Maria, por desígnio de Deus é a imaculada

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Queridos irmãos e irmas, nesse segundo domingo do advento, temos  a alegria de celebrar Maria, a imaculada conceição e nela vamos acolher Jesus  que vem ate nós. Ela é a nova Eva que transforma a criação decaída para que possamos ter Jesus, o novo homem.

No livro do Gênesis, encontramos a figura de Eva, a primeira mulher que por orgulho, por vaidade e por desobediência as ordens de Deus, deixou-se ser seduzida pela malicia da serpente que a fez cair no pecado da morte e da não comunhão com Deus. A harmonia do paraíso foi quebrada por essa desobediência e perdeu-se a liberdade de estar sempre com Deus. Esse fato se chamou de pecado original. Sabemos que o mal não foi criado por Deus, mas é ausência do Bem devido ao nosso distanciamento de Deus e da sua verdade.

Algumas narrativas desse episodio nos faz reconhecer a nossa natureza humana como o reconhecimento da nudez, da vergonha e de esconder de Deus por já não reconhecer Deus como amigo e alguém que estava presente sempre no jardim do Édem com eles. O pecado nos divide e é por isso que nós travamos uma luta contra om mal sempre. Agora a figura da mulher que esmaga a serpente é a nova Eva, que em nosso caso é Maria, ela pela obediência a Deus torna-se mãe do filho de Deus. Ele é a mulher por excelência. (cf. Gn 3, 9-15)

Na Carta aos Efésios encontramos esse hino que invoca e canta a grandeza de Deus pelas maravilhas que Ele fez por nós e no mundo também. É a mão de Deus é a favor do homem sempre. Deus é fiel e propôs  a nós um projeto lindo de resgate e salvação ao homem decaído pelo pecado. Essa certeza que Deus está sempre conosco caminhemos assim para celebrar o Natal do Senhor.(cf. Ef 1,3-6;11-12)

O evangelista Lucas nos mostra a saudação do anjo a Maria. Aqui temos a narrativa quem é Jesus, o filho de Maria. Ele é o menino que vem para nos mostrar a grandeza de estamos em comunhão com Deus sempre. Deus vem até nós com sinais que revelam como é o Senhor entre nós. O Messias, é o menino pobre entre todos os pobres, em lugar desconhecido e sem valor, que é a cidade de Belém. Jesus nasce de uma mulher virgem, pois vem nos mostrar que o seu filho é sem mancha do pecado. Com esse gesto de Maria de estar atenta a vontade Deus nos faz um alerta para que estejamos com os olhos e os ouvidos atentos o que Deus quer de nós.

O que foi predito pelos profetas, agora se concretiza em Maria. E seu filho tem uma missão indicada pela mudança de nome. A sua realeza é para sempre. Ela é o novo tabernáculo que recebe em seu ventre o menino Deus que é acolhido pela   disposição de Maria de aceitar a ser a mãe do Filho de Deus. Aqui a obediência traz a vida. Ela soube ouvir os desígnios de Deus e isso nos remete a nós que devemos acolher a vontade de Deus em nossa vida e se dispor a trilhar o caminho que Jesus traçou com sua vida  e com suas mensagens nesse mundo. Somos chamados a sermos um presépio vivo em nossa vida para que Jesus seja o nosso hóspede que vem para transformar a nossa vida. A vida deve desabrochar com uma nova matiz de beleza e de cor. Deus tem um projeto de vida para todos. (cf. Lc 1,26-38)

Assim somos convidados a sermos uma Igreja de saída, resgatando-nos e mudando a vida de todos que estão marginalizados nesse mundo. Natal é o momento de resgate do valor da vida e fazer de cada um de nós porta voz da vida com dignidade para todos. Devemos ser agentes transformadores dessa sociedade materialista e desigual para uma sociedade de solidários, de humanos e fraternos para que vida seja de abundancia sempre para todos. O mundo torna-se melhor se fizermos o bem que Deus quer que cada um faça.

Que esta liturgia nos faz  sermos novos e reformados numa casa bela onde o  convidado principal é Cristo e Ele dá o brilho nas luzes, nos enfeites, nas nossas mesas a onde todos são convidados a partilhar a vida, a justiça, o bem, o perdão, o amor e a misericórdia. Que essas verdades sejam traduzidos nos nossos gestos que transformam as realidades de morte para a realidade de vida.

Que essa espera do Natal do Senhor seja momento de esperança de dias melhores para todos.

Tudo por Jesus, nada sem Maria!!!

Bacharel em Teologia Jose Benedito Schumann Cunha


O pecado, como categoria teológica, ao procurar expressar a realidade humana implicada com o fenômeno do mal presente na história, tenta, ao mesmo tempo, relacionar tal realidade a um sinal de perdição ou de salvação diante de Deus criador do humano e de toda a existência do universo. Nesse sentido, o pecado, como experiência religiosa e realidade teológica, mais que problema, constitui mistério da criação. Nesse sentido, a curiosidade proporciona múltiplas interrogações e, ao mesmo tempo, uma reação como resposta que se manifesta na diversidade de tentativas em amenizar e tranquilizar a angustiante dúvida. As posturas científicas, ao interpretarem o fenômeno do mal presente na natureza cósmica, física e moral, diversificam-se; ora assemelhando-se, ora contrapondo-se[1].
Para certa teoria evolucionista, o mal está presente na criação devido ao seu estado de imperfeição. Segundo tal concepção, o perfeito é só Deus, e Deus é uno e indivisível. Caso a sua obra fosse perfeita como ele próprio, estaria atribuindo à criatura a mesma e total condição de sua natureza, de forma que o criador e a criatura seriam a mesma coisa.
Tal concepção científica contribuiu à nossa reflexão teológica a partir da história da salvação, revelando-nos um Deus que, por ser infinitamente amor e bondade, cria o humano e tudo o que o cerca com respeito e liberdade. O pecado entra no mundo criado por obra do maligno, condicionando toda a criação a sofrer um parto difícil rumo ao seu destino, que é Cristo, aquele que teologicamente resgata o sentido da evolução histórica, cujo horizonte é o Reino de Deus.
A presença de Jesus Cristo na história humana é o gosto de compromisso de Deus com a sua criação. Apesar do pecado, a graça revela, um Deus como Senhor da vida que liberta o humano. A verdadeira conversão pessoal exige mudança de ordem particular e social. O pecado está presente na história humana e universal como problema e mistério, manifestando-se concretamente nos relacionamentos interpessoais e estruturais[2].

I. AUTONOMIA DO PECADO SOCIAL
A visão pessoal do pecado não se contrapõe de forma nenhuma à visão social. Ao contrário, a dimensão pessoal pode ser considerada como pressuposto ou via de acesso ao se refletir sobre o âmbito social do pecado. Isso ocorre quando a liberdade é orientada ao próximo e atuada mediante a comunicação com ele, uma vez que o ser humano é, por sua natureza intimíssima, um ser social e seu livre agir sempre conduz a implicações sociais.
Sobre essa base podem-se compreender os mecanismos e as estruturas em que o ser humano e a sociedade estão inseridos. Não se trata de fatalidade ou determinismo, mas criação dos seres humanos, que devem assumir a responsabilidade de forma dinâmica e criativa[3].

1. A libertação como condição da liberdade
Os mecanismos e estruturas pecaminosas desenvolvem-se dinamicamente, a partir de certas tendências ideológicas que influenciam e condicionam o que se encontra à sua volta, implicando, assim, a liberdade e a consciência de cada pessoa.
Para o aspecto estrutural e social do pecado, não existe liberdade individual em estado perfeito, pois cada liberdade é uma liberdade contextualizada, remanejada por estruturas e mecanismos carregados de injustiças e morte. Consequentemente a liberdade não tem possessão de si mesma, manifesta-se sempre alienada devido à sua ambiguidade histórica. Contudo, a busca de sua realização exige a incansável busca constitutiva de sua própria natureza. Nesse sentido a liberdade, apesar de seu relativismo, sempre conduz em si própria importante força de libertação, uma vez que o ser humano sempre é, simultaneamente, sujeito e objeto de sua existência.
A concepção contemporânea ampliou o conceito de pessoa. A mentalidade científica do novo tempo não aceita mais o significado de pessoa como realidade expressivamente introvertida, individualista, fechada, como uma ilha distante e isolada. O conceito de pessoa que faz referência a um ser subsistente em si mesmo, que age a partir de seus próprios princípios intimistas, não tem mais sentido para o novo tempo. O novo paradigma das ciências concebe a pessoa como um ser de relações a partir da categoria da intersubjetividade. O ser pessoal age mediante a sua capacidade de relação com a comunidade e com o social. Do encontro pessoal deve cultivar a comunhão, a responsabilidade e o amor. A mesma coisa se pode dizer da liberdade e da libertação. Elas encontram seu conteúdo quando estabelecem relação, quando correspondem plenamente à integridade pessoal e social. Disso resulta a orientação ao outro, comunicação entre o Senhor Deus, que é livre, com a pessoa livre. Para a nossa realidade latino-americana, a prática em favor da vida e dos seus direitos é um pressuposto para a “liberdade libertada”, assim como para a formação da “consciência conscientizada”[4].

2. A caminho de uma nova consciência
Ao abordarmos a problemática do pecado em nosso contexto latino-americano, é inevitável deixarmos de levar em conta a condição excludente a que se vê submetido o hemisfério sul do nosso continente. A nova ordem econômica do capitalismo transnacional expressa uma situação de pecado[5]onde os mais fortes continuam mais que nunca dominando os fracos nacional e internacionalmente.
Dentro de um mundo onde os sistemas econômicos e políticos funcionam em virtude do seu poder explorador, no decorrer de todo o processo histórico constatamos sempre esta situação de pecado onde alguns sempre exercem uma prática dominante sobre muitos, e isso tanto em nível de relações interpessoais quanto estruturais[6].
Nós, que refletimos tal situação, a experimentamos e procuramos interpretá-la de várias maneiras. Contudo, solidarizamo-nos com a experiência comum de que somos frágeis diante dos desafios que defrontamos no mundo do qual somos parte. Os sistemas que o dominam não são de responsabilidade exclusivamente individual, isso porque tais sistemas possuem sua autonomia de responsabilidade ao carregarem em suas instituições a presença destruidora do pecado.
Por outro lado, isso pode induzir-nos à autodefesa, tentando amenizar nossa participação no estado reinante do pecado. Essa postura busca justificar que não somos nós que criamos tais sistemas, nem temos o poder de estabelecer e controlar os mecanismos dos mercados mundiais; contudo, podemos estar sendo coniventes com as regras de um capitalismo renascente, alicerçado numa ideologia de corte neoliberal — preocupante para muitos, em termos de presente e futuro. Podemos estar sendo condicionados a participar do jogo da oferta e da procura, da produção e do consumo. Os nossos protestos parciais não modificam os fatores de injustiça e de pecado existentes em tais, sistemas.
Disso podemos concluir que somos simultaneamente sujeitos e objetos da ordem mundial tal como se apresenta. Nossos atos maliciosos estão intimamente ligados com uma atitude estruturalmente maliciosa, preexistente e anônima.
Para a teologia de corte latino-americano, essa situação concreta da pessoa e da sociedade constitui o ponto de partida da elaboração de sua reflexão. O ambiente em referência é sintomaticamente feito de opressão, exploração, injustiça e violência institucionalizada. A análise e a interpretação teológica da realidade concreta penetrada pelo pecado vêm da fé na graça de Deus, presente na Boa Nova pregada por Jesus Cristo.
A Igreja e sua teologia, ao chamarem de pecado as estruturas e mecanismos que condenam as pessoas a uma vida de alienação e exploração, não desejam diminuir a importância da dimensão pessoal. O ponto de partida, o lugar epistêmico da construção teológica é um problema e um mistério pessoal e social, pois a relação com Deus e com o próximo inevitavelmente se manifesta nas mesmas estruturas e mecanismos que exercem força influente, impedindo uma vida de relação plena e humanamente digna. As instituições, as estruturas e os mecanismos sociais não são concebidos simplesmente como expressão de uma ordem essencial preestabelecida para um fatalismo determinado e um destino imutável. Tal visão histórica, própria de um tempo estagnado e inerte, não tem sentido para uma mentalidade teológica que anuncia a esperança e a evolução da consciência humana que ansiosamente busca Jesus Cristo — aquele que, como Deus e como homem, na história recupera e dá verdadeiro e profundo sentido à vida humana. Humano como Jesus, só poderia ter sido Deus. Jesus Cristo é o exemplo de humanista que deve ser imitado e seguido pelos cristãos.
Para a teologia do novo tempo, qualquer realidade social é criação histórica, fruto da livre atividade humana. À medida que a injustiça, a miséria e a opressão resultam de estruturas econômicas, sociais e políticas, atrás disso está camuflada a responsabilidade humana. Essa planejada e efetiva produção do mal é chamada pela teologia contemporânea de situação de pecadopecado estrutural, pecado social[7].
Assim, a superação do pecado deve conter sempre em si o elemento da libertação. A liberdade, para garantir uma qualidade compromissada e solidária, não deve ser buscada somente como valor que objetive a autorrealização do sujeito, mas também como valor implicado com a objetividade social. Disso se conclui que a libertação do sujeito, vítima do pecado, deve manifestar-se mediante a conversão do coração da pessoa, concomitantemente com a conversão das estruturas sociais nas quais o pecado se tornou enfermidade crônica e se cristalizou como negação concreta de liberdade ao adquirir poder nos sistemas socioeconômicos implantados no continente latino-americano.
Por isso é de grande relevância que a conversão do coração e a mudança das estruturas não sejam vistas como alternativas, mas dentro de uma realidade analética de recíproca interdependência. É em relação à mencionada interdependência que o pecado social justifica e garante sua autonomia[8].

II. PECADO SOCIAL E NOVA ORDEM MUNDIAL
O pecado social não apenas agride fisicamente a vida humana, mas também ataca os princípios fundamentais que dão consistência à valorização da vida humana como um todo. Trata-se de um rompimento com o Ethos, com a própria razão da vida, da cultura, do patrimônio ético-moral que as religiões, as artes e as ciências construíram ao longo de seu desenvolvimento histórico; valores que dão sentido ao projeto do Deus criador. A violação dos legítimos direitos da humanidade é sintomática em nossa realidade atual[9].

1. A modernidade e sua cultura
Ao refletirmos sobre o pecado na sociedade contemporânea, não podemos prescindir dos valores impostos pela modernidade, que carrega em seu bojo uma cultura universalizante propagadora do pecado no mundo e por ele penetrada[10]. A nova fisionomia da modernidade assume características próprias deste tempo devido ao recente fenômeno da nova ordem mundial.
É desafiante estabelecer diálogo com a cultura moderna, uma vez que há tensão entre a complexidade de tal cultura e a busca ansiosa de alternativas que respondam à solução para os diversos problemas de ordem social que concretamente estabelecem uma situação de pecado. Tanto as Igrejas e suas pastorais quanto as organizações, movimentos e todas as entidades de boa-fé — que lutam incansavelmente pelos direitos da humanidade dentro de uma sociedade em mudança — aspiram a uma sociedade convertida segundo a vontade de Deus.
A mudança a que nos referimos aqui não significa conversão. A conversão é transformação plena, nova e criativa, e não simples reforma. Atualmente a mudança social acontece como exigência permanente da própria modernidade, que introduz um rompimento cultural ao assumir um princípio contestatório do passado e uma busca desenfreada de novas experiências, sem os devidos critérios éticos como meios necessários para se atingir um resultado humanizante[11].
Ao mesmo tempo em que a sociedade assume atitude contestatória aos princípios éticos perenes, a economia passa por grandes mudanças: torna-se moderna, mostrando a nova face do capitalismo. Os interesses econômicos do capitalismo renascente, através de seus mecanismos próprios, subordinam o conteúdo ético-moral presente nas ciências humanas. Estas — juntamente com setores da religião, da arte e da política — adquirem independência na estrutura social, perdendo seu poder influente no poder econômico, que autônoma e independentemente exerce sua força hegemônica[12].
Isso compromete a evolução do sonho da humanidade: a conquista democrática. Esta nova fase histórica marca o limiar do terceiro milênio, gerando mudanças profundas e rápidas, provocadas pela inteligência e criatividade do ser humano. Trata-se de mudança social e cultural que atinge a todos. Estamos inaugurando a terceira grande revolução tecnológica, que traz consequências em vários campos: social, cultural, educacional, sexual etc. Trata-se da revolução termonuclear, segundo Darcy Ribeiro, a revolução da informática, que resultará num desfecho social construtivo, constritivo ou destrutivo. Tal revolução gera uma crise civilizatória tão profunda mundialmente, partindo de dois polos assimétricos, Sul e Norte[13], que não se pode deixar de perceber juntamente com o processo os condicionamentos do pecado institucionalizado, pois a idolatria do novo tempo consiste exatamente na crença das promessas messiânicas do poder neoliberal, que, por intermédio dos fetiches do progresso moderno, anuncia a solução mágica para o desenvolvimento social. Não há desenvolvimento social alheio ao desenvolvimento humano. Lutar contra o pecado social, na América Latina, é lutar contra os ídolos-deuses modernos, aos quais a idolatria manifesta-se na busca pela força obsessiva do poderdo dinheiroda técnicada superioridade e do prazer[14].

2. A sociedade moderna e sua ideologia
Partindo da realidade da modernização ou modernidade no atual contexto, tal novidade cultural assume como filosofia o neoliberalismo. Todos os países se sentem pressionados a entrar nesse processo e a aderir a essa lógica. A nova utopia social consiste em buscar a modernização através do neoliberalismo. Para a racionalidade da nova ordem, o processo de mundialização deve atingir os diversos setores da vida social: mundialização da economia, da ciência, da comunicação da informatização e da tecnologia.
O neoliberalismo imprime a lógica que fundamenta a doutrina política da atual fase capitalista, alicerçando o pensamento da nova modalidade de acumulação do capital. A produção básica deixa de ser nacional ou internacional para tornar-se mundial. É a economia da globalização. Essa nova orientação da economia assume como diretriz a ser seguida a utilização da tecnologia de ponta, que só os países do Norte detêm, e, apesar de ser em parte transferida para os países do Sul, não lhe dá o direito de gerenciamento e de domínio, mas apenas o direito de dominar uma tecnologia obsoleta. Sem domínio tecnológico não há condições de competitividade, não há autonomia. A nação torna-se periférica, excluída, não participa do mercado de igual para igual, torna-se nação sem respeito. Tal tipo de mercado mundialmente estruturado fundamenta-se num funcionalismo dogmático, perverso para a vida social e pessoal.
A sociedade baseada nos princípios da filosofia neoliberal é desumana e ateia, pois os pobres, os deficientes e os débeis são ameaças ao bem-estar dos poderosos. O funcionamento da sociedade de corte neoliberal é excludente. Toma sempre o partido de uma elite dominante e marginaliza a maior parte da sociedade. Às massas sobrantes é negada a possibilidade de qualquer tipo de convivência social, até mesmo a do estado de exploração[15].
Para esse modelo social, a parte crescente da população excluída é um estorvo, a economia caminha melhor com a sua inexistência. Os excluídos são os sem nada, não têm nenhuma serventia, pois “os ricos enriquecem sem eles, os governos são eleitos sem eles, a sociedade civil se organiza sem eles, são um custo a mais”[16].
A liberdade apregoada é absolutizada em chave individualista, promove a competitividade, a concorrência, o carreirismo e a livre iniciativa como motor da história. Tal ideologia tenta excluir o poder do Estado de direito e o direito de Estado como protetor do bem comum[17]. O Estado da sociedade neoliberal torna-se tirano: tudo é negociável, tudo se relativiza; torna-se Estado-objeto submisso ao novo poder econômico. Nesse Estado se caracteriza a individualização dos ganhos e a socialização das perdas.
No Brasil, hoje mais do que nunca, é insuportável o quanto se paga de impostos, encargos sociais, taxas etc. Diante de tal situação, os direitos humanos da população empobrecida, que deve encontrar na instituição estatal o seu aparato protetor, ficam completamente abandonados. Com a ausência de tal poder político de direito e de fato, os direitos humanos são estruturalmente violados e o Estado torna-se um traidor da justiça e da paz, pois deixa de exercer a sua interferência responsável na defesa do bem comum de uma população sofrida e empobrecida.
Os interesses do atual sistema econômico reduzem o ser humano a algo fabricado e descartável por este mesmo sistema. Apesar de o sistema prometer liberdade e bem-estar no plano privado, na prática não garante sequer um mínimo de bem-estar à sua população, condenada à miséria e à exclusão. A economia neoliberal é uma verdadeira ameaça aos dois terços da humanidade, que se concentram, em sua maior parte, no Sul do globo terrestre e vivem em extrema pobreza. A opção por esse modelo econômico-político é perversa. Trata-se de opção por uma ética eficientista que se impõe à ética solidária que defende a justa distribuição dos bens do nosso planeta[18].
A partir da ótica dos inúmeros e graves problemas sociais produzidos pelo sistema da nova ordem, que atingem e agridem os legítimos direitos humanos, devemos constatar a situação de pecado institucionalizado. Apesar de todo o progresso que a modernidade oferece, o desenvolvimento humano deixa ainda muito a desejar. Há crescente situação de pobreza, aumento do analfabetismo, consequência do abandono da área educacional, falta de moradia, falta de política agrária, fome, subnutrição, mortalidade infantil, corrupção, desonestidade política, desemprego como fruto da recessão, violência urbana e rural etc.
A saída política que costuma ser dada a tantos problemas sociais não passa de paliativos que atacam os efeitos, e nunca as causas. Entre tais problemas emerge o problema do crescimento demográfico. Buscam-se saídas no aborto, na esterilização, na eutanásia, na pena de morte. Não poucos políticos tiram proveito eleitoral disso. São temas explorados e manipulados pelos meios de comunicação[19].
O pecado social identifica-se com o projeto teórico e prático que nos apresenta o quadro panorâmico da nova ordem, onde uma realidade idolátrica contrapõe-se ao projeto de Jesus.
Jesus, por meio de sua pregação e ação, tornou presente em nosso meio o projeto do Reino de Deus. Reino de solidariedade, de amor e de paz. Como cristãos somos convocados pela fé no Senhor e pela esperança na História criada e por criar a “promover a justiça e a participação no interior de nossas nações, educando nestes valores, denunciando situações que os contradizem e dando testemunho de relação fraterna”[20].
Na graça de Deus, todo pecado pode ser derrotado, como nos encoraja a carta de São Paulo: “… onde avultou o pecado, a graça superabundou, para que, como imperou o pecado na morte, assim também imperasse a graça por meio da justiça, para a vida eterna, através de Jesus Cristo, nosso Senhor”[21].


[1] Cf. Antônio Moser, O pecado ainda existe?, São Paulo, Paulus, 1976, pp. 34-40.
[2] Cf. Catecismo da Igreja católica, nº 386; Teilhard de Chardin, L’Énergie humaine, Paris, Seuil, 1963, p. 105; id., Le phénomène humain, Paris, Seuil, 1955, p. 346; G. Crespy, La pensée théologique de Teilhard de Chardin, Paris, Universitaires, 1961, p. 122; E. Martinazzo, Teilhard de Chardin, Roma, Herder, 1965, p. 107.
[3] Cf. A. Moser, Teologia moral: desafios atuais, Petrópolis, Vozes, 1991, p. 27; C. Boff, “O pecado social”, in REB nº 37, 1977, pp. 675-701; Frei Betto, “Dimensão social do pecado”, in Grande Sinal, Petrópolis, Vozes, 1975, pp. 491-502.
[4] Cf. A. Moser, Teologia moral: desafios…, pp. 28-30; id. e B. Leers, Teologia moral: impasses e alternativas, Tomo V, Petrópolis, Vozes, pp. 145-168; B. Häring, Teologia moral para o terceiro milênio, S. Paulo, Paulus, 1991, pp. 46-48; J. B. Libânio, Pecado e opção fundamental, Petrópolis, Vozes, 1975; J.Barreiro, Educação popular e conscientização, Petrópolis, Vozes, 1980, pp. 51-100.
[5] Cf. Doc. de Puebla, nº 437.
[6] Cf. Elza Morante, La Storia, Torino, Giulio Einaudi Editore, 1974, p. 7.
[7] Cf. Doc. de Puebla, nn. 281, 452.
[8] Ibid., nn. 28, 330, 487; B. Hãring, op. cit., pp. 49-74.
[9] Cf. Doc. de Puebla, nn. 63-70; S. Domingo, nn. 9, 44.
[10] Cf. GS 56; Puebla, nº 421.
[11] Cf. CNBB, Ética: pessoa e sociedade, Doc. nº 50, S. Paulo, Paulinas, nº 32.
[12] Cf. Doc. S. Domingo, nn. 252-262; CNBB, op. cit., nn. 20-28, 31.
[13] Cf. D. Ribeiro, O processo civilizatório, Petrópolis, Vozes, 1979, p. 182.
[14] Cf. Doc. de Puebla, nn. 405, 491, 493, 500; S. Domingo, n. 154; Catecismo da Igreja católica, nn. 2113, 2289.
[15] Cf. CNBB, op. cit., nn. 33-37; G. Iriarte, Neoliberalismo sim ou não?, S. Paulo, Paulinas, 1995.
[16] A. Mercadante, “A estabilização e os sem nada”, in Folha de S. Paulo, 21/12/95, p. 8.
[17] Cf. nota 15.
[18] Cf. CNBB, op. cit., nn. 29-30.
[19] Idid., nn. 167, 179; P. C. F., Evoluções demográficas: dimensões éticas epastorais — Instrumentunt laboris, Cità del Vaticano, Libreria Editrice Vaticana.
[20] Cf. Doc. de S. Domingo, nº 209.
[21] Rm 5,20.

Pe. José Benedito Simão

Defesa da família: casa e terra
 Miqueias, termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica, nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, a cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército.


Ao abrirmos o livro do profeta Miqueias, deparamo-nos com fortes denúncias e julgamentos severos contra as autoridades do seu tempo. À luz de seu sofrimento e de sua mística, o profeta acredita que Javé, o Deus da vida, não compactua com a realidade de injustiça. No século VIII a.C., Judá passou por momentos muito difíceis, como guerras constantes, expropriação de produtos e de terras dos camponeses, recrutamento para os exércitos e para as obras públicas.
A situação em que vivemos não mudou muito. Os conflitos em torno da posse da terra continuam e muitas pessoas são assassinadas por defenderem o direito à terra. Enfrentamos altas tributações no campo e na cidade, e as autoridades políticas defendem seus próprios interesses. Cresce o desemprego e a violência, o que faz o medo e a insegurança se tornarem parte do nosso cotidiano. Impera a lógica do “salve-se quem puder”. Com os pés fincados no século VIII a.C. e em nossa realidade, queremos reler a profecia de Miqueias, buscando luzes para iluminar a nossa pastoral.
Como porta-voz da população camponesa, esmagada pelo sofrimento, Miqueias grita:
Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso, não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês arrancam a pele das pessoas e a carne de seus ossos. Vocês são gente que devora a carne do meu povo e arranca suas peles; quebra seus ossos e os faz em pedaços, como um cozido no caldeirão. Depois, vocês gritarão a Javé, mas ele não responderá. Nesse tempo, ele esconderá o rosto, por causa da maldade que vocês praticaram (Mq 3,1-4).[1]
Podemos ouvir a voz do profeta nos capítulos 1-3, oráculos escritos no fim do século VIII a.C., período no qual a Palestina era dominada pelo império assírio. Com base nesses capítulos, é possível enxergar a dura realidade do povo, esmagado pelos tributos entregues ao império e aos dirigentes de Judá. Além disso, o povo era explorado pelos fazendeiros, militares e comerciantes, com a sucessiva perda de seus próprios direitos: família, casa e terra (2,1-11). O profeta denuncia a absoluta miséria e a opressão de seus irmãos, que carinhosamente chama de “meu povo” e também “meus ossos”.
Conhecendo o profeta Miqueias
Palavra de Javé que veio a Miqueias de Morasti, nos dias de Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, sobre o que ele viu a respeito de Samaria e de Jerusalém (Mq 1,1).
O primeiro versículo do livro de Miqueias situa a sua atividade em três reinados dos reis de Judá: Joatão (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C.) e Ezequias (716-687 a.C.). Mas, segundo a informação do livro sobre a destruição da Samaria (Mq 1,2-7: 722 a.C.) e a invasão de Judá pela Assíria (Mq 1,8-16: 701 a.C.), Miqueias atuou principalmente entre 725-701 a.C., no reino do Sul. Nesse período, Judá estava sendo ameaçado e devastado pela Assíria.
Miqueias, termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica, nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, a cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército. Morasti estava localizada na planície da Shefelá, a região agrícola mais fértil e produtiva de Judá. Nessa área havia numerosa criação de ovelhas e grande produção de trigo e cevada, por isso os conflitos e grilagens ali eram frequentes e causavam sérios problemas e sofrimentos aos pequenos agricultores.
Gat era uma das cidades fortificadas, junto com Soco, Laquis, Maresa e Odolam, em um círculo de dez quilômetros, para proteger a capital Jerusalém (Mq 1,8-16). Era evidente em Morasti-Gat a presença constante de militares e funcionários da corte de Jerusalém, os quais cometiam crimes de abuso de poder para cobrar impostos, recrutar camponeses e extrair seus produtos agrícolas.
Além da violência diária, a região de Morasti, quase na fronteira do reino de Judá com a Filisteia, sofreu vários conflitos militares com os filisteus e os assírios no tempo de Miqueias. Conflitos de terra cobiçada e expropriada, produtos extraídos, cobrança de impostos, recrutamento, trabalho forçado, corrupção, guerras, violência, muito sofrimento, essa é a realidade que cerca o “meu povo” (do profeta Miqueias).
Tal realidade transparece nos oráculos do profeta: “Cobiçam campos, e os roubam; querem uma casa, e a tomam. Assim oprimem ao varão e à sua casa, ao homem e à sua herança” (Mq 2,2); “Prestem atenção, governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade” (Mq 3,9b-10). É o linguajar duro e concreto de quem vive no meio do povo espoliado e exprime sua dor e ira contra os poderosos. O estilo rural do profeta o torna semelhante a Amós, também profeta do povo do campo, no reino do Norte.
Miqueias e Isaías foram profetas do mesmo período, no reino do Sul, Judá. Isaías foi educado no templo e na cidade de Jerusalém, local de sua atuação profética. Miqueias, por sua vez, vivia na aldeia do interior de Judá e pode ter sido um agricultor, um ancião, representante de um lugarejo. Atuou como porta-voz das pessoas oprimidas contra o grupo dirigente: chefes, governantes, sacerdotes e profetas de Jerusalém (Mq 3,11). Diferentemente dos profetas da corte, ele não se deixou corromper pela ganância e pelo lucro, mas se autoafirmava como homem “repleto de força, do espírito de Javé, do direito e da fortaleza para denunciar a Jacó o seu crime e a Israel o seu pecado” (Mq 3,8).
Pisando o chão de Miqueias
Vocês expulsam da felicidade da casa as mulheres do meu povo, e tiram dos seus filhos a dignidade que eu lhes tinha dado para sempre (Mq 2,9).
A família e a casa são as principais vítimas: as mulheres expulsas da casa, espaço fundamental da vida, deixando as crianças sem direito à herança. O tempo de Miqueias foi um dos mais difíceis na vida do povo do reino de Judá. Vários acontecimentos internos e externos causaram espoliação e violência contra os camponeses nesse período.
No cenário internacional, aconteceu a expansão do império assírio, sob o comando de Teglat-Falasar III (745-727 a.C.). Esse império viveu um momento de reflorescimento, aumento de força e imperialismo, buscando obter o domínio dos pequenos países, também da Síria e da Palestina, por volta de 740 a.C. Para impedir o avanço da Assíria, Israel (Efraim) fez aliança com o rei de Aram (Síria), em 735 a.C. Os dois reinos, incluindo cidades filisteias e arameias, tentaram obter o apoio de Judá. Porém, Acaz, rei de Judá, não aceitou entrar na coalizão contra a Assíria. Síria e Israel empreenderam guerra contra Judá.
Esse movimento ficou conhecido como a guerra siro-efraimita (735-734 a.C.). Foi uma guerra desastrosa para o povo de Morasti-Gat, a região da Shefelá, que foi palco de diversas guerras. Essa região enfrentou guerra, pilhagem, violência contra a família, a casa e a terra do “meu povo”! Diante do avanço das tropas da Síria e de Israel, Judá pediu proteção ao império assírio. A partir desse momento, Judá se submeteu e se tornou vassalo da Assíria, pagando tributos. Mais cobrança e espoliação contra a população camponesa!
Teglat-Falasar III pôs fim à insurreição dos países aliados, destruindo Damasco, capital de Aram, e tomando posse das cidades estratégicas de Israel (2Rs 15,29). Em 727 a.C., após a morte de Teglat-Falasar III, seu filho, Salmanasar V (726-722 a.C.), assumiu o trono da Assíria. Nessa mudança, Israel se revoltou de novo contra a Assíria. Salmanasar V invadiu Israel em 724 a.C. e sitiou a cidade de Samaria, capital do Norte. Em 722 a.C., seu filho, Sargon II (722-705 a.C.), apoderou-se da cidade e deportou parte da população para a Mesopotâmia e a Média. Foi o fim do reino do Norte (722 a.C.).
E o que aconteceu com o reino do Sul, Judá? Com a queda da Samaria, começou um novo período em Judá:
a) Muitos israelitas da Samaria fugiram para Judá, incluindo um grupo com bons recursos. Novos assentamentos se formaram na área rural e houve grande aumento populacional nas cidades principais, como Laquis e Beersheva. Nesse período, a população de Jerusalém, por exemplo, aumentou de mil para 15 mil habitantes;
b) Com o desaparecimento do poderoso Estado de Israel, houve crescimento e expansão de Judá, especialmente por causa da intensificação da atividade econômica: azeite e vinho no mercado internacional, a indústria de cerâmica etc. Judá progrediu e prosperou!
Mas, como sempre, o desenvolvimento beneficiou apenas os ricos e poderosos de Jerusalém. O aumento populacional provocou uma corrida selvagem às terras e casas: “Cobiçam campos, e os roubam; querem uma casa, e a tomam” (Mq 2,2). Com o aumento do comércio internacional, os governantes intensificaram a espoliação dos produtos dos camponeses. Para isso, utilizaram até a religião.
Para aumentar os recursos e o controle, o rei Ezequias fez a “reforma religiosa”, promovendo o movimento de centralização: por exemplo, declarou o culto, o sacrifício e a festa somente no templo de Jerusalém, em nome de Javé oficial do Estado (cf. 2Rs 18; Dt 13). Oprimiu e enfraqueceu os santuários do interior, centro religioso e econômico dos camponeses. Mais produtos, comércio, tributos para os ricos e poderosos de Jerusalém e, ao mesmo tempo, mais corrupção, roubo e violência contra o povo do campo: “seus sacerdotes ensinam a troco de lucro e seus profetas dão oráculo por dinheiro” (Mq 3,11).
A ambição e a ganância levaram os governantes a planejar a revolta contra a Assíria. Como preparação para a guerra, o rei Ezequias executou várias novas obras e reformas:
a) Um novo muro para a proteção dos novos bairros na capital;
b) Um canal para levar, para dentro dos muros até a piscina de Siloé, a água da fonte de Geon (2Rs 20,20; Is 22,11);
c) O fortalecimento das cidades fortificadas, como Laquis, entre outras.
Tudo isso pesou sobre a vida dos camponeses, o que implicou em mais tributos, trabalhos forçados (corveia) e recrutamento militar. Em 713 a.C., as cidades-estados filisteias promoveram a rebelião contra a Assíria, da qual Ezequias participou. Em 711 a.C., Sargon II conseguiu rechaçar e controlar os estados rebeldes. Judá escapou desse destino porque se retirou da coligação a tempo e mais uma vez se submeteu à Assíria, pagando pesados impostos. Todavia, os governantes de Jerusalém não desistiram de sua ambição e expansionismo.
No ano de 705 a.C., morreu Sargon II, que foi substituído por Senaquerib (704-681 a.C.). Ezequias aproveitou-se desse momento de transição e crise da Assíria e promoveu uma guerra contra as cidades filisteias até Gaza, recuperando, assim, um território perdido para a Assíria (2Rs 18,8). Logo depois, ele mesmo, com o apoio do Egito, liderou um novo movimento antiassírio e entrou em guerra contra as cidades filisteias. A reação da Assíria foi violenta.
Em 701 a.C., Senaquerib rechaçou o Egito, invadiu Judá, conquistou 46 cidades fortificadas, cercou Jerusalém e exigiu a rendição de Judá (Mq 1,8-16; 2Rs 18,13-16). Essas guerras atingiram diretamente o povo de Morasti-Gat, uma das cidades fortificadas. O cenário é de devastação: saques, violência, destruição das famílias, casas e tomada de suas terras!
Enfim, o profeta Miqueias viveu como camponês em uma pequena vila, Morasti-Gat, em fins do século VIII a.C. A situação ia de mal a pior… Violência, espoliação, presença de militares e de oficiais nas fortalezas da região, tributo, corrupção, empobrecimento, exploração e desapropriação de terras dos camponeses. Mais guerras e devastação. As palavras de Miqueias apontam o principal gerador desses males: “Prestem atenção, governantes de Israel (…), que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade” (Mq 3,9b.10). Ambição e ganância! O grito de Miqueias foi lembrado pelos anciãos até no tempo do profeta Jeremias, cerca de cem anos depois da morte de Miqueias: denúncia contra os governantes que edificam Jerusalém com o sangue dos camponeses (Jr 26,1-24). Ao ler as palavras de Miqueias, podemos sentir a dor do seu povo. Vamos colocar nosso coração e nossos pés junto à vida sofrida da população camponesa de ontem e de hoje.
Conhecendo a redação e a estrutura do livro de Miqueias
Como todos os textos da Bíblia, o livro de Miqueias agrega palavras do profeta e da tradição ao longo de vários séculos. Os capítulos 1 a 3 remontam à pregação de um profeta judaíta, de Morasti-Gat, do século VIII a.C., sobretudo no reinado de Ezequias (cf. Jr 26,18). É uma pregação crítica, que afirma que os ricos e os poderosos de Jerusalém serão castigados. Os capítulos 4 a 7, no entanto, são acréscimos de outros autores, temas e preocupações.
Portanto, é possível estabelecer o seguinte quadro:
  1. Palavra de outro grupo profético do Norte, no século VIII a.C. (Mq 6,1-7,7):
– “Pois eu fiz você subir da terra do Egito, o resgatei da casa da escravidão e mandei Moisés, Aarão e Míriam à frente de você” (Mq 6,4).
– “Você obedece às ordens de Amri e a todas as práticas da família de Acab, e vive conforme os princípios dela” (Mq 6,16).
Em comparação com Mq 1 a 3, Mq 6,1-7,7 apresenta seu próprio destinatário, teologia e linguagem:
a) O texto nunca menciona Judá, Jerusalém e Sião do reino do Sul. Fala de Amri e Acab, principais reis do reino do Norte;
b) A principal perspectiva teológica de Mq 6,1-7,7 é a tradição de êxodo, uma das características dos oráculos dos profetas do Norte (Os 11,1-6);
c) Mq 6,1-7,7 utiliza sua própria terminologia, como o termo “príncipe”, sar em hebraico (Mq 7,3).
É possível que Mq 6,1-7,7 tenha sido escrito pelos profetas do Norte. Por ocasião da queda da Samaria, eles se refugiaram no reino do Sul, trazendo consigo suas tradições, e se uniram com o grupo de Miqueias. O texto registra a denúncia contra os crimes cometidos por governantes do Norte, como Amri, Acab e seus respectivos seguidores, entre 887 e 722 a.C. Semelhante à denúncia de Oseias, profeta do Norte, afirma que a infidelidade e a injustiça atingem a casa e as relações familiares mais íntimas (Os 7,5-6).
2. Releituras exílicas e pós-exílicas (Mq 2,12-13; 4,1-5,14; 7,8-20):
– “Eu reunirei você todo, ó Jacó. Recolherei o que sobrou de você, ó Israel!” (Mq 2,12a).
– “Porque de Sião sairá a Lei e de Jerusalém virá a palavra de Javé” (Mq 4,2b).
– “Mas você, Belém de Éfrata, tão pequena entre os clãs de Judá! É de você que sairá para mim aquele que deve governar Israel!” (Mq 5,1a).
– “É o dia de reconstruir seus muros! Nesse dia, suas fronteiras serão mais amplas” (Mq 7,11).
O tema de grande importância nos capítulos 4 e 5, junto com 2,12-13 e 7,8-20, é o da restauração de Sião, típico dos autores do exílio e do pós-exílio, ao passo que o profeta Miqueias de 1 a 3 prega o castigo e a destruição do templo e de Sião. Destacam-se, em Mq 4 a 5, as questões do exílio: o cerco de Sião, a destruição de Jerusalém, o sofrimento do exílio, o messias, Javé como pastor, a esperança do resgate, a restauração do templo. Em Mq 2,12-13, o resto de Israel. E em Mq 7,8-20, a reconstrução da nação em torno de Jerusalém e a confiança no Deus misericordioso.
No período do exílio (587-538 a.C.), quando Jerusalém estava em ruína, os profetas ligados a Sião fizeram a releitura das palavras de Miqueias com a preocupação pelos sobreviventes (o resto de Israel) e pela restauração de Jerusalém. O processo de releitura durou até mais ou menos o ano 500 a.C. com o forte movimento da centralização no templo de Jerusalém: “Vamos subir para o monte de Javé, para o Templo do Deus de Jacó” (Mq 4,2).
Com as releituras e os acréscimos, o redator final teria organizado o livro alternando ameaças e promessas para moderar a severidade dos oráculos de Miqueias, dando origem à seguinte estrutura:
a) 1,2-2,11 (ameaça) – 2,12-13 (promessa);
b) 3,1-12 (ameaça) – 4,1-5,14 (promessa);
c) 6,1-7,7 (ameaça) – 7,8-20 (promessa).
Como os demais escritos proféticos, o texto de Miqueias recebeu diversos acréscimos. A preocupação dos redatores não estava com a ordem cronológica dos oráculos proféticos, e sim com a mensagem de Deus para o povo do seu tempo. A mensagem principal do redator final do livro de Miqueias é, sem dúvida, a restauração do templo, de Jerusalém e da nação; ao contrário, Miqueias, profeta do povo oprimido pelos governantes de Jerusalém, nunca proclamaria louvor à capital. É importante situar, portanto, cada oráculo em seu devido contexto para entender sua mensagem, sobretudo para escutar o grito de quem defende a terra, a família e a casa para produzir a vida e de quem luta por esses dons.
Algumas indicações para a leitura da profecia de Miqueias
A ambição e a ganância dos grupos dirigentes de Jerusalém sobrecarregaram o povo, especialmente a população camponesa, que sofreu com tributos pesados, endividamento, violência, perda da terra, desintegração familiar-comunitária. Miqueias, partilhando da mesma sorte de seu povo, foi corajoso e ousado ao proclamar o castigo de Javé para as autoridades civis e religiosas de Jerusalém, bem como a própria destruição da cidade santa.
Ao retomar as palavras de Miqueias, queremos nos deixar conduzir pelo “Espírito de Javé, do direito e da fortaleza” e, com a mesma audácia, denunciar as realidades de injustiças que vivemos hoje. O caminho dos profetas de Javé é a luta pela defesa da justiça e da vida ameaçada, o mesmo projeto de Jesus e o de toda pessoa cristã.
  1. Os poderosos violentam a vida dos pobres
            Miqueias denuncia as autoridades civis e religiosas: “Ouçam isto, chefes da casa de Jacó. Prestem atenção, governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto, que constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes de vocês proferem sentença a troco de suborno. Seus sacerdotes ensinam a troco de lucro e seus profetas dão oráculos por dinheiro” (Mq 3,9-11). A injustiça e a corrupção social começam com as autoridades, atingindo a vida do povo. A população camponesa foi o grupo mais explorado pelas autoridades. Miqueias denuncia chefes, magistrados, profetas e sacerdotes. Que a mesma ousadia do profeta inspire a nossa ação pastoral.
2. Roubo e violência contra os camponeses
            “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder nas mãos” (Mq 2,1). Os poderosos planejam e executam seu plano de expropriação de terras contra camponesas/es. A menção a cobiçar, roubar, tomar e oprimir a herança é forte denúncia contra aqueles que estão realizando desapropriações injustas. E o pior: há profetas e sacerdotes que usam o nome de Deus para justificar os atos dos poderosos. “Terra, casa e família” são elementos essenciais para a sobrevivência da população camponesa (Mq 2,1-3.6-11). Este grito do profeta nos ajuda a ouvir os clamores dos pobres de hoje, que têm seus direitos roubados. E Deus não se faz presente na realidade de injustiça.
3. Uso da religião para alienar as pessoas
Javé assim diz contra os profetas que extraviam meu povo, que anunciam a paz quando têm algo para mastigar, mas declaram guerra contra os que nada lhes põem na boca: Por isso vocês terão noite em lugar de visões; escuridão em vez de oráculo. O sol se esconderá sobre esses profetas, a luz do dia se apagará sobre eles. Os videntes ficarão confusos. Todos cobrirão a barba, porque Deus não responderá (Mq 3,5-7).
No Antigo Israel havia profetas que eram funcionários dos grupos dirigentes e, em nome de Deus, defendiam o projeto de opressão do Estado. Quem são os profetas de hoje que, mesmo correndo risco de morte, defendem condições de vida digna e são capazes de erguer suas vozes contra as realidades de morte?
4. Praticar o direito, amar a misericórdia e caminhar com Deus
O grupo profético recorda a fidelidade de Deus ao longo da história do povo, desde a saída do Egito, passando pelo deserto, até a chegada à terra prometida. Deus não quer um culto separado da vida: “Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que Javé exige de você: praticar o direito, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus” (Mq 6,8). É um convite a viver o direito e a misericórdia. Deus não quer uma religião baseada em práticas legalistas, mas uma vivência que nos impulsione para o compromisso com a transformação social.
5. Reavivando a esperança do povo
No tempo exílico e pós-exílico, Israel sonha com paz, que Mq 4,3 afirma: “De suas espadas vão fazer enxadas, e de suas lanças farão foices. Um povo não vai mais pegar em armas contra outro, nunca mais aprenderão a fazer guerra”. É uma sociedade em que Javé, finalmente, reina como Deus da justiça e da misericórdia, um tempo sem dominação, opressões e guerras. Ao invés de armas de guerras, instrumentos de trabalho, organização e cuidado com a natureza para produzir alimentos saudáveis para a vida. Guerra jamais! É um sonho e uma crítica contra o militarismo do Estado e as sociedades injustas no coração das famílias dos refugiados que buscam lugar para viver no mundo de hoje.
Pisamos no chão sagrado da comunidade do profeta Miqueias e da tradição que se formou ao redor desse profeta. Inspirados em sua ação, pedimos que o Senhor da Vida desperte em nós o desejo de ser profetisas e profetas da justiça, do direito e da misericórdia. Que em nossa caminhada possamos dar continuidade à missão de Jesus e unir nossas forças na construção do Reino de Deus.
Bibliografia (referente aos três artigos sobre o livro do profeta Miqueias).
CUFFEY, Kenneth H. The literary coherence of the book of Micah. New York: Bloomsbury, 2015.
FINKELSTEIN, Israel. O reino esquecido: arqueologia e história de Israel Norte. São Paulo: Paulus, 2015.
KAEFER, José Ademar. A Bíblia, a arqueologia e a história de Israel e Judá. São Paulo: Paulus, 2015.
NOVA BÍBLIA PASTORAL. São Paulo: Paulus, 2014.
SICRE, José L. A justiça social nos profetas. São Paulo: Paulus, 1990.
SMITH, Ralph L. Micah-MalachiIn: METZGER, Bruce M. (Ed.). Word Biblical Commentary. Texas: Word Books, 1987. v. 32.
WILSON, Robert R. Profecia e sociedade no Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 1993.
ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Miqueias: voz dos sem-terra. Petrópolis: Vozes, 1996.
[1] Os textos bíblicos citados nos artigos sobre o livro de Miqueias foram extraídos da Nova Bíblia Pastoral, São Paulo: Paulus, 2014.

Maria Antônia Marques

Assessora do Centro Bíblico Verbo e professora na Faculdade Dehoniana, em Taubaté, na Faculdade Católica de São José dos Campos e no Itesp, em São Paulo. Juntamente com o Centro Bíblico Verbo, tem publicado todos os anos pela Paulus um subsídio para reflexão e círculos bíblicos para o mês da Bíblia. O do ano de 2016 é Defesa da família: casa e terra – entendendo o livro de Miqueias. E-mail: ma.antoniacbv@yahoo.com.br
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