 – Para os catecúmenos que morrem antes de seu Batismo, seu desejo explícito de recebê-lo, juntamente com o arrependimento dos seus pecados e com a caridade, garante-lhes a salvação que não puderam receber pelo sacramento.

1260 – “ Sendo que Cristo morreu por todos, e que a vocação última do homem é realmente uma só, a saber, divina, devemos sustentar que o Espírito Santo oferece a todos, sob forma que só Deus conhece, a possibilidade de se associarem ao Mistério Pascal”. Todo homem que, desconhecendo o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, procura a verdade e pratica a vontade de Deus segundo o seu conhecimento dela, procura a verdade e procura a vontade de Deus segundo o seu conhecimento dela, pode ser salvo. Pode-se supor que tais pessoas teriam desejado explicitamente o batismo se tivessem tido conhecimento da necessidade dele.

1261 – Quanto às crianças mortas sem Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus, como faz no rito das exéquias por elas. Com efeito, a grande misericórdia de Deus, que quer a salvação de todos os homens, e a ternura de Jesus para com as crianças, o levaram a dizer: “Deixai as crianças virem a mim, não as impeçais” (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo. Eis por que é tão premente o apelo da Igreja de não impedir as crianças de virem a Cristo pelo dom do santo Batismo.


Antigamente se pensava que sim, embora a Igreja nunca tenha ensinado isso oficialmente; pois ela nunca disse o nome de um condenado. Hoje, com a ajuda da psicologia e psiquiatria, sabemos que a culpa do suicida pode ser muito diminuída devido a seu estado de alma.

Evidentemente que o suicídio é, objetivamente falando, um pecado muito grave, pois atenta contra a vida, o maior dom de Deus para nós. Infelizmente há países que chegam a facilitar e até mesmo estimular esta prática para pacientes que sofrem ou para doentes mentais. Na Suíça, por exemplo, uma decisão da Suprema Corte abriu o caminho para a legalização da assistência ao suicídio de pacientes mentalmente doentes. O país já permite legalmente o suicido assistido para outros tipos de pacientes com uma ampla faixa de doenças e incapacidades físicas. É o império da “cultura da morte” através da eutanásia.

O Catecismo da Igreja ensina que:

§2280 – “Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e a salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela”.

§2281 – “O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo”.

Mas o Catecismo lembra também que a culpa da pessoa suicida pode ser muito diminuída:

§2282 – “Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrário à lei moral. Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida”.

Portanto, ninguém deve pensar que a pessoa que se suicidou esteja condenada por Deus; os caminhos de Sua misericórdia são desconhecidos de nós. O Catecismo manda rezar por aqueles que se suicidaram:

§2283 – “Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.

Certa vez o santo Cura D´Ars, São João Maria Vianney, ao celebrar a santa Missa notou que uma mulher vestida de luto estava no final da igreja chorando, seu marido havia suicidado na véspera, saltando da ponte de um rio. O santo foi até ela no final da Missa e lhe disse: “pode parar de chorar, seu marido foi salvo, está no Purgatório; reze por sua alma”. E explicou à pobre viúva: “Por causa daquelas vezes que ele rezou o Terço com você, no mês de maio, Nossa Senhora obteve de Deus para ele a graça do arrependimento antes de morrer”. Não devemos duvidar dessas palavras.


O Papa João Paulo II disse que ´o ato de educar é o prolongamento do ato de gerar´; isto é, fazem parte do mesmo ato.

´Gerar segundo a carne significa dar início a uma posterior ´geração´, gradual e complexa, através do inteiro processo educativo´ (CF, 16).

Educar os filhos é a grande missão que Deus confiou aos pais. É por causa da importância dessa tarefa, que Deus ´encheu de honra´ as pessoas dos pais, como vimos no capítulo anterior.

O que é educar?

Os pensadores deram muitas respostas a esta importante pergunta.

Ghandi dizia que ´a verdadeira educação consiste em pôr a descoberto o melhor de uma pessoa.´ Nisto é preciso a arte de educar, a mais difícil e mais bela de todas.

Certa vez Michelangelo viu um bloco de pedra e disse: ´aí dentro há um anjo, vou colocá´lo para fora!´ Depois de algum tempo, com o seu gênio de escultor, fez o belo trabalho. Então lhe perguntaram como tinha conseguido aquela proeza. Ele respondeu: ´o anjo já estava aí, apenas tirei os excessos que estavam sobrando´. Educar é isto, é ir com paciência e perícia tirando os maus hábitos e descobrindo as virtudes, até que o ´anjo´ apareça.

Michel Quoist dizia ´que não é para si que os homens educam os seus filhos, mas para os outros e para Deus.´

Coelho Neto dizia que ´educar é colaborar com Deus´, e que ´é na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais´. Também ensinava que a educação não pode ser feita pelo medo, já que ´a educação pelo medo deforma a alma´.

O pensador inglês John Spalding, dizia que ´a educação pelos outros lança as bases; a educação por si mesmo termina o edifício.´

É preciso preparar os filhos para que entendam que a própria pessoa é a principal responsável por sua educação, e que, quem cultiva as suas qualidades sente a própria dignidade e valor da sua vida. Isto será mais importante ainda naqueles casos em que a pessoa tem problemas especiais de saúde, deficiência física, etc. As vezes é preciso chegar ao heroísmo para cultivar´se.

Sotelli afirmava que ´educar é formar homens verdadeiramente livres´.

Para Rousseau,´educar é a arte de formar homens´.

Para Platão,´educar é dar à alma e ao corpo toda a perfeição de que são susceptíveis´.

De fato, educar é promover o crescimento e o amadurecimento da pessoa humana em todas as suas dimensões: material, intelectual, moral e religiosa. Por isso, educação não se aprende só na escola, mas principalmente em casa. Às vezes se ouve dizer: ´ele é analfabeto, mas é muito educado´. Não adianta ser doutor e não saber tratar os outros; não cumprir com a palavra dada; não se comportar bem; trair a esposa e os filhos; não ser gentil; não ser afável, etc. Sem dúvida, a educação é a melhor herança que os pais devem deixar aos filhos; esta ninguém pode lhes roubar nem destruir.

A educação não é só para as crianças e jovens; é para todos; é uma tarefa que nunca termina na vida. Aliás, alguém disse que a vida é uma escola que nunca tem férias. Cada encontro novo, cada conversa boa, cada aula, cada fato novo, cada livro, acrescenta algo em nossa educação. Na vida, aprendemos com a experiência, nossa e dos outros. É muito mais sábio quem aprende com a experiência dos outros, sem ter que sofrer com os próprios erros.

Ramalho Ortigão afirmou que ´o homem sem educação, por mais alto que o coloquem, permanece um subalterno´.

Educação não é ´esperteza´, ter sucesso a qualquer custo, às vezes pisando e tapeando os outros. A triste filosofia do ´levar vantagem em tudo´, se transformou em filosofia de vida para muitos.

Certa vez Andrew Carnegie disse que ´muitos são instruídos, mas poucos são educados. Um homem educado é aquele que aprendeu a usar a sua mente de forma a conseguir tudo o que deseja sem violar os direitos dos outros.´

O grande pensador grego Aristóteles, dois séculos antes de Cristo, já dizia que ´a educação é um ornamento na prosperidade e um refúgio na adversidade´.

O homem moderno está, sem dúvida cheio de ciência e de sofisticada tecnologia, mas pobre de sabedoria; e sem esta o mundo não pode ser feliz; eis a razão pela qual temos tanta dor. Somente homens sábios poderão dar ao mundo o que ele precisa.

O grande filósofo grego Sócrates, mesmo sem conhecer o cristianismo, já dizia que ´só é útil o conhecimento que nos faz melhores´.

Todos esses conceitos emitidos sobre a educação nos ajudam a entendê´la melhor. O que importa é não deixar o filho sem ela; seria a sua ruína; e, como disse, certa vez Gautier, ´de todas as ruínas do mundo, a ruína do homem é sem dúvida o espetáculo mais melancólico´.

A educação leva a pessoa a descobrir o mundo cada vez mais e a se alegrar com as maravilhas criadas por Deus. O Papa Paulo VI falava do ´banquete da vida´. Só as pessoas educadas podem desfrutar saudavelmente deste banquete. Fernando Pessoa dizia sentir´se ´nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo´.

O documento de Medellin, do II CELAM, diz que:

´A educação é efetivamente o meio´chave para libertar os povos de toda escravidão e fazê´los subir de condições menos humanas a condições mais humanas´(4,8).

É através da educação que a pessoa vai se apropriando da herança da humanidade, aprende a ler as palavras e a realidade que a circunda, torna´se cidadão deste mundo e apto a dar a sua parcela na construção desta obra de Deus, para que o mundo seja um lugar agradável para viver, como irmãos.

É pela educação que o homem deve aprender que o progresso não pode sacrificar a natureza (água, terra, ar, matas, rios, oceanos...), nem pode violar as leis da ética e da moral. Quando isto não acontece, o homem acaba temendo ´aquilo que ele mesmo construiu com as suas mãos e com a sua inteligência´, como disse o Papa João Paulo II, na Redemptor Hominis (15).

Há um belo Salmo que diz:

´Os que semeiam entre as lágrimas, Recolherão com alegria.

Na ida, caminham chorando, Os que levam a semente a esparzir.

Na volta virão com alegria, Quando trouxerem os seus feixes.´

(Sl 125,5´6).

Assim será a vida dos pais e dos educadores; como um semear entre lágrimas, paciência, compreensão, carinho, perseverança, fé, bondade, alegria em ver a semente da virtude ser colocada na terra boa dos corações dos filhos.

Na volta virão com alegria, vendo com o passar dos anos a semente frutificar em boas obras e ações nos próprios filhos.

Nada se constrói neste mundo sem sacrifício e perseverança; muito menos um ser humano. Como ele é a obra mais bela de Deus neste mundo, conclui´se que a sua educação é a atividade mais importante deste planeta.

Ao falar da educação, na Carta às Famílias, o Papa João Paulo II, assim se expressou:

´Em que consiste a educação ? Para responder a esta questão, há que recordar duas verdades fundamentais: a primeira é que o homem é chamado a viver na verdade e no amor; a segunda é que cada homem realiza´se através do dom sincero de si. Isto vale tanto para quem educa como para quem é educado... O educador é uma pessoa que ´gera´ no sentido espiritual. Nesta perspectiva, a educação pode ser considerada um verdadeiro e próprio apostolado´ (CF, 16).

É valioso relembrar aqui, que na celebração do matrimônio, os futuros pais prometem a Deus educar os filhos na fé:

´Estais dispostos a receber amorosamente das mãos de Deus os filhos e a educá´los segundo a lei de Cristo e da Igreja?´

Sobre esta missão dos pais, diz o Papa:

´Se os pais ao darem a vida, tomam parte na obra criadora de Deus, pela educação tornam´se participantes da sua pedagogia conjuntamente paterna e materna.´

´Os pais são os primeiros e principais educadores dos filhos e têm também neste campo uma competência fundamental: são educadores porque são pais.´

´... qualquer outro participante no processo educativo não pode operar senão em nome dos pais, com o seu consenso e, em certa medida, até mesmo por seu encargo.´

Falando de educação, não podemos deixar de dizer claramente uma grande verdade: Não é possível educar sem Deus e sem a Religião. A educação depende das normas morais, e estas vêm da Religião. Na hierarquia dos valores da pessoa humana, acima de todos está a vida espiritual, eterna , transcendente. Sem isto, a educação fica mutilada.

Por que, o mundo de hoje se apresenta diante dos nossos olhos tão macabro? Por que tantos crimes? Por que tanta violência? Por que tanto estupro, que não se ouvia falar antes? Por que tanta droga? Por que tanto alcoolismo? Por que tanto assalto, homicídio, sequestro, corrupção, fraudes, suicídios, ´trombadinhas´? ...

A resposta é fácil:

Porque a educação moderna, atéia, materialista, consumista, hedonista, tirou Deus do coração das crianças, dos jovens e dos adultos. O Criador foi expulso da terra!

Eis, meus amigos, a dura realidade.

Enquanto este triste quadro não for revertido, enquanto Deus, o único e verdadeiro, não voltar ao coração das famílias e das escolas, como antes, não será possível acabar com todas essas mazelas que atormentam a nossa vida hoje. Sem isto não será suficiente encher as ruas de policiais e os códigos de leis. Enquanto o coração do homem não for transformado por Deus, nada mudará na sociedade.

Lamentavelmente, a educação de hoje deixou de lado os valores espirituais e adotou um sistema que apenas valoriza as capacidades pragmáticas, em vista da produção e do consumo imediatos.

Esta filosofia educacional passa por cima dos valores morais, eternos, que dão harmonia e equilíbrio ao homem. Desta forma o educando passa a ser apenas uma peça na gigantesca máquina de produção. Precisamos de uma nova educação, que dê privilégio ao homem e não à produção, ao consumo e ao prazer. E esta é uma guerra que passa por dentro de cada família. É aí, sobretudo, que está lançada a sorte da sociedade.

Pelo que foi dito acima, torna´se super importante a missão educadora e evangelizadora dos pais cristãos hoje. São Tomás de Aquino disse que ´a missão dos pais é uma tarefa até certo ponto paralela ao sacerdócio dos padres´ (Contra Gent. 4, 58).

A EDUCAÇÃO DOS FILHOS

O capítulo 30 do Livro do Eclesiástico nos ensina profundamente sobre essa enorme responsabilidade de educar os filhos, sem o que eles não chegarão à maturidade humana. Começa dizendo:

´Aquele que ama o seu filho, castiga´o com frequência, para que se alegre com isso mais tarde...´ (Eclo 30,1).

Podemos traduzir o ´castiga´o´ por ´educa´o´, uma vez que o castigo só tem sentido se for para educar. Por causa do pecado original, todos nós temos uma natureza lesada, decaída, inclinada ao mal (concupiscência). A educação visa sobretudo recolocar o homem no caminho do bem e da virtude, do qual ele sempre tende a se desviar. É aos pais que cabe sobretudo dar início a esta tarefa na vida dos filhos. A Igreja nos ensina:

´Pela graça do Sacramento do matrimônio os pais receberam a responsabilidade e o privilégio de evangelizar os seus filhos. Por isso os iniciarão desde a tenra idade nos mistérios da fé, da qual são para os filhos os ´primeiros arautos´ (LG,11). Associá´los´ão desde a primeira infância à vida da Igreja. (CIC, 2225)

O Código de Direito Canônico da Igreja afirma que os pais participam do múnus [missão] de santificação ´quando levam uma vida conjugal com espírito cristão e velando pela educação cristã dos filhos´ (Cân. 835, § 4).

A tarefa de educar, como dizia D. Bosco, ´é obra do coração´, é obra do amor. Exige dedicação, renúncia, sacrifício, esquecer´se de si mesmo.

A Gaudium et Spes, do Vaticano II, ensina que:

´Os filhos são o dom mais excelente do matrimônio e constituem um benefício máximo para os próprios pais´ (GS 48, § 1).

O Catecismo da Igreja afirma que:

´Os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos´ (CIC, 1653; GE,3) .

É por tudo isso que o Papa João Paulo II afirmou que a tarefa fundamental do Matrimônio e da família é ´estar a serviço da vida´, e daí ser chamada de ´ santuário da vida´ (FC, 28).

A Igreja não se cansa de repetir que a família deve ser a ´igreja doméstica´, pois é no seio da família que ´os pais são para os filhos, pela palavra e pelo exemplo... os primeiros mestres da fé´ (LG 11; FC 21).

É no seio da família que o filho deve ser educado na fé e nos bons costumes. Diz o Catecismo:

´Em nossos dias num mundo que se tornou estranho e até hostil à fé, as famílias cristãs são de importância primordial, como lares de fé viva e irradiante´ (CIC, 1656).

A Igreja é a ´família de Deus´ (Ef 2,19), e desde a sua origem ela teve o seu núcleo nas famílias que se tornavam cristãs. Quando se convertiam, os cristãos desejavam que ´toda a sua casa´ fosse salva.

O anjo enviado ao centurião Cornélio, ao mandar chamar Pedro à sua casa, disse´lhe:

´Ele te dirá as palavras pelas quais será salvo tu e toda a tua casa´ (At 11,14).

´Senhores, que devo fazer para me salvar? Disseram´lhe [Paulo e Silas]: Crê no Senhor Jesus e serás salvo tu e tua família´ (At 14,31).

O conhecido jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, quando residia nos Estados Unidos, escreveu em 21/09/97, um interessante artigo intitulado Solução Caseira é Melhor Remédio Contra o Vício, sobre a terrível questão das drogas. Diz ele:

´Para dar apenas um número da gravidade do problema: aqui (EUA) todos os anos 110 mil jovens experimentam heroína. Já são 600 mil viciados em heroína...´´

O jornalista afirma que as universidades americanas receberam dinheiro do governo federal para entrevistar 110 mil jovens e 18 mil pais. E conclui:

´Das entrevistas sai, porém, a indicação de que o melhor remédio contra o vício está em casa. Os pesquisadores encontraram uma íntima relação entre o contato afetivo dos filhos com os pais e os distúrbios. Quanto maior a ligação emocional na família, menor a chance de envolvimento com drogas, bebidas, suicídio, sexo promíscuo e violência´.

Em seguida o jornalista afirma que as gangues procuram de certa forma oferecer aos jovens a família que não tiveram:

´O charme das gangues é justamente oferecer um ambiente de aceitação e até hierarquia. Ou seja, uma família.´

Também a escola aparece com papel fundamental:

´A investigação mostra que o envolvimento emocional com os professores também é um antídoto contra a delinquência´.

Em 21/06/98, o mesmo jornalista, no artigo Você sabe a data do seu nascimento?, sobre os meninos de rua, afirma:

´A culpa por estarem na rua é da pobreza, certo? Errado. A investigação ajuda a desfazer o mito de que só a pobreza gera crianças de rua ´ e de que pobreza gera violência.

É, na verdade, um preconceito. Apenas uma minoria saiu de casa para ganhar dinheiro, algo que tinha percebido (mas não colocado em números), desde o ínício de minhas pesquisas em 1989.

Quando indagada sobre porque saiu de casa, a imensa maioria se refere aos desentendimentos familiares ´ muitas vezes abusos dos padrastos. Foram para a rua porque não suportavam o inferno doméstico, marcado pelo abuso sexual, alcoolismo, drogas e pancadarias... Ou seja, a motivação econômica estava bastante distante.´

´Há toneladas de estudos mostrando que o inferno familiar ajuda a jogar os jovens em comportamentos autodestrutivos, o que significa drogas, tentativa de suicídio, violência.´ (Folha de São Paulo, Cotidiano, 3´7, 21/06/98).

Se o jovem não tem um lar acolhedor, então, acaba indo buscar na rua o carinho e o amor que não encontrou na própria casa.

É necessário descer até as raízes do problema, que são os pais e a moral familiar destruída: divórcio, amor livre, uniões ilícitas, alcoolismo, drogas, etc. O Catecismo afirma que:

´O lar é assim a primeira escola de vida cristã e uma escola de enriquecimento humano (GS,52,§ 1). É daí que se aprende a fadiga e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e mesmo reiterado, e sobretudo o culto divino pela oração e oferenda de sua vida´ (CIC, 1657).

´A catequese familiar precede, acompanha e enriquece as outras formas de ensinamento da fé´ (CIC, 2226).

Fica claro, portanto, que a educação dos filhos, é obra da família, e por isso, sem uma família sólida na fé, a educação dos filhos poderá ficar comprometida. Portanto, a primeira preocupação dos pais deve ser criar um lar cristão, onde não haja lugar para valores não cristãos. O Catecismo diz que:

´Os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos. Dão testemunho desta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar onde a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra. O lar é um lugar apropriado para a educação nas virtudes. Esta requer a aprendizagem da abnegação, de um reto juízo, do domínio de si, condições de toda liberdade verdadeira. Os pais ensinarão os filhos a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais´ (CIC, 2223, CA, 36).

Com essas palavras a Igreja mostra qual deve ser o ´conteúdo´ da educação cristã: ternura, perdão, respeito, fidelidade, serviço, abnegação, reto juízo, domínio de si, fé. É evidente que para transmitir esses valores aos filhos, os pais precisam antes vivê´los. Acima de tudo é pelo bom exemplo dos pais que os filhos serão formados.

´Dar bom exemplo aos filhos é uma grave responsabilidade para os pais´, diz o Catecismo (CIC, 2223).

Quando errar perante os filhos, os pais devem ter a coragem de pedir´lhes perdão, sem medo de que esta atitude coerente possa diminuir´lhes a autoridade. Nós pais temos que ser coerentes diante dos filhos, não se apresentando perante eles como ´super´homens´ que não erram. Os pais também erram, e muito; portanto, só lhes resta a alternativa coerente de saber pedir perdão aos filhos, quando falharem com eles. Além do mais, esta atitude corajosa dos pais será para os filhos uma grande lição de humildade. Longe de roubar a autoridade dos pais, essa atitude os fará mais admirados e amados pelos filhos, em vista da sua honestidade diante deles.

O Catecismo, sobre isto, diz:

´Sabendo reconhecer diante dos filhos os próprios defeitos, ser´lhe´á mais fácil guiá´los e corrigi´los´ (CIC, 2223).

Quando um homem erra, qualquer que seja a situação, só lhe resta uma alternativa ética: pedir perdão e reparar os danos causados pelo seu erro. Outra atitude seria orgulho e fingimento. Errar é humano, também para os pais.

Certa vez tive uma ingrata discussão com um dos nossos filhos, quando ele estava no último ano da Faculdade de Engenharia. Isto foi, infelizmente, na hora do almoço. Eu estava irritado e sem paciência, e o tratei com dureza nas palavras. Ele ficou tão ofendido que deixou o prato e saiu da mesa. Naquela hora meu coração ficou apertado... No mesmo instante me dei conta do erro que tinha cometido, e prometi a mim e a Deus: ´vou pedir´lhe perdão!´ À noite, quando ele regressou da Faculdade, o encontrei na cozinha fazendo o seu lanche. Fechei a porta, aproximei´me dele, passei meus braços sobre os seus ombros e lhe disse: ´Filho, me perdoe, não é assim que devemos resolver os nossos problemas...´ A sua resposta foi um abraço amigo, com apenas duas palavras e duas lágrimas: ´obrigado pai´.

Naquele abraço dissiparam´se as trevas e voltou a paz em nossos corações, e hoje somos grandes amigos.

Não se pode adiar o pedido de perdão. É um ato de coragem e de coerência, que deve ser realizado no menor prazo possível, a fim de que o ressentimento da discórdia não tenha tempo de formar raízes em nós e nos filhos.

O Eclesiástico continua a nos ensinar:

´Aquele que dá ensinamento a seu filho será louvado por causa dele´

´O pai morre, e é como se não morresse, pois deixa depois de si um seu semelhante´(Eclo 30,2´4).

Cabe aos pais transmitir aos filhos os ensinamentos e conselhos ´para que sejam salvos´ (Eclo 3,2); contudo, os filhos só ouvirão os conselhos dos pais se tiverem estima e ´admiração´ por eles. Eis algo muito importante: o pai e a mãe têm que ´conquistar´ os filhos. Um filho que admira o pai, o segue e ouve os seus conselhos; caso contrário será difícil.

O nosso querido João Paulo II ensina que:

´Educar é conquistar o coração, animá´lo com alegria e satisfação em busca do bem´.

E como os pais devem conquistar os seus filhos?

Não deve ser com dinheiro, chantagens e outras artimanhas. Muitos pais erram grosseiramente nisto. Pensam que dando aos filhos tudo o que eles querem ´ roupas da moda, tênis de marca, programas mil, poderão conquistá´los. Não será assim; se o fosse, os pobres não teriam como educar os seus filhos.

O pai há de conquistar o filho ´por aquilo que ele é´, e não por aquilo que tem e que lhe dá; isto é, o pai conquistará o filho pelo respeito que lhe dedica, pelo tempo que gasta ao seu lado, pelo consolo que lhe oferece nas horas de dificuldade, pelos passeios que faz com eles, pela ajuda dedicada naquele problema da escola, por sua honestidade pessoal e profissional, pelo bom nome que cultivou, pela dedicação à família, pelo amor e fidelidade à esposa e aos filhos, etc... O mesmo vale para a mãe.

Como é bela aquela frase do Pequeno Príncipe que diz assim:

´Foi o tempo que gastaste com tua rosa, que fez tua rosa tão importante´.

Caro pai, cara mãe, é todo o tempo, dinheiro, dedicação, carinho, atenção... que você gastar com o seu filho, que vai fazê´lo tão importante para você, e que também vai fazê´lo importante para ele.

Como poderá um filho ouvir os conselhos de um pai que não conquistou o seu respeito e admiração?

Como poderá um filho acatar os ensinamentos de um pai que não o respeita, que trai a sua mãe, ou que não tem responsabilidade profissional ?

Um dia vi um adesivo pregado em um automóvel, e que dizia: ´Adote o teu filho antes que o traficante o faça!´

Eu preferiria escrever: ´Conquiste o teu filho antes que o traficante o faça!´

Se hoje, nós pais, não conquistarmos os nossos filhos, se não nos tornarmos ´amigos´ deles, os perderemos. Só há um jeito hoje de acabar com o uso das drogas: amando e conquistando os filhos na família. Todo o combate ao narcotráfico será em vão enquanto houver jovens carentes do amor dos seus pais. Infelizmente a droga se alastra, mais por culpa da decadência moral e familiar do que pela força do narcotráfico. Se não houver filhos carentes, o traficante ficará só.

Eis aqui o cerne da questão da educação dos filhos hoje. Ou nós os cativamos pela amizade, pelo diálogo e pelo respeito, ou poderemos perdê´los para o mundo.

De muitas maneiras os pais perdem os seus filhos.

Um grave erro dos pais é não ter tempo para eles. Trabalham, trabalham e trabalham... e o tempo escasso que sobra não podem estar com os filhos porque precisam descansar, e fazer outras coisas. Ora, educar os filhos é uma tarefa que exige ´estar com os filhos´. É acompanhando´os no dia´a´dia que temos a oportunidade de corrigí´los. Além do mais, os pais precisam participar da vida dos filhos, para que eles se sintam valorizados e amados. A principal carência dos nossos jovens hoje é a falta de amor dos pais, que se manifesta na ausência e na omissão destes.

Os filhos crescem rápido; não mais do que 18 anos e eles já estão se separando de nós para viver a própria vida. O que não foi feito na hora certa, não poderá ser feito depois.

Outro erro grosseiro de alguns pais é corrigir os filhos de maneira grosseira e na hora inoportuna.

Há dois mil anos, mesmo sem os conhecimentos de psicologia que temos hoje, São Paulo já dizia aos pais:

´E vós, pais, não deis a vossos filhos motivo de revolta contra vós, mas criai´vos na disciplina e na correção do Senhor´ (Ef 6,4).

´Pais, deixai de irritar vossos filhos, para que não se tornem desanimados´ (Cl 3,21).

Esses dois conselhos de São Paulo são de grande importância na educação dos filhos.

Uma coisa é corrigir o filho, outra coisa é irritá´los ou exasperá´los, fazendo´os odiar os pais.

O Livro dos Provérbios diz:

´Quem poupa a vara, odeia o seu filho, quem o ama, castiga´o na hora precisa´ (Prov 13,24).

´Corrige o teu filho enquanto há esperança, mas não te enfureças até fazê´lo perecer´ (Prov 19,11).

Há pais que subestimam os filhos, os tratam com desdém, desprezo. Há pais que ao corrigir os filhos, o fazem com grosseria, palavras ofensivas e marcantes. O pior de tudo é quando chamam a atenção dos filhos na presença de outras pessoas, irmãos ou amigos. Isto humilha o filho e o faz odiar o pai ou a mãe.

Ao corrigir o filho, deve´se chamá´lo a sós, fechar a porta do quarto e conversar com firmeza, mas com polidez, sem gritos, ofensas e ameaças, e de forma alguma deve´se bater no filho, pois este não é o caminho do amor.

Pode ser bom dar´lhe um castigo adequado, segundo a idade do filho: um tempo no quarto sem poder brincar, por exemplo, para que ele dê valor à liberdade, e não a use mal outra vez. Pode´se cortar o dinheiro, o passeio, etc., mas, tudo com equilíbrio e bom senso.

Sobretudo é importante dizer, que os pais não podem descarregar sobre os seus filhos os próprios nervosismos e preocupações. Muitas vezes isto acontece, e é um desastre na educação. Uma regra há de ser sempre seguida: Nunca corrigir o filho quando se estiver nervoso; certamente se fará algo errado. Um coração agitado e uma mente aflita não têm a mínima condição para corrigir com equilíbrio.

Posso dizer com certeza que todas as vezes que falei e agi com a alma perturbada, acabei fazendo algo errado, do qual me arrependi depois, muitas vezes envergonhado de mim mesmo.

Até mesmo os animais são melhor adestrados com mansidão, quanto mais os nossos filhos!

Nós pais temos que habituar a olhar os filhos como ´pérolas´ preciosas, confiadas a nós por Deus, e dos quais Ele vai nos pedir contas.

Certa vez um cientista russo que esteve participando conosco em um projeto de pesquisa, disse´me que na Rússia há um provérbio que diz: ´Your children are your richness´ (Os teus filhos são a tua riqueza).

Não podemos, de forma alguma, perder para o mundo a luta pela ´conquista´ dos nossos filhos. E, se por acaso ele se afastar de nós e cair no vício da droga, na violência e outras mazelas, cabe a nós pais resgatá´los com toda a nossa dedicação. A razão é esta: é meu filho! É minha filha! Isto basta. Devemos ir até o inferno, se for preciso, para de lá tirar o nosso filho. Duas coisas serão necessárias: amor ao filho e fé em Deus.

O exemplo de Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho é exemplar. O próprio Agostinho conta nas suas Confissões, que as lágrimas de sua mãe eram como que o sangue do seu coração transformado em lágrimas nos seus olhos...

Quando ela foi, sob lágrimas, confidenciar ao bispo de Milão, a sua tristeza pela demora da conversão do seu filho, ouviu do bispo esta resposta: ´Filha, não é possível que Deus não converta o filho de tantas lágrimas!´

Santo Agostinho conta´nos que três vezes por dia a sua mãe entrava na igreja para rezar pela conversão dele. Será que já fizemos isto pela conversão do nosso filho?

Não há problema insolúvel quando é apresentado diante de Jesus no Sacrário, com frequência e com fé. O próprio Agostinho experimentou o efeito da graça e dizia : ´O que é impossível à natureza é possível à graça de Deus´.

Portanto, pais e mães que tenham os seus filhos mergulhados nas drogas ou em outras situações graves, não podem desanimar e nem desesperar. Desespero e desânimo são duas palavras que devem ser riscadas do vocabulário cristão: já que ´para Deus nada é impossível´. Com Jesus e Maria tudo pode ser mudado. É preciso perseverar na oração humilde diante de Deus.

Santa Mônica, porque rezou 20 anos pela conversão do seu Agostinho, sem se desesperar e sem desanimar, viu acontecer muito mais do que pediu a Deus. Ela lhe pedia apenas a conversão do filho; e, no entanto, Deus não só lhe deu a graça da conversão, mas fez dele um sacerdote, bispo, santo, teólogo e doutor da Igreja. Um dos maiores homens da fé, que defendeu a Igreja contra as perigosas heresias do seu tempo: maniqueísmo, arianismo, pelagianismo, donatismo e outras. Tudo porque a sua mãe rezou por ele, sem cessar.

É este o caminho para que toda mãe salve o seu filho. Será que como ela, estamos decididos a entrar numa igreja, três vezes por dia, pára, diante do Senhor sacramentado, implorar a graça da conversão do nosso filho, esposo, esposa? ... Mônica deixou sua pátria na África e seguiu o seu Agostinho na Itália até vê´lo convertido ao catolicismo.

Outro ensinamento que o Eclesiástico dá aos pais é este:

´Aquele que estraga seus filhos com mimos terá que lhes curar as feridas´ (Eclo 30,7).

Mimar o filho é dar a ele tudo o que ele quer, é não saber por limites às suas exigências; é fazer por ele aquilo que ele deveria fazer por si mesmo. A palavra de Deus é forte: tal prática ´estraga´ o filho, e mais tarde teremos que lhes curar as feridas. A razão disso é que o filho mimado na infância e na adolescência, cresce pensando que o mundo lhe pertence e que todos devem fazer a sua vontade. Quando cresce e percebe que a realidade da vida é outra bem diferente, então se revolta contra os pais, contra as autoridades, contra Deus, que acha injusto contra ele.

O filho mimado e super protegido pelos pais, não aprende o valor do trabalho, do estudo, da solidariedade com os que sofrem, e cultiva o amor próprio, o egoísmo e o egocentrismo; o mundo gira em torno dele. Sobretudo cultiva a auto´piedade e a mania de perseguição.

Não faça por seu filho o que ele pode fazer por si mesmo; deixe´o andar com as próprias pernas, ainda que ele tenha que levar vários tombos até aprender.

Certa vez um garotinho de dois anos de idade, que estava brincando, caiu, mas sem se ferir com gravidade. Caído ali no chão, começou a chorar. Como ninguém deu atenção a ele, já que nada de grave lhe tinha acontecido, começou a gritar: ´ai que dó de mim! ai que dó de mim!´. É a imagem autêntica da auto´piedade. Se a criança crescer cultivando este sentimento, amanhã teremos aquele adulto cheio de ressentimento, murmuração, tristeza, melindres e mau´humor. Torna´se o tipo da pessoa chata, que os outros evitam, e que terá dificuldade para fazer amigos.

Esta e outras tristezas acompanham o filho mimado.

O Eclesiástico também diz:

´Um cavalo indômito torna´se intratável, a criança entregue a si mesma torna´se temerária´ (Eclo 30,8).

Já dissemos que o pecado original deixou em todos nós a tendência ao mal. Podemos comparar isto a um terreno abandonado. Por si só não produzirá frutos e verduras; ao contrário, nele crescerá muito mato, espinhos, e se tornará talvez um depósito de lixo e ninho de ratos, cobras, lagartos e escorpiões venenosos. Assim também uma criança que não receber a educação persistente dos pais, torna´se, como diz a Bíblia, como ´um cavalo indomável´.

Também a natureza humana precisa ser ´domada´, para produzir belas virtudes, assim como um campo cultivado produz belas frutas, verduras e flores.

´Adula o teu filho e ele te causará medo, brinca com ele e ele te causará desgosto´ (Eclo 30,9).

Adular é bajular, agradar e elogiar em excesso, colocar o filho numa posição de destaque exagerado, como se fosse o melhor do mundo, sem perceber que ele também precisa da correção.

Como a criança aprende mais por imitação do que por reflexão, o filho que é bajulado aprende a bajular, o que é péssimo para o seu futuro. Aquele que sabe adular, sabe também caluniar. Einstein dizia: ´enquanto não os atrapalho os homens me elogiam´. Coelho Neto afirmava que ´quem sobe por bajulação sempre deixa um rastro de humilhação´. Muitos, infelizmente, aceitam até rastejar para conseguir os seus interesses escusos; não devem reclamar se por acaso forem pisados por alguém. É próprio do escravo ter um preço; e qualquer um que aceite subir pela bajulação, fixará, com a sua conduta, o seu próprio preço e a sua escravidão. Não se pode cultivar isto nos filhos.

´Brincar´ com o filho é não levá´lo a sério, achar graça até nas coisas erradas que ele faz, etc.

Há pais que parecem cegos diante dos problemas dos próprios filhos. As vezes a criança está sendo inconveniente, incomodando todo mundo com os seus maus hábitos, de gritar, chutar, correr onde não pode, etc, e mesmo assim o pai e a mãe não tomam a mínima providência; ou, quando o fazem, não usam de autoridade, e, por isso, não têm sucesso. Quantas vezes a criança irrita a todos, mas para os pais parece que tudo está bem; parecem cegos.

Se de um lado, é preciso ter certa tolerância com o comportamento da criança, por outro lado, não se pode permitir que ela ultrapasse os limites da própria idade. Há pais que são muito ´moles´ com os filhos, isto não é amor, é fraqueza que gera maus hábitos na criança.

Há também aqueles pais que têm o péssimo hábito de exibir os filhos, como se fossem as melhores crianças do mundo. Isto acontece no lar, na rua, na casa dos outros principalmente, e até na igreja durante a celebração da missa. Tem mãe que parece levar a criança na igreja mais para exibi´la do que para ensiná´la a rezar, ou porque não tem com quem a deixar em casa. Ora, deixemos de ser orgulhosos e exibicionistas. Aquela criança passeando no meio da igreja está tirando a atenção de quem está participando da missa, a maior celebração da nossa fé. Além do mais atrapalha o celebrante, especialmente durante a homilia.

É preciso se conscientizar que os nossos filhos não são objetos de decoração, exibição e nem vitrines do nosso eu que deseja aparecer através deles.

Os pais devem cultivar nos filhos as atitudes de sobriedade, discrição, respeito, acolhimento, etc, e não, como tanto se vê, atitudes de exibicionismo. Isto não faz bem à criança.

André Berge, educador francês, costumava dizer que ´os defeitos dos pais são os pais dos defeitos dos filhos´; portanto, é preciso tomar muito cuidado para que os nossos erros não sejam transmitidos para os filhos. Sabemos que ´filho de peixe é peixinho´; isto é, a criança tende a ser a cópia dos pais, naquilo que eles têm de bom e de mau.

´Não lhe dês toda a liberdade na juventude, não feches os olhos às suas extravagâncias´ (Eclo 30, 11).

Na arte de educar os filhos, a corda mais sensível é a da liberdade. De um lado, não se pode dar ´toda´ a liberdade que eles querem, mas, por outro lado não se pode suprimi´la de vez. Alguns pais erram, exagerando num extremo ou no outro. Diria que educar é ensinar o filho a usar a liberdade com responsabilidade. O pecado, o mau comportamento, consiste exatamente no ´abuso da liberdade´, no seu uso sem responsabilidade e sem o compromisso com a verdade.

Para conseguir isto, os pais devem dar liberdade aos filhos na medida em que eles correspondem com responsabilidade. Quanto mais responsável o filho se mostrar, tanto mais liberdade receberá; até o ponto em que ele mesmo porá limites a si próprio. E é importante dizer que esta prática deve começar bem cedo, tão logo a criança adquira o uso da razão, por volta dos seis anos de idade.

Sobretudo, é preciso prestar atenção ao que foi dito: ´não feches os olhos às suas extravagâncias´. Às vezes os pais estão percebendo que os filhos não estão agindo bem, e mesmo assim nada fazem. Mesmo até quando algum amigo ou parente, vem alertá´los sobre os maus comportamentos do filho, e ainda assim, permanecem sem agir. Muitas vezes a mãe está vendo que aquele namoro não está indo bem, ultrapassando os limites, mas faz de conta que não percebe a gravidade da situação; até que mais tarde venha a chorar porque a filha engravidou, ou porque o filho está se drogando, ou porque se envolveu em sérias confusões com a polícia, etc. Ora, é preciso ser vigilante com os filhos; isto é dever dos pais, dado por Deus.

Na sua sabedoria o Eclesiástico diz aos pais:

´Obriga´o a curvar a cabeça, enquanto jovem, castiga´o com varas enquanto ainda é menino, para que não suceda endurecer´se e não queira mais acreditar em ti; e venha a ser um sofrimento para a tua alma´ (Eclo 30,12).

Conhecemos muito bem o provérbio que diz: ´é de pequenino que se torce o pepino´. Quando a planta é ainda pequena, é possível retificá´la facilmente, amarrando´lhe uma estaca. O mesmo se dá com a natureza humana. Sem reações, a criança aceita a correção do pai e da mãe, não lhes questiona a autoridade, pois não tem ainda o senso crítico desenvolvido. É a melhor hora para educar e moldar o seu caráter com os valores retos da moral e da fé. É precisamente esta a sagrada missão que Deus confiou aos pais; moldar aquele caráter em formação, desenvolver na criança os hábitos corretos, de maneira suave, indolor, natural, na hora certa. Se passar a ´hora certa´, tudo vai ficar mais difícil depois, para os pais e para os filhos.

A criança aprende mais por imitação do que por convicção. Se ela vê o pai e a mãe gritarem, ela também grita; se ela vê os pais baterem, ela bate também nos irmãos menores; se ela vê os pais rezarem, ela reza; se ela ouve os pais dizerem palavrões, ela diz também.

Por fim o Eclesiástico termina dizendo:

´Educa o teu filho, esforça´te por instruí´lo para que te não desonre com sua vida vergonhosa´ (Eclo 30,13).

Insisto neste ponto: o filho só aceitará a instrução do seu pai ou de sua mãe, se os respeitar e admirar pelo seu próprio valor. Para isto é fundamental que os pais tratem os filhos, desde pequenos, com atenção, seriedade e respeito.

Um erro que certos pais cometem, e que os separa dos filhos, é rejeitar os amigos deles e não permitir que eles os tragam para casa. Certas mães, por exemplo, para evitar as desordens que os filhos normalmente fazem, quase os expulsam de casa com os amigos. Saibam que estão fazendo péssimo negócio.

Para ser amigo do seu filho, seja também amigo dos seus amigos. Esteja com eles, ganhe´lhes a confiança. Esta atitude ajuda´nos a conhecer os amigos dos nossos filhos, a fim de que possamos evitar as suas más companhias, que certamente poderão corromper os seus costumes. É muito melhor ter os filhos perto de nós em casa, com os amigos, mesmo fazendo alguma coisa que não seja inteiramente do nosso agrado, do que tê´los longe dos olhos ...

O jardim da nossa casa, durante os anos de infância dos nossos filhos, foi o seu campinho de futebol onde eles reuniam os amigos para jogar. Preferimos deixar para plantar as flores depois que eles cresceram, já que eles sempre foram as nossas flores mais importantes.

Um princípio vital na educação dos filhos, e que os pais jamais podem esquecer, é que não se pode deixar para amanhã, aquilo que a educação exige que seja feito hoje. Amanhã pode ser tarde. O filho cresce muito mais depressa do que a gente pensa.

Há um provérbio chinês que diz assim: ´o que mata a planta não é a erva daninha, é a preguiça do lavrador´. O mesmo pode´se dizer de alguns pais que se descuidam da educação dos seus filhos.

Outra necessidade vital para a família é que esta seja unida. Sempre que possível, saírem todos juntos nas viagens de férias e nos passeios. São oportunidades de ouro para educar os filhos. Infelizmente certos pais preferem viajar para longe, sozinhos, ao invés de ir para lugares mais próximos com toda a família.

Temos que nos convencer de uma verdade: não há alegria maior, mais autêntica e mais durável do que aquela que a família nos dá.

Enfim, ensina´nos o Espírito Santo:

´Tens filhos, educa´os, e curva´os à obediência desde a infância, Tens filhas, vela pela integridade de seus corpos´ (Eclo 7, 25´26).

Mais do que tudo o que já foi dito até aqui, vale relembrar, como disse o educador João de Freitas, que ´os filhos são o que são os pais´. Ou como disse o frei Dr. Albino Aresi:

´Educa´se mais por aquilo que se é do que por aquilo que se ensina´.

Quase que inconscientemente os pais transmitem para os filhos o seu comportamento e o seu equilíbrio. Toda a segurança e apoio dos filhos está nos pais. Quando estes estão nervosos e descontrolados, os filhos sentem´se, imediatamente inseguros e desnorteados, sem ter em quem se apoiar. Esses desequilíbrios geram traumas marcantes na vida da criança e do jovem, às vezes, por toda a vida.

Por essa carência afetiva é que os jovens buscam as variadas autocompensações: drogas, aventuras violentas, crimes, rachas de automóveis, bebidas, farras, etc.

Eis um fato de vida ensinado por frei Dr. Albino Aresi:

´Ninguém fica por muito tempo sem compreensão e amor. Ou se entregará a Deus, ou se compensará com as criaturas.´ (Pode´se educar sem Deus?, Ed. Mens Sana, SP, 1986, p.197).

Transferimos para os nossos filhos todas as nossas angústias, emoções e problemas que vivemos; portanto, é preciso poupá´los disso tudo.

Alguns pais confundem autoridade com autoritarismo, gerando revolta nos filhos. Outros pais são frios e distantes, e não se dão conta das angústias dos filhos.

Durante a Revolução Francesa (1789), um criminoso estava para ser executado na guilhotina; então, pediu ao juiz, para falar à platéia curiosa, antes de morrer. Disse:

´Perdôo o juiz que me deu a sentença merecida. Perdôo os soldados que me prenderam. Perdôo o carrasco que irá me executar... Mas aqui no meio de vós há alguém que eu não posso perdoar: esse alguém são meus pais, que não me amaram e não me educaram...´

Por outro lado, não pode haver também a superproteção, pois gera no filho a falta de auto´afirmação e de personalidade, podendo até, como garantem alguns psicólogos, gerar a esquizofrenia e a homossexualidade, por fazer a criança psiquicamente dependente. Isto impede o seu pleno amadurecimento.

Do livro ´ FAMÍLIA, SANTUÁRIO DA VIDA´ ´ do Prof. Felipe Aquino


Um dos mais excelentes dons que Deus nos deu foi a palavra. Alguém já disse que elas são mais poderosas que os canhões. De fato, um canhão pode ser aprisionado, mas aprisionar a palavra não será possível. Como tudo o que Deus fez, também a palavra é bela, construtora do bem e da paz; encanta os corações e as mentes; contudo, mal empregada pode ser muito destruidora.

Através dela geramos grandes amizades, elevamos o ânimo abatido do irmão que sofre, despertamos forças adormecidas; mas também, podemos destruir a honra e a imagem do outro, sufocá´lo até a asfixia de suas forças e podemos gerar a guerra. É incrível o poder da palavra! Ela leva consigo o próprio espírito e poder da pessoa que a comunica. Jesus disse que: ´A boca fala daquilo que está cheio o coração´ (Lc 6,45). Se você só pensa em política, você fala de política. Se você só pensa em dinheiro e em negócios, você também só fala de dinheiro e de negócios. Se você pensa em Deus, gosta de falar de Deus... e assim por diante. Se o seu coração estiver em paz; vivendo na mansidão, na humildade, cheio de misericórdia, também as suas palavras transmitirão essas virtudes. Mas se o seu coração for exaltado, rebelde, violento, cheio de ódio... cuidado com as suas palavras, elas transmitirão o seu espírito. As palavras ´mostram´ o coração.

Pela palavra, Jesus curou cegos e leprosos, expulsou demônios, multiplicou pães, acalmou os ventos e o mar... ressuscitou mortos, amaldiçoou a figueira estéril (Mc 11,14). Também nossas palavras poderão fazer milagres de alegria ou de dor, conforme esteja o nosso coração. Mais uma vez, portanto, é preciso insistir na mudança do coração e na sua conversão segundo a lei de Deus, porque: ´É do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraude, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e loucura´ (Mc 7, 21). Sem um coração puro, uma consciência bem formada e um espírito vigilante, nossas palavras poderão ser mais destruidoras do que edificadoras. Não é à toa que São Paulo nos exorta: ´Nenhuma palavra má saia de vossas bocas, mas só boas palavras que sirvam para edificação e que sejam benfazejas aos que a ouvem´ (Ef. 4,29).

Sem dúvida, a palavra má é destruidora. Destrói o irmão, machuca o seu ser, fere a sua sensibilidade, julga, condena e difama sem piedade, inescrupulosamente. Por isso Jesus nos proibiu terminantemente de julgar alguém. ´Não julgueis para que não sejais julgados, pois com a mesma medida com que medirdes sereis medidos´ (Mt 7,1´2). Está claro, quem quiser acolher a misericórdia de Deus e não ser julgado por Ele, terá que não julgar o outro. Quem julga o outro aborrece a Deus, porque, julgando´ o, e condenando´o, no fundo acha´se melhor que ele. É um ato de orgulho e de soberba que ofende a Deus, Pai de todos. É conhecida a estória daquela mulher que foi se confessar e disse ao padre que tinha difamado uma amiga, falando mal dela às outras.

Após o perdão, o sacerdote deu´lhe como reparação dos pecados soltar do alto da torre da igreja um saco cheio de penas. Após cumprir a penitência, a mulher foi comunicar ao sacerdote, que lhe disse: ´agora a senhora vai juntar todas as penas que o vento levou´. Assim como é impossível juntar todas essas penas, é quase impossível restaurar os efeitos destruidores da calúnia, da fofoca e dos julgamentos indevidos. Vale a pena meditar a séria exortação de São Tiago: ´Se alguém não cair por palavras, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo. Quando pomos o freio na boca do cavalo, para que nos obedeça, governamos também todo o seu corpo.

Vede também os navios, por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados por um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar´se de grandes coisas. Uma pequena chama pode incendiar uma floresta. Com a língua bendizemos o Senhor nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens feitos à semelhança de Deus´ (Tg 3,1´12). Seremos também julgados por nossas palavras. Por tudo de bom que construirmos com ela seremos premiados . E tudo o que tivermos destruído com elas, teremos que reconstruir, ainda que seja no Purgatório, se Deus nos permitir.

É preciso tomar consciência do poder que possuem as palavras, para com elas fazermos apenas o bem. Jesus disse: ´Eu vos digo, no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado´(Mt 12,36). Ao explicar esse versículo, a Bíblia de Jerusalém diz que ´não se trata simplesmente de palavras ´ociosas´, mas de palavras ´perversas´; em suma, calúnia´. Portanto, teremos de prestar contas ao Senhor de toda calúnia proferida contra o irmão. A razão disto é que a calúnia fere profundamente a pessoa ofendida; é um pecado contra a caridade; e Deus, que é Amor, não suporta o pecado contra o amor. Um dos mandamentos é:

´Não levantar falso testemunho´.

Há um lógica profunda quando o Senhor diz que seremos julgados por nossas palavras; pois elas expressam o conteúdo que vai no nosso coração. Jesus, tomou o cuidado de dizer que: ´A boca fala daquilo que está cheiro o coração´ (Mt 12,34). Assim como um mau hálito pode significar, muitas vezes, que algo não vai bem no estômago, da mesma forma as más palavras indicam que algo não está bem no coração. ´A chicotada faz um ferimento, porém uma língua má quebra os ossos´ ( Eclo 28,21 ). ´Feliz o homem que não pecou por palavras´ (Eclo14,1). ´Muitos homens morreram pela espada, mas não tanto quanto morreram pela lingua´( Eclo 28,22). O provérbio popular diz que ´o peixe morre pela boca´; muitos homens morrem por suas palavras. Quem fala o que não deve, acaba escutando o que não quer. Sejamos prudentes no falar, dispostos a muito ouvir e cautelosos no falar.


Atualmente acompanhamos um significativo crescimento do nú­mero de crematórios no Bra­sil. Embora seja uma prática adotada desde a antiguidade, em nossa sociedade continua sendo um tema que gera polêmica.

A palavra cremação é derivada do verbo latino cremare, que significa a “ação de queimar”, “consumir pelo fogo”. Ou seja, a cremação é a queima de um cadáver até reduzi-lo a cinzas.

A forma de tratar o corpo de um falecido sempre foi uma questão cultural. Desde a antiguidade encontramos sociedades que enterravam e outras que cremavam os corpos de seus entes.

Entre os gregos, principalmente por ocasião das guerras, com a necessidade de trazer de volta os soldados mortos para sepultá-los em sua pátria, a cremação era muito comum. Já entre os escandinavos, embora a prática fosse a mesma, a motivação era diferente: acreditavam que com a queima do corpo a alma ganharia liberdade.

O Cristianismo, seguindo a Tradição Judaica, sempre se afeiçoou mais à prática do sepultamento. Em várias ocasiões, em que a fé na ressurreição dos mortos era colocada à prova, como por exemplo com o Iluminismo e com a Maçonaria, a Igreja se manifestou contrária à prática da cremação.

Hoje podemos ler no Catecismo da Igreja Católica: “A Igreja permite a cremação, se esta não manifestar uma posição contrária à fé na ressurreição dos corpos” (n. 2301). No entanto, nem sempre foi assim. Nas leis eclesiásticas, expressas no Código de Direito Canônico, de 1917, era negada a sepultura cristã à pessoa que fosse cremada.

O desenrolar da história e a reflexão teológica permitiram que, em 1963, a Congregação do Santo Ofício publicasse uma Instrução permitindo a cremação, desde que esse gesto “não fosse uma negação do dogma cristão ou uma atitude de revolta contra a religião católica”. Portanto, atualmente o Novo Ritual das Exéquias possibilita a realização das cerimônias de cremação no próprio crematório (Ritual de Exéquias, n. 15).

Dessa forma, a cremação, desde que motivada pela fé na ressurreição, não é contrária à Bíblia nem à fé católica. Ao invés de condenar essa prática, podemos dar a ela um novo sentido, uma vez que na Bíblia o fogo é símbolo da purificação dos pecados (Isaías 6,7). Aliás, esse simbolismo já está contemplado no comentário inicial do ritual: “O fogo ao qual entregamos este corpo não é símbolo de destruição, mas sinal do amor de Deus que quer purificar e transformar nosso irmão para que possa alegrar-se na presença de Deus”. (Cf. CNBB. Nossa Páscoa: subsídios para a celebração das exéquias).


Sempre que ouvimos a palavra evangelho pensamos em Bíblia. Para nós hoje é muito comum associar a palavra Evangelho aos quatro evangelhos, que narram os ensinamentos de Jesus: Mateus, Marcos, Lucas e João. Porém, o significado etimológico dessa palavra vai muito além desses quatro livros.

Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha (Lexikon, 2007) a palavra evangelho vem do latim evangelium, que é derivado do grego euaggélion. Significa literalmente “bom (eu) anúncio (aggelô) ou boa notícia”.

Já no Antigo Testamento a palavra evangelho foi utilizada. Na tradução grega da LXX (Setenta ou Septuaginta é o nome da versão da Bíblia que foi traduzida do hebraico para o grego, no século II a.C., em Alexandria) o verbo evangelizar foi empregado: Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia (euaggelitsomenos) a felicidade, que traz as boas novas (euaggelitsomenos) e anuncia a libertação, que diz a Sião: Teu Deus reina! (Isaías 50,7).

No sentido empregado por Isaías, evangelho é uma notícia boa, plena de alegria e esperança. É uma boa notícia que traz a salvação por um caminho inesperado, por meio da ação do rei pagão Ciro, que foi um importante instrumento do plano de Deus. A boa notícia anunciada por Isaías é também libertadora, pois tem poder de mudar a situação histórica do povo sofredor.

A palavra evangelho também foi utilizada no mundo pagão. A ascensão do imperador ao trono ou a vitória numa batalha também era chamada de evangelho, de boa notícia. Por exemplo, num monumento do ano 9 a.C., o nascimento do imperador Augusto foi anunciado como “o começo da boa notícia (euaggelion) que foi trazido ao mundo”.

No Novo Testamento a palavra evangelho foi muito utilizada: cerca de 76 vezes. Destas, 60 vezes apenas nas cartas de Paulo. Nos evangelhos de Marcos e Mateus também podemos encontrar o verbo evangelizar: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres... (Mt 11,5; Cf. Mc 8,35; 10,19; 13,10).

Foi no século II d.C. que evangelho passou a ser sinônimo de livro. São Justino (100-165 d.C.) foi o primeiro autor que chamou os quatro primeiros livros do Novo Testamento de evangelhos. Com o passar do tempo começou a ser utilizada a expressão “evangelho segundo...” para diferenciar cada um dos quatro livros.

Para nós hoje é importante saber que o evangelho não é uma biografia que conta fatos importantes da vida de Jesus. No sentido cristão da palavra, evangelho pode ser definido como a exposição da narrativa histórica da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, prefaciada por um grande relato de seu ministério. A pessoa de Jesus é o próprio evangelho, pois ele é o centro da história da salvação. O evangelho é, portanto, a boa notícia da salvação.
Para saber mais:
• Aguirre Monasterio, Rafael. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos - Ave-Maria, 1994.
• Rivas, Luis Heriberto. O que é um evangelho? Introdução geral aos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João - Ave-Maria, 2009.

Pe. Maciel M. Claro é sacerdote,


Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 487 – Ano 2003 – Pág. 13.

Em síntese: Nem Maria Ssma, nem algum outro Santo precisa de entrar em toda parte para ouvir as orações dos fiéis. Deus, Autor da Comunhão dos Santos; lhes dá a conhecer o que lhe pedimos. A morte não interrompe essa solidariedade ou comunhão existente entre os fiéis. Nem Maria é todo-poderosa; todavia a sua oração materna é muito significativa. Foi por intercessão de Maria que Jesus realizou seu primeiro sinal (cf. Jo 2, 1-12).

Os protestantes perguntam como a Virgem Ssma. Pode ouvir as orações dos que a invocam, se ela não está presente em toda parte.

Respondemos afirmando não ser necessário que Maria ou algum Santo esteja, simultaneamente ou não, no Brasil e no Japão para ouvir as preces que lhes são dirigidas. Aliás, os Santos (com exceção de Maria Ssma.) ainda não ressuscitaram e, por isto, não têm ouvidor corpóreos.

Sem que estejam onipresentes, o Senhor lhes dá a conhecer as preces que lhes dirigimos. Esta comunicação se deve ao fato de que Deus mesmo é o Autor da Comunhão dos Santos, que Ele conserva mesmo através do transe da morte. As criaturas humanas são naturalmente interdependentes entre si e esta interdependência continua a se exercer após a morte mediante a oração.

A oração aos santos não derroga à única e singular mediação de Cristo (cf. 1Tm 2, 5), pois Cristo mesmo quer associar a si os seus fiéis na grandiosa tarefa de salvar a humanidade. Já São Paulo pedia aos seus discípulos que rezassem por ele, exercendo esse tipo de mediação; cf. Ef 6, 19 e Cl 4, 3; Epafras “lutava em suas orações em favor dos colossenses” (cf. Cl 4, 13).

Quanto às orações dos justos no céu, pelos irmãos militantes na terra, existe um testemunho do povo de Deus pré-cristão; com efeito, segundo 2Mc 15, 11-16, Onias, sacerdote falecido, e Jeremias profeta apareceram a Jonas Macabeu como intercessores em favor do povo judeu:

“Foi este o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso, expressando-se convenientemente no falar, e desde a infância exercitado em todas as práticas da virtude, estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus. Apareceu, a seguir, da mesma forma, um homem venerável pelos cabelos brancos e pela dignidade maravilhosa e majestosa a superioridade que circundava. Tomando então a palavra, disse Onias: “Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por esta cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus”.

Este texto é muito eloqüente, evidencia que a crença na intercessão dos Santos no além não é produto da Igreja Católica nem herança do paganismo, mas autêntica concepção do povo de Deus. – Verdade é que a Bíblia dos protestantes não tem este texto; não o tem, porém, porque Lutero retirou do cânon bíblico os dois livros dos Macabeus, ver a propósito PR 432/1998, pp. 194ss.

Maria não é onipotente, mas é Mãe não somente de Cristo Cabeça, mas também do Corpo Místico dessa Cabeça (cf. Jo 19, 25-27); ora a prece da Mãe por seus filhos tem valor especial. Daí o costume muito antigo de rezarem os fiéis à Santa Virgem Mãe, que não é fonte de graças, mas é intercessora agradável a Deus.

No Novo Testamento a solidariedade entre os que se foram e os que ficam na terra, é incutida em Hb 11: o autor sagrado, após percorrer a galeria dos heróis da fé desde Abel até os Macabeus (século II a.C.), observa:

“Não obstante, todos eles, se bem que tenham recebido um bom testemunho pela fé, apesar disso, não obtiveram a realização da promessa. Pois Deus previa para nós algo de melhor, para que sem nós não chegassem à plena realização” (11, 39s).

Essa comunhão é esboçada também no Apocalipse, onde se lê:

“Deram ao anjo uma grande quantidade de incenso para que o oferecesse com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8, 3s).

- A comunhão que tais textos põem em relevo, é uma das mais belas notas do Novo Testamento.


REVISTA “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.

Em síntese: 0 demônio é um anjo que Deus criou bom e a quem permite tentar os homens para consolidar a fidelidade destes ao Senhor. Não podemos descer a pormenores ao tratarmos do conhecimento que o demônio tem das realidades humanas. É certo, porém, que ele não aprende determinadas línguas e ignora outras. 0 maligno conhece o que vai no íntimo dos homens tão somente na medida em que estes manifestam por sinais o que lhes vai no coração. A Escritura e a Tradição sempre exortaram os fiéis a rezar em voz alta e publicamente, sem receio de que suas intenções pudessem ser contraditadas pelo Maligno ciente do que pedimos a Deus. Adernais a glossolália é um carisma, um dom esporádico de Deus, que não pode ser institucionalizado ou exercido a gosto do cristão.

* * *

Um caso realmente ocorrido oferece ocasião a reflexões.

Certa vez, num grupo de oração, a pessoa que coordenava perce¬beu que um dos participantes orava em voz alta na língua portuguesa. Exclamou então com grande ânimo: Ore em línguas, pois o demônio está entendendo o português!"...

0 fato sugere algumas considerações.

REFLETINDO...

Proporemos três ponderações.

1.0 que o demônio sabe...

0 demônio é um anjo, espirito sem corpo, que Deus criou born1 mas que se perverteu por soberba. É dotado de inteligência e vontade mais agudas do que a inteligência e a vontade dos homens, porque não sujeitas aos entraves da corporeidade.

Sendo espíritos sem vinculação com a matéria, os anjos bons e maus não dependem dos sentidos, como nós dependemos. Não preci¬sam de abrir os olhos ou os ouvidos para captar impressões visuais ou sonoras e elaborá-las pelo raciocínio, . .. raciocínio prolongado e sujeito a erros. O conhecimento dos anjos é inato e intuitivo.

Inato: Deus lhes infundiu, desde que os criou, as noções que lhes convinha saber, a respeito de Deus, dos outros anjos, dos homens e da natureza. Intuitivo, isto é, não discursivo; o anjo vai direto ao âmago das coisas1 sem experimentar hesitações - 0 que lhe permite ter um saber muito mais sólido, firme e penetrante do que o nosso saber.

Em conseqüência, os anjos conhecem os "futuros necessários", isto é, aquelas coisas que decorrem necessariamente das leis da nature¬za, assim como o astrônomo pode prever fenômenos distantes (eclipses, por exemplo) aplicando simplesmente as leis da natureza. Todavia os anjos não podem conhecer os "futuros livres", isto é, os acontecimentos que dependem da liberdade humana; também não podem conhecer os pensamentos e desejos íntimos dos homens (só Deus os conhece); per¬cebem, porém, nossos pensamentos e sentimentos na medida em que os manifestamos de algum modo, mediante sinais e expressões adequadas.

Dotados de inteligência, os anjos tem necessariamente vontade. Esta é tanto mais perfeita, firme e forte quanto mais perfeito é o conheci¬mento que lhe antecede. Ninguém pode querer algo sem o conhecer e há de querê-lo ou repudiá-lo na medida do que conhece.

Estas ponderações são necessariamente sóbrias, visto que não se tem dados seguros para afirmar algo mais sobre o conhecimento do de¬mônio. Donde se segue que não tem propósito afirmar que o Maligno aprendeu a língua portuguesa, mas não aprendeu outros idiomas. Isto eqüivaleria a equiparar o anjo mau a um inimigo humano, que tem limitações lingüísticas.

2. 0 que o demônio pode...

Em sua linguagem sóbria ensina o Catecismo da Igreja Católica:

“394. A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama de “0 homicida desde o principio” (Jo 8,44) e que até chegou a tentar desviar Jesus da sua missão recebida do Pai. “Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo” ( 'o 3,9).

A mais grave dessas obras, devido às suas conseqüências, foi a sedu¬ção mentirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus.

395. Contudo, o poder de Satanás não é infinito. Ele não passa de urna criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas sempre criatu¬ra; não é capaz de impedir a edificação do reino de Deus. Embora Sata¬nás atue no mundo por ódio contra Deus e o seu Reino em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves danos - de natureza espiritual e, indiretamente, até de natureza física - para cada homem e para a socie¬dade, esta ação é permitida pela Divina- Providência, que com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério, mas “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28).

Verdade é que o Maligno pode querer prejudicar nossas boas in¬tenções formuladas na oração. Todavia a Escritura e a Tradição sempre exortam os homens a oração, e à oração em vernáculo, sem jamais pro¬por o uso de língua estranha, que é demônio desconheça ; levem-se em conta os Salmos e as passagens do Novo Testamento: Lc 11, 9-13; Jo 14,13s; 16,24-27... A oração é a força do cristão, o recurso permanente que Deus lhe deu para resolver seus problemas. Não há Oração perdida ou ineficaz, pois, se o Senhor não concede o que lhe sugerimos, conce¬de o que mais convém ao bem do orante: "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei, e vos será aberto, pois todo aquele que pede recebe, aquele que busca encontra, e a quem bate se lhe abrirá”' (Mt 7,7).

Donde se depreende não ter propósito a exortação a que alguém ore em línguas para que o demônio não o compreenda e entrave a prece feita em vernáculo.

Examinemos agora de mais perto

3. 0 Dom das Línguas

0 dom das línguas (glossolália) é um carisma, ou seja, uma graça do Espirito Santo concedida para a edificação da comunidade. É o que São Paulo exprime longamente em 1Cor 14,2-15. Por isto quer o Apóstolo que o dom das línguas seja acompanhado do dom da interpretação para que toda a assembléia compreenda o que é dito e daí tire proveito:

"Quando estais reunidos, cada um de vós pode cantar um cântico, proferir um ensinamento ou uma revelação, falar em línguas ou interpretá-¬las; mas que tudo se faça para a edificação! Se há quem fale em línguas, falem dois ou, no máximo, três, um após o outro. E que alguém as inter¬prete. Se não há intérprete, cale-se o irmão na assembléia, fale a Si mesmo e a Deus" (1Cor 14, 26-28).

A glossolália resulta do entusiasmo do orante, que passa a falar linguagem ininteligfvel, porque a grandeza das obras de Deus não pode ser adequadamente expressa pelo linguajar comum. 0 entusiasmo, porém, pode redundar em desordem na assembléia; dá as medidas de cautela do Apóstolo. Se não há disciplina no exercício do carisma, pode o culto divino assemelhar-se a uma reunião de loucos:

"Se a Igreja se reunir e todos falarem em línguas, os simples ouvintes e os incrédulos que entrarem, não dirão que estais loucos?" (1Cor 14, 23).

Por causa do perigo da indisciplina, São Paulo parece preferir ao dom das línguas o da profecia, que é a proclamação das maravilhas de Deus em linguagem inteligível:

"Se, ao contrário, todos profetizarem, o incrédulo ou o simples ouvinte que entrar, há de sentir-se argüido por todos, julgado por todos; os segredos do seu coração serão desvendados; prostrar-se-á por terra, adorará a Deus e proclamará que Deus está realmente no meio de vós" (1Cor 14, 24).

A glossolália parece ter desaparecido nas comunidades cristãs desde o século IV. S. João Crisóstomo (+ 407) referia que na sua época havia embaraço para explicar o que seria o dom das línguas mencionado pelo Apóstolo; com efeito, ao comentário Cor 12,ls, dizia o Santo:

"Esta passagem é totalmente obscura; tal dificuldade provém do fato de que ignoramos o que ocorria outrora e não mais acontece em nossos dias" (In epist. 1 ad Car. Homilia 29,1).

Orígenes (t 250) mesmo parece ter ignorado o que fosse a glossolália, pois interpreta a afirmação paulina "Falo em línguas mais do que todos vós" (1Cor 14,18) no sentido de que São Paulo tinha milagro¬samente o conhecimento da língua de cada povo que ele evangelizava (In epist. ad Romanos 113). 5. Ireneu (+ 202) e Tertuliano (+ 220) ainda fazem referência ao carisma da glossolália. Há quem julgue que o abuso do pretenso dom de línguas por parte dos hereges montanistas no século III tenha provocado o desinteresse dos fiéis ortodoxos portal carisma nos tempos subseqüentes. Santo Agostinho (+430) escrevia: "Quem poderia pensar hoje que a imposição das mãos provoque o dom das línguas?" (De Baptismo III, 16,21).

Nos tempos posteriores, parece que alguns místicos tiveram o dom da ebrietas spiritualis, embriagues espiritual, estado de alma em que a consolação dada por Deus se apodera do fiel com tal veemência que ele se torna incapaz de exprimir sua experiência em linguagem convencio¬nal e se expande com palavras estranhas e desarticuladas. Tal estado dito "de embriaguês" corresponderia ao que os Apóstolos experimentaram no dia de Pentecostes, merecendo, por isto, ser tidos como óbrios (cf. At 2,13-15).

Em sua autobiografia S. Teresa de Ávila (+ 1582) refere algo que poderia ser assemelhado ao estado de embriagues espiritual ou à glossolália:

"Pronunciam-se então muitas palavras para o louvor de Deus, mas sem ordem, a menos que Deus queira a colocar ordem; a mente humana por Si não é capaz de fazê-lo. A alma desejaria proclamar bem alto a glória de Deus. Ela fica fora de Si mesma no mais suave delírio... Ela quisera sei; por inteiro, línguas para louvar a Senhor" (Vida, cap. 16, 3-4).

Visto que tal fenômeno é de ordem muito íntima, reservado à experiência pessoal dos místicos, não nos é possível avaliar a freqüência com que tenha ocorrido no passado.

Nos últimos séculos registraram-se certas "explosões" de glossolália em grupos numericamente restritos. Tais foram os grupos huguenotes (protestantes franceses) dos Pequenos Profetas das Cevenas ou Camisardos (1658-1710), os jansenistas de Paris (1731) e os discípulos de Edward Irving na Inglaterra (1830-1900). Tais casos podem ser tidos como efusões de ânimo entusiástico, sem que existisse algum dom es¬pecial do Espirito Santo; houve na história da mística, muitos fenômenos semelhantes aos do êxtase e da linguagem desarticulada provocados por convicções naturais, sem particular intervenção de dons transcendentais.

O século XX, porém, registra o surto de movimentos pentecostais tanto entre os católicos como entre os protestantes. Entre estes últimos instaurou-se a crença de que todo adulto cristão, após a sua conversão e o seu Batismo, deve preparar-se para receber o Batismo no Espirito San¬to ou uma nova efusão do Espirito, que o habilitará a dar testemunho em línguas estranhas, como faziam os Apóstolos no dia de Pentecostes (cf. At 2,4); tal dom, dizem, em muitos casos é permanente e vem a ser ex¬presso tanto na oração particular como no culto público. O Movimento Pentecostal, iniciado no começo do século XX, tornou-se especialmente vivo e atuante a partir de 1956, aproximadamente1 entre os protestantes, e 1967 entre os católicos. Nem todos os grupos católicos de oração che¬gam a dizer que o Batismo no Espírito Santo é sinal indispensável de conversão, mas todos estimam o dom das línguas; muitos pedem tal ca¬risma como sinal normal de que o Espirito Santo entrou na vida do fiel com novo vigor.

Os numerosos casos contemporâneos de glossolália estão sujei¬tos à análise de teólogos e psicólogos. Pode-se indagar, com fundamen¬to, se em todos esses casos se trata realmente de inspiração divina. Sem querer negar a intervenção do Espirito Santo em muitas de tais ocasiões, pode-se admitir que outras manifestações se devam ao entusiasmo pes¬soal e à sugestão exercida pelo ambiente sobre o orante. São Paulo mesmo lembra aos Coríntios que alguém pode falar em línguas "como um bronze que soa ou como um címbalo que tine" (cf. 1Cor 13,1).

Em nossos dias não costuma haver intérprete para o dom das lín¬guas, de modo que a comunidade não se pode beneficiar dessa linguagem estranha. Há quem explique que mesmo em tais casos o dom tem sua razão de ser: é uma efusão entusiástica do ânimo do orante, que assim louva a Deus. Tal explicação pode ser aceita; São Paulo observava que, em tais circunstâncias, o orante deveria rezar a sós, em casa. Hoje em dia a glossolália toma nova modalidade: quando autêntica, é exercida em público, por efeito de poderosa intuição do orante, sem que a comunidade seja enriquecida pelo carisma.

Haja discernimento! 0 Apóstolo recomenda:

"Não extingais o Espírito... Discerni tudo e ficai com o que é bom" (1Ts 5, 195)1

A propósito merece especial consideração o artigo de Francis A Sullivan: LANGUES (Don des), ern ictionnaire de Splritualité, L IX, Paris 1976, cols. 223-227.


Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 489 – Ano 2003 – Pág. 121.

ANJOS CAÍDOS E AS ORIGENS DO MAL

por Elizabeth Clare Prophet

Em síntese: Este livro pretende restaurar uma concepção judaica – professada pelo apócrifo livro de Enoque – segundo a qual o mal começou no mundo quando anjos perversos se encarnam e tiveram contato sexual com mulheres, nascendo daí nefilim ou gigantes. Esses anjos maus, ditos “Vigilantes” ensinaram à humanidade artes mágicas e perversas. – Ora tal tese, que a autora do livro julga endossada por Jesus Cristo, é descabida, pois a encarnação de anjos é um postulado gratuito e pouco condizente com a Sabedoria Divina. As semelhanças apontadas entre o livro de Enoque e os Evangelhos são vagas e não convencem.

A Sra. Elizabeth Clare Prophet é uma estudiosa da Religiosa, que tem viajado pelos Estados Unidos, dando palestras sobre anjos, profecias, reencarnação... Entre os seus escritos, encontra-se a obra traduzida para o português com o título “Anjos Caídos e as origens do Mal”¹. Recorre ao apócrifo livro de Henoque, na esteira dos autores que atualmente privilegiam a literatura apócrifa. – Detenhamo-nos no conteúdo do livro.

1. A tese da autora

A Sra. Elizabeth Prophet procura reabilitar a proposição do apócrifo livro de Henoque segundo a qual o mal começou no mundo quando anjos encarnados vieram à Terra e tiveram cópula carnal com mulheres, dando origem a gigantes (nefilim). Esses anjos maus continuam presentes na história da humanidade e são responsáveis por desgraças ainda hoje ocorrentes:

“Com base em evidências convincentes retiradas de diversas fontes, nossa tese confirma o Livro de Enoque: existem realmente anjos caídos, eles encarnaram na Terra e corromperam as almas do seu povo e eles serão julgados pelo Eleito no dia do retorno de seus servos eleitos. Nossa tese deve também, por força da lógica, mostrar que estes anjos caídos (juntamente com a progênie dos Nefilim, expulsos do céu por São Miguel Arcanjo), continuaram a encarnar na Terra ininterruptamente durante pelo menos meio milhão de anos” (p. 14s).²

Jesus terá aprovado e ensinado as explanações do livro de Enoque, conforme afirma a autora à p. 33:

“Acredito que Jesus assumiu o manto de Enoque como mensageiro do Ancião dos Dias e da sua profecia sobre os Vigilantes. Acredito que o filho de Davi veio com a autoridade do nosso Pai Enoque, que disse: “Assim como ele criou e deu ao homem o poder de entender a palavra de sabedoria, criou e deu também a eles o poder de reprovar os Vigilantes, a progênie do céu”. De fato, Jesus veio cumprir a lei e a profecia do julgamento pelo Verbo encarnado!”.

À p. 32 se lê:

“A idéia de que os ensinamentos de Jesus dependiam de uma obra teológica anterior e de que não eram completamente novos ou nunca antes revelados incomodou algumas pessoas. Em 1891, o reverendo William J. Deane protestou contra a associação entre os ensinamentos de Jesus e o recém-publicado Livro de Enoque, afirmando com indignação: “Somos obrigados a acreditar que nosso Senhor e Seus apóstolos, consciente ou inconscientemente, acrescentaram nas suas falas e escritos idéias e expressões tiradas de Enoque”.

Os Apóstolos, em seus escritos neotestamentários, terão professado as mesmas idéias do apócrifo; cf. pp. 38s:

“A história de Paulo sobre o “homem em Cristo” que foi arrebatado até o terceiro céu dentro ou fora do corpo (Paulo não dá esta informação) pode referir-se à descrição que Enoque faz dos vários céus, incluída no livro principal de Enoque e citada no Livro de Segredos de Enoque...

O apóstolo João, autor e amanuense para a Revelação bíblica de Jesus Cristo, o Livro do Apocalipse, chegou ainda mais perto do simbolismo e das descrições de Enoque. Muitas das suas visões, familiares aos leitores da Bíblia, podem também ser encontradas no Livro de Enoque: “Senhor dos senhores, Rei dos reis”, o demônio sendo lançado no lago de fogo, a visão dos sete Espíritos de Deus, a árvore cujos frutos estão reservados aos eleitos, as quatro bestas ao redor do trono e o livro da vida”.

Os antigos escritores cristãos até o século V em geral aceitaram a tese da cópula carnal, isto se deve ao fato de não terem noção clara do que é espiritualidade (não corporeidade), não à crença na encarnação dos anjos. – Júlio Africano (200-245) foi o primeiro a contestar a tradicional versão do livro de Henoque.

O golpe definitivo contra tal hipótese foi desferido por S. Agostinho no século V:

“O assunto foi finalmente encerrado com a argumentação lógica e técnica de Santo Agostinho (354-430), rejeitando a narrativa da queda dos anjos e do seu encontro com as mulheres e defendendo a idéia de que, para a natureza angélica, tal feito seria absolutamente improvável” (p. 66).

“Agostinho afirma que a frase “filhos de Deus” no Gênesis 6 refere-se aos filhos de Set que tomaram como esposas as filhas de Caim, chegando à mesma conclusão de Júlio Africano – um atalho usado pela maioria dos padres da Igreja a fim de não admitir a encarnação dos anjos” (p. 67)¹.

Na primeira e na quarta capas do livro lê-se que “a revelação do livro de Henoque foi inadvertidamente omitida e desvirtuada pela Igreja através da história”. Toda via no corpo do livro não se encontra explicitação desses dizeres. A “revelação” de Henoque foi posta de lado pelo bom senso mesmo e a lógica das gerações cristãs.

Pergunta-se agora:

2. Que pensar?

Antes do mais, convém examinar

2.1. O livro de Henoque: que é?

Henoque (Gn 5, 21-24) é o sétimo personagem da linhagem dos setitas, filho de Jared e pai de Matusalém; é o menos longevo de todos os da série, pois viveu apenas 365 anos, após os quais foi arrebatado por Deus sem provar a morte. Tornou-se assim muito caro à tradição judaica.

Os rabinos não discutiram o gênero literário desta secção, mas acrescentaram aos dados bíblicos as próprias elucubrações: Henoque terá recebido de Deus a autorização para revelar aos homens o juízo que tocará a anjos maus que se perverteram com mulheres e ensinaram artes mágicas aos homens.

O livro que daí resultou, data dos século II/I a.C.; foi escrito em hebraico (capítulos 1-5 e 37-108) e aramaico (cap. 6-36). O texto original perdeu-se. Existem, porém, traduções diversas (grega, etíope, latina).

A obra consta de escritos compilados do seguinte modo:

- discurso de Henoque sobre o juízo final, que deve fazer tremer os pecadores; cap. 1-5;

- descrição da queda dos anjos e de viagens pelo paraíso terrestre e o inferno; cap. 6-36;

- discurso das parábolas, que ilustram a sorte póstuma dos justos e a dos pecadores, com referência ao Messias dito “Eleito” e “Filho do Homem”; cap. 37-71;

- discurso de astronomia, que descreve o curso do Sol e o da Lua; cap. 72-82;

- livro das visões, que refere a história do mundo desde Adão até Moisés; cap. 83-90;

- livro da edificação, portador de exortações diversas; cap. 91-105.

Tudo se encerra com um epílogo; cap. 106-108.

Existem outrossim o Livro de Henoque Eslavo ou o Livro dos Segredos de Henoque. Narra a elevação de Henoque aos céus, onde ele recebe o conhecimento das regiões celestes e dos seis mistérios; Deus mesmo lhe revela como criou o mundo e lhe revela o futuro. É obra de um judeu, que a redigiu em grego no início do século I a.C. em Jerusalém.

2.2. Valor histórico

O livro de Henoque gozou de certa autoridade entre os antigos escritores cristãos. A epístola canônica de S. Judas 14 o cita, mas nem por isto o tem colo livro inspirado¹. Todavia não há como aceitar a explicação proposta para a origem do mal: os anjos não têm corpo nem se podem encarnar; por conseguinte jamais poderão copular com mulheres. Muito sabiamente Júlio Africano percebeu esta falha da teoria de Henoque e seus seguidores reconsideraram a interpretação dada a Gn 6, 4: os filhos de Deus seriam os setitas e as filhas dos homens seriam as cainitas.

Verdade é que Jd 6 e 2Pd 2, 4 citam o castigo prometido por Henoque aos anjos prevaricadores; isto, porém, não basta para dizer que tal livro é inspirado; apenas se pode concluir que o livro de Henoque oferecia argumento válido para corroborar quanto São Pedro e São Judas queriam dizer.

A Sra. Prophet apresenta paralelos entre os Evangelhos e Henoque, deduzindo daí a dependência de Jesus frente ao apócrifo judaico! – Na verdade, trata-se de paralelos tão vagos que não podem servir de argumento. A pregação de Jesus não depende de Henoque. De resto, a Sra. Elizabeth Prophet professa a reencarnação e o panteísmo (p. 335) – o que talvez lhe dificulte compreender a mensagem de Jesus.

Em suma o livro em foco é mais uma expressão da investigação dos apócrifos como se fossem arautos de um Cristianismo renovado e surpreendente, quando na verdade vêm a ser o testemunho do modo de pensar (por vezes, fantasioso e simplório) dos antigos judeus e cristãos.

Para o fiel católico, a origem do mal está no pecado dos primeiros pais. Estes foram elevados ao estado de justiça original, mas nele não perseveraram em razão de sua soberba; quiseram ser como Deus, árbitros do bem e do mal. Disseram Não a Deus – o que os despojou da riqueza da graça e os tornou sujeitos à morte violenta e seus precursores. A humanidade sofre as conseqüências desta culpa, já que há solidariedade entre as gerações. Todavia, logo após a culpa e sua punição, é prometido o Salvador (Gn 3, 15) o que envolve a própria realidade do pecado e de suas conseqüências num plano de amor e misericórdia de Deus para com a criatura.

APÊNDICE

DO LIVRO DE HENOQUE

Capítulo 7

1. Quando naqueles dias os filhos do homem se multiplicaram, suas filhas nasceram elegantes e belas.

2. E quando os anjos, os filhos do céu, contemplaram-nas, ficaram enamorados, dizendo uns aos outros: Vamos, escolhamos para nós esposas entre a progênie dos homens para com elas gerarmos crianças.

3. Então Samyaza, seu líder, disse: Temo que talvez não possais realizar esta tarefa;

4. E que sozinho sofrerei as conseqüências de um crime tão vergonhoso.

5. Mas eles lhe responderam: nós todos juramos;

6. E nos ligamos por execrações mútuas, para que não modifiquemos nossa intenção de executar o que resolvemos.

7. Fizeram juntos este juramento e se uniram em execrações mútuas. Eram ao todo duzentos, que desceram sobre Ardis, no topo do monte Armon.

8. Aquela montanha recebeu o nome de Armon, pois lá juraram e se uniram.

9. Estes são os nomes de seus chefes: Samyaza, que era o líder, Urakabarameel, Akibeel, Tamiel, Ramuel, Danel, Azkeel, Sarakmyal, Asael, Armers, Batraal, Anane, Zavebe, Samsaveel, Ertael, Turel, Yomyael, Arazael. Eles comandaram os duzentos anjos que juntos os seguiram.

10. Tomaram esposas, cada um escolhendo a sua. Aproximaram-se delas e com elas coabitaram, ensinando-lhes feitiçaria, encantamento e as propriedades das raízes e árvores.

11. As mulheres deram à luz os gigantes,

12. Cuja estatura atingia trezentos côvados. Eles comeram tudo que havia sido produzido pelo trabalho dos homens até que se tornou impossível alimentá-los.

13. Quando se voltaram contra os homens, para devorá-los.

14. E começaram a ferir os pássaros, bestas, répteis e peixes para comer sua carne e beber seu sangue.

15. Então a terra reprovou os maldosos.

Capítulo 8

1. Além disso, Azazyel ensinou os homens a fabricar espadas, facas e escudos, ensinou-os a produzir espelhos, braceletes e ornamentos para as mulheres, a utilizar pintura para embelezar as sobrancelhas e pedras de todos os tipos e valores, a manusear toda sorte de corantes, fazendo todas essas coisas para alterar o mundo.

2. A impiedade aumentou, a fornicação multiplicou-se, e eles transgrediram e corromperam todos os seus caminhos..

3. Amazarak ensinava todos os encantos e propriedades das raízes;

4. Armers ensinava feitiçarias;

5. Barkaval ensinava observação de estrelas;

6. Akibeel ensinava signos;

7. E Asaradel ensinava sobre o movimento da luz;

8. E os homens, sendo destruídos clamaram e sua voz chegou até os céus.

¹ Ed. Nova Era, Rio de Janeiro 2002, 135 x 210 mm, 475 pp.
² Ver em Apêndice (pp. 121s) o texto do livro de Henoque que parece fundamentar estes dizeres.
¹ Eis o texto de Gn 6, 1-4 que vem ao caso:
“Quando os homens começaram a ser numerosos sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradavam... Ora naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos; os Nefilim habitavam sobre a terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos”.
Neste texto a tradição judaica via os filhos de Deus como anjos e as filhas dos homens como mulheres. Quanto aos nefilim ou gigantes, são algo de difícil interpretação. Havia de fato gigantes sobre a terra conforme Dt 1, 28; Nm 13, 33; 1Sm 17, 34-54.
¹ São Paulo cita o autor pagão Arato em At 17, 28, e em Tt 1, 12 Epimênides, sem pretender colocá-los no cânon bíblico.


Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Autor: Estevão Bettencourt, Osb.,
Nº 191 - Ano 1975, Pág. 490.

Em síntese: Dadas as recentes hesitações de pensadores sobre a existência e a ação do demônio, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé pediu a um de seus peritos estudasse o assunto; donde resultou um documento publicado no jornal “L’Osservatore Romano” de 4/07/75 (ed. Francesa) pp. 5-8.

O autor, examinando o texto do Novo Testamento, observa que os judeus não tinham crença definida a respeito da existência do demônio (os fariseus a admitiam, ao passo que os saduceus a negavam); por conseguinte, não se deveria dizer que Jesus, ao afirmar claramente no Evangelho a realidade e a ação do Maligno, se tenha adaptado à mentalidade dos judeus. Cristo era assaz independente em relação a esta; veja, por exemplo, o sermão da montanha (Mt 5-7).

Passando à Tradição cristã, o autor se detém principalmente sobre o texto do Concílio Ecumênico do Latrão IV (1215), evidenciando que se trata de uma profissão oficial de fé, e não de uma declaração disciplinar ou reformável da Igreja. De resto, o Concílio do Vaticano II, nas Constituições “Lumen Gentium” e “Gaudium et Spes”, reiterou a crença na existência e na ação de Satanás.

Se hoje em dia a Igreja, fazendo eco à constante Tradição, reafirma a realidade do Maligno, Ela não o faz para restaurar filósofos dualistas ou crendices e teses de magia, nem para isentar o homem de suas responsabilidades. Apenas tenciona ser fiel ao Evangelho e lembrar ao homem, fascinado pela técnica contemporânea, que nem tudo se explica natural e cientificamente; há, sim, o mistério da iniqüidade, ao qual nenhum ser humano sucumbe se não o quer, pois foi libertado por Cristo, que venceu o Príncipe deste mundo.

Comentário: O jornal “L”Osservatore Romano”, em sua edição francesa de 4/07/1975, publicou um estudo elaborado por perito em nome da S. Congregação para a Doutrina da Fé (Roma) a respeito da existência do demônio. A mencionada S. Congregação “recomenda vivamente esse estudo como base segura para reafirmar a doutrina do Magistério sobre o tema “Fé cristã e demonologia” (1. c., p. 5).

Verdade é que a existência e a ação do demônio no mundo não constituem artigos centrais ou principais da doutrina de fé católica. Esta se volta, antes do mais, para Deus e a riqueza de sua vida, Jesus Cristo, a S. Igreja, os sacramentos e sua eficácia santificadora, e a vida eterna. Trata-se de uma Boa-Nova, que eleva e regozija os homens. Todavia em 1973 e 1974 o romance e o filme “O Exorcista” puseram em foco o demônio suscitando questões bíblicas, teológicas, filosóficas, psicológicas ... relacionadas com o assunto. Eis por que a Santa Sé houve por bem mandar elaborar a interessante pesquisa publicada oficialmente no “L’Osservatore Romano”. Eis também por que nos parece oportuno comunicar aos nossos leitores, em termos sucintos, o conteúdo desse amplo estudo.

1. O problema

A existência do demônio, constantemente afirmada pela Igreja através dos séculos, hoje em dia tem sido discutida.

1) Há os que, estudando as Escrituras Sagradas, não ousam afirmar ou negar algo a respeito, ao passo que outros rejeitam explicitamente a realidade do demônio.

Em particular, há quem afirme que as palavras de Jesus, em caso algum, são suficientes para assegurar a existência dos anjos maus. O que os Evangelhos atribuem a Jesus sobre o assunto, não proviria de Jesus Cristo mesmo, mas de escritos judaicos anteriores ou de idéias de cristãos posteriores a Cristo.

2) Outros estudiosos reconhecem o peso das afirmações bíblicas concernentes ao demônio, mas julgam ser inaceitáveis aos homens de hoje, mesmo aos cristãos. Por conseguinte, rejeitam-nas.

3) Outra corrente assevera que a noção de Satã, qualquer que seja a sua origem, perdeu hoje a sua importância. Quem a queira hoje propor, cai em descrédito.

4) Há ainda aqueles para os quais os nomes de Satã e diabo são meras reminiscências míticas, que significam de maneira dramática a ação do mal e do pecado sobre o gênero humano. Procure-se outra maneira - dizem - de incutir aos cristãos o dever de lutar contra as expressões do mal no mundo.

Tais teses, difundidas com aparato de erudição em revistas e dicionários de teologia, vêm perturbando os cristãos. Enquanto uns se sentem inseguros e vacilantes, os outros as rejeitam e, perplexos, interrogam a que ponto chegará o processo de “desmitização” empreendido em nome de certa corrente de filosofia e hermenêutica.

A fim de elucidar a questão, o estudioso começa por examinar os textos do Novo Testamento.
1. O testemunho do Novo Testamento

2.1. Observação preliminar

Seria precipitado afirmar que Jesus, ao falar do demônio, se tenha simplesmente adaptado à mentalidade dos judeus contemporâneos. Estes, na verdade, divergiam entre si sobre esse assunto. Enquanto os fariseus admitiam os anjos e demônios, os saduceus recusavam a realidade dos mesmos; cf. At 23, 8. Donde se vê que não se deveria crer facilmente que Jesus ao expulsar os demônios, e os escritores do Novo Testamento, ao relatarem tal fato, estavam simplesmente adotando concepções e práticas do seu tempo. Embora Jesus compartilhasse a cultura da sua época, ultrapassava-a como Deus e, quando necessário, mostrava-se independente em relação à mesma; tenha-se em vista, por exemplo, o sermão da montanha (Mt 5-7), em que o Senhor desconcerta os seus ouvintes, propondo uma “justiça melhor” do que a dos fariseus e escribas.

Mais: se Jesus se tivesse acomodado a crendices de correntes judaicas antigas sem as abonar interiormente, teria traído a sua missão e o seu ser divino. Ele veio para dar testemunho da verdade, como o afirma em Jo 18,37.

2.2. O testemunho do próprio Cristo

Jesus iniciou o seu ministério público aceitando ser tentado pelo demônio; cf. Mt 4,111; Mc 1,12s; Lc 4,1-13.

Logo no sermão da montanha (Mt 5-7), quis que os seus discípulos se acautelassem contra o Maligno; cf. Mt 5,37. No final do “Pai Nosso”, aparece a cláusula “Mas livrai-nos do poneróu”, onde a palavra poneróu tem sido - e até hoje é - entendida como alusão ao Maligno; cf. Mt 6,13 e comentários (tanto modernos como antigos) do “Pai Nosso”.

Em suas parábolas, Jesus atribuiu a Satã os obstáculos encontrados pela pregação da Palavra de Deus, assim como o joio disseminado no campo de trigo; cf. Mt 13,18. 28. 38s. O pecado significa “fazer as obras do diabo”, que é homicida e mentiroso desde o início e ao qual se filia o pecador (cf. Jo 8,44). Aproximando-se a Paixão, Cristo declarou a Simão Pedro que Satanás pedira os apóstolos para os joeirar, mas Ele, o Senhor, intercedera por Pedro, a fim de que a fé deste não desfalecesse; cf. Lc 22, 31. Ao deixar o cenáculo, o Senhor afirmou que a vinda do “Príncipe deste mundo” era iminente; sabia, porém, que este já se achava condenado; cf. Jo 14, 30; 16, 11. Como que para testemunhar esta verdade em termos sensíveis, Jesus expulsava os demônios dos possessos; estas curas de endemoninhados esclareciam o sentido da missão do Senhor, como Ele mesmo declarava: “Se é pelo Espírito de Deus expulso os demônios, chegou ate vós o Reino de Deus” (Mt 12,28).

A esta altura, comenta o autor do estudo citado:

“Estes fatos e estas declarações ... não são o resultado do acaso. Não é possível tratá-los como dados fabulosos que deveríamos desmitizar. Se não, teríamos de admitir que nessas horas críticas a consciência de Jesus (cuja lucidez e autodomínio perante os juízes são atestados pelos Evangelhos) era vítima de fantasias ilusórias e que a sua palavra carecia de firmeza. Ora isto contradiria às impressões colhidas pelos primeiros ouvintes e pelos atuais leitores dos Evangelhos. Por conseguinte, impõe-se a conclusão: Satã, que Jesus enfrentou nos seus exorcismos,... que Jesus encontrou no deserto e na sua Paixão, não pode ser o simples produto da faculdade humana de forjar e projetar fábulas, nem é o resquício aberrante de uma linguagem de cultura primitiva” (art. Citado, p. 5, colunas 3 e 4).

2.3. Os demais escritos do Novo Testamento

Nas cartas paulinas, Satã aparece como “o deus deste mundo” (2 Cor 4,4). Age na história através do que o apóstolo chama “o mistério da iniqüidade” (2Ts 2,7); exerce também a sua influência mediante a incredulidade que recusa o Senhor Jesus (2Cor 4,4),... mediante a aberração dos ídolos (1Cor 10,19s ; Rm 1,21s), a sedução dos erros que ameaçam a fidelidade da Igreja ao Cristo, seu esposo (2Cor 11,3).

Quanto ao Apocalipse, é o livro em que por excelência o leitor depreende o sentido da história: esta vem a ser o grande embate entre o Senhor Jesus e Satã, terminando com a vitória do Cristo ressuscitado; leve-se em conta principalmente o capítulo 12 desse escrito, em que os nomes e símbolos do adversário são elucidados.

Após a análise dos textos bíblicos, o documento em foco considera os testemunhos da Tradição e do Magistério da Igreja. É o que passamos a transmitir em síntese.

3. Os testemunhos da Tradição

Os antigos escritores da Igreja, desde o século II, professaram a convicção, incutida pela Bíblia, de que o demônio é o adversário da obra de cristo e do gênero humano.

Os escritores que elucidaram o desígnio de Deus sobre a história, puseram em foco a ação do Maligno; muito especialmente o fizeram S. Ireneu (+ 202 aproximadamente), Tertuliano (+ após 220), que refutaram o dualismo gnóstico e o marcionismo. - Para S. Ireneu, por exemplo, o diabo é um anjo decaído, que Cristo quis enfrentar desde o início do seu ministério; assumiu assim a luta que aos homens competia e compete travar (Adv. Haer. V, 21,2; 24,3).

Pode-se mesmo dizer que quase não há escritor antigo que não se tenha referido ao demônio, afirmando a sua ação no mundo.

No século V, S. Agostinho (+ 430) apresentou a visão das duas cidades - a de Deus e a do diabo -, que tiveram origem no instante em que os anjos maus se declararam infiéis ao Senhor (“De Civitate Dei” XI, 9). A sociedade dos homens que pecam, parecia-lhe ser o “corpo místico” do diabo (“De Genesi ad litteram” XI, 24, 31) - imagem esta que ocorre mais tarde nos “Moralia in Job” de S; Gregório Magno (+ 604).

Em suma, a doutrina dos Padres ou escritores antigos da Igreja fez eco fiel às diretrizes do Novo Testamento.

4. O Magistério

No decorrer dos seus quase vinte séculos de história, o Magistério da Igreja poucas vezes se pronunciou sobre o demônio em termos dogmáticos. A razão disto é que tais pronunciamentos supõem sempre especial ocasião (o surto de alguma heresia, uma controvérsia...). Ora em duas fases houve, de fato, motivo para que a Igreja proferisse explicitamente a sua doutrina sobre o demônio: a primeira ocorreu no século VI (563 ou 566), quando o Maniqueísmo e o Priscilianismo ensejaram uma afirmação solene do Concílio regional de Braga I (Portugal). A segunda se deu no século XIII (1215), quando o Concílio ecumênico do Latrão IV se opôs ao novo surto de Maniqueísmo encabeçado pelos cátaros ou albigenses.

O Concílio de Braga I, retomando os ensinamentos dos mestres dos séculos anteriores (principalmente os de S. Leão Magno, + 461), assim se exprimia no seu cânon 7:

“Se alguém disser que o Diabo não foi primeiramente um anjo bom feito por Deus e que a sua natureza não foi a obra de Deus; se, ao contrário, afirma que o diabo saiu do caos e das trevas e que não tem autor do seu ser, mas é ele mesmo o princípio e a substância do Mal, como disseram Maniqueu e Prisciliano, seja anátema” (Denzinger-Schönmetzer, “Enquirídio” nº 457 [237]).

O Concílio não tinha necessidade de afirmar a existência do demônio, pois esta não era controvertida então; mas, supondo-a, professou que o demônio é uma criatura de Deus inicialmente boa; a sua perversão há de ser explicada por abuso da liberdade de arbítrio desse anjo infiel a Deus.

No século XI o surto do Catarismo ou dos Cátaros, também ditos “Albigenses”, que reavivavam o maniqueísmo, provocou outra Declaração do Magistério da Igreja, desta vez reunido no Concílio ecumênico do Latrão IV (1215). Eis o teor do documento então redigido:

“Cremos firmemente e professamos simplesmente... um Princípio único do universo, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, espirituais e corporais: por sua onipotência, desde o começo do tempo, Ele criou do nada uma e outra criatura - a espiritual e a corporal -, a saber: os anjos e o mundo. A seguir, criou o homem, que se constitui de uma e de outra, pois é composto de espírito e corpo. Pois o diabo e os outros demônios foram criados por Deus naturalmente bons, mas por si mesmos tornaram-se maus. Quanto ao homem, pecou por instigação do diabo” (Denzinger-Schönmetzer, “Enquirídio” 800 [428]).

O problema ao qual esta declaração devia responder em sua época, era, como foi dito, o do dualismo. Com efeito, os hereges julgavam haver um princípio subsistente do mal oposto a Deus, que seria o princípio do bem. Em vista disto é que o Concílio declara haver um só Criador, ao qual se reduzem até mesmos os anjos maus; estes, embora bons por natureza, se perverteram por abuso de sua liberdade. Assim o Concílio não define explicitamente a existência dos demônios, mas supõe-na aceita e indiscutida; apenas se interessa por explicá-la - o que equivale implicitamente a uma afirmação da existência dos anjos maus.

O Concílio não diz quantos são nem como pecaram nem qual o alcance da sua ação entre os homens, pois estas questões ficavam fora do questionamento levantado pelos cátaros. - A afirmação do Concílio do Latrão IV é de importância capital; não tem valor disciplinar apenas, mas seu estilo é o de uma solene profissão, que exprime estritamente a fé da Igreja oficial e universal. Os procedentes desta formulação dogmática se encontram esparsos por toda a Tradição cristã (escritores e Concílio), que o recente documento da S. Congregação para a Doutrina da Fé passa em revista, minuciosa e exaustivamente.

O mesmo estudo cita ainda os Concílios ecumênicos de Florença (1439-1445) e Trento (1545-1563), que se pronunciaram em consonância com o do Latrão IV. E finalmente lembra que também o Concílio do Vaticano II professou a existência e a ação do demônio, chegando mesmo a referir-se aos milagres e exorcismos praticados por Jesus como sendo sinais de que o Reino de Deus chegara sobre a terra:

“Uma luta árdua contra o poder das trevas perpassa a história universal da humanidade, iniciada desde a origem do mundo, vai durar até o último dia, segundo as palavras do Senhor (cf. Mt 24,13; 13,24-30. 36-43). Inserido nesta batalha, o homem deve lutar sempre para aderir ao bem; não consegue alcançar a unidade interior senão com grandes labutas e o auxílio da graça de Deus” (Const. “Gaudium et Spes” nº 37).

“O mistério da Santa Igreja manifesta-se na sua própria fundação. Pois o Senhor Jesus iniciou sua Igreja pregando a Boa-Nova, isto é, o advento do Reino de Deus prometido nas Escrituras havia séculos... Este Reino manifesta-se lucidamente aos homens na palavra, nas obras e na presença de Cristo. Pois a palavra do Senhor é comparada à semente semeada no campo (Mc 4,14): os que a ouvem com fé e são contados no número da pequena grei de Cristo (Lc 12,32), receberam o próprio Reino: depois, por sua própria força e semente germina e cresce até o tempo da messe (cf. Mc 4,26-29). Também os milagres de Jesus comprovam que o Reino já chegou à terra: “Se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o Reino de Deus” (Lc 11,20; cf. Mt 12,28). Sobretudo, porém, o Reino é manifestado na própria pessoa de Cristo. Filho de Deus e Filho do homem, que veio “para servir e dar a sua vida em redenção por muitos” (Mc 10,45)” (Const. “Lúmen Gentium” nº 5).

Podem-se citar ainda as Constituições “Lúmen Gentium” 35a. 48d, “Gaudium et Spes” 37b e o decreto “Ad gentes” 3.14.

Examinemos ainda outro documentário da teologia da Igreja.

5. O testemunho da Liturgia

Os textos (orações, hinos, invocações) utilizados no culto divino ou na Liturgia são expressões da fé oficial da Igreja ou do povo de Deus. Eis porque interessa averiguar o testemunho dos mesmos no tocante ao demônio:

A Liturgia oriental é, sem dúvida, exuberante em suas alusões a Satanás e à ação diabólica entre os homens. A Liturgia latina, que também era rica em tais menções, passou ultimamente por reformas, que a simplificaram.

Assim já não se confere habitualmente o ministério do exorcismo (poder de expulsar os demônios), que antes da reforma constituía uma Ordem menor. Apenas em casos esporádicos é facultado aos bispos pedir à Santa Sé a ordenação de exorcistas para as dioceses respectivas. Isto, porém, não quer dizer que os sacerdotes não possam ou não devam praticar o exorcismo, desde que as circunstâncias o indiquem. Todavia a reforma litúrgica neste ponto manifesta que a Igreja não atribui aos exorcismos a importância que eles tinham nos primeiros séculos.

No rito de batismo de crianças os vários exorcismos não foram de todo supressos, como se tem dito, mas, sim, substituídos por uma única fórmula de exorcismo (“oratio exorcismi”), que antecede a unção pré-batismal. Esta prece não significa que a Igreja julgue serem as criancinhas possessas do demônio; mas Ela crê que, antes do Batismo, todo ser humano (adulto ou criança) traz em si a marca do pecado e da ação de Satanás.

No ritual de iniciação cristã dos adultos, também se registram modificações. O demônio não é interpelado com a veemência de outrora. Todavia não faltam aí preces de exorcismo “maiores” e “menores” disseminadas por toda a extensão do catecumenato, sendo que algumas dessas preces foram aí introduzidas precisamente pela reforma litúrgica.

No novo rito de Unção dos Enfermos, pede o sacerdote que o paciente “seja livre de todo pecado e tentação”. O óleo santo é considerado “proteção do corpo, da alma e do espírito”. As preces de encomendação dos agonizantes pedem a Cristo, queira receber o moribundo entre as suas ovelhas e os seus eleitos; não mencionam demônio nem inferno, a fim de evitar traumatismos desnecessários, mas aludem discretamente ao mistério da iniqüidade como a fé da Igreja sempre o entendeu.

Deve-se ainda referir que na Liturgia de vários domingos do ano a Igreja lê seções do Evangelho que narram a ação do demônio e a luta de Jesus contra o mesmo; assim, por exemplo, no primeiro domingo da Quaresma ocorre sempre o episódio das tentações de Jesus.

Vê-se, pois, que também através da Liturgia se depreende o pensamento da Igreja relativo à existência e à sanha do demônio neste mundo.

Resta agora, deste breve percurso de dados, tirar uma

6. Conclusão

Não há dúvida de que a Igreja tenciona hoje reafirmar, como sempre fez, a realidade do Maligno e dos anjos maus que o seguiram. A Igreja, com isto, não deseja, em absoluto, restaurar a mentalidade dualista ou maniquéia de épocas passadas proposto pelas Escrituras, pelo próprio Cristo e por toda a Tradição cristã. É questão de fidelidade da Igreja ao Evangelho e às suas exigências. Tenham-se em vista as palavras de Paulo VI proferidas aos 15/XI/72:

“Afasta-se do quadro do ensinamento bíblico e da Igreja aquele que recusa reconhecer a existência do diabo... Ou aquele que admite seja este um princípio existente por si, que não teria origem em Deus, como a tem toda criatura... Ou quem explica o demônio como sendo uma pseudo-realidade, uma personificação conceitual e imaginária das causas desconhecidas de nossas misérias” (audiência geral de 15/XI/72; ver também homilia de Paulo VI aos 29/VI/72).

Professando consciente a existência e a ação de Satanás, a Igreja não deixa de afirmar a grandeza e a liberdade do homem, assim como a responsabilidade deste diante das tarefas que lhe incubem. São contrárias à fé quaisquer teses de superstição, magia ou fatalismo, como também qualquer teoria que insinue a capitulação do homem perante o mal.

Mais: sempre que se fala de intervenção diabólica, a Igreja exerce o seu senso crítico (como se dá também em se tratando de milagres); reserva, prudência e discrição são indispensáveis no caso, a fim de se evitarem concessões à imaginação ou à alucinação doentia.

De outro lado, a Igreja julga que é sempre oportuna a exortação de São Pedro Apóstolo a que os fiéis se conservem sóbrios e vigilantes frente à ação do Maligno. O fascínio das conquistas da ciência e da técnica sugere ao homem que já não há mistérios ou que todos os problemas da história se explicam e resolvem racionalmente - o que é ilusório. Despertando a consciência dos fiéis para o “mistério da iniqüidade” (2Ts 2,7), a Igreja deseja incutir-lhes a modéstia humilde, que é outra faceta da procura da verdade e da autêntica conduta do homem inteligente.

Pertence ainda ao ensinamento da Igreja lembrar que Satanás existe, mas é semelhante a um cão acorrentado, que pode ladrar, mas não morde senão a quem dele se aproxima voluntariamente (S. Agostinho). O demônio pode tentar, não porém, arrancar o consentimento do homem; este estará sempre apto a resistir-lhe, principalmente se recorrer à oração e à vigilância, pois Deus não permite seja o homem tentado acima de suas forças (1Cor 10,13). Toda tentação tem sentido providencial, contribuindo, nos desígnios de Deus, para acrisolar as virtudes e fortalecer a fidelidade da criatura humana.

Em suma, a crença na existência e na ação do demônio não é verdade de primeira linha no horizonte da fé cristã, mas é função da obra da Redenção. É inseparável de firme confiança no Cristo Jesus, que venceu o Príncipe deste mundo e a todos os homens oferece a salvação adquirida por seu sangue.
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