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  A Boca revela o coração se é bom ou não



Queridos irmãos e irmãs, estamos celebrando no próximo domingo o 8º Domingo do Tempo comum, antes da quaresma. Infelizmente somos levados a julgar os outros pelas aparências. Deus não é assim. Sejamos justos em nosso proceder.

Deus nos mostra como dever o nosso agir. Pelas nossas palavras e obra que fazemos, mostramos quem somos de fato.

No livro Eclesiástico (Eclo 27,5-8) Deus nos fala que os defeitos saem da nossa boca, pois ao falar o homem se revela quem é. É um conselho que devemos seguir, ser por dentro para transparecer o que é por for.

Na Primeira Carta de Paulo aos coríntios nos mostra esse lindo hino da Vitória de Cristo, isto é, da vida sobre a morte. Com Cristo a morte não tem a última voz. “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.”(cf. 1 Cor 15, 54-58)

No Evangelho de Lucas (Lc 6,39-45) nos conta parábola que diz: "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? E ainda dá recomendações sobre como deve ser o discípulo dele dizendo: se o discípulo for bem formado é igual ao mestre e ainda que o discípulo não pode ser mais que mestre.

Não podemos pensar tirar um cisco nos olhos dos irmãos se nós tivermos trava neles que nos impede de ver as coisas como são. Devemos pensar que uma árvore má não pode dar bons frutos se não maus. Nada de bom sai em lugar que é mau. O nosso coração é um depósito de boas e más intenções, pois o que nos leva ao pecado sai da nossa própria boca e da bondade também. Cuidemos de ter bom sentimento que vem do nosso coração para edificarmos a Igreja.

Devemos fazer o bem sempre e praticar a justiça, o amor e a misericórdia.

Que esta liturgia deste domingo que antecede a quaresma sejamos atento ao bem e que preparemos bem para depois celebrar a Páscoa.

Oremos pelo nosso Papa Francisco para que pela vontade Deus se recupere.

Tudo por Jesus, nada sem Maria!

Missionarius Christi semper.

Jose B. Schumann Bacharel em Teologia

   Quem vai atirar a Primeira Pedra



Queridos irmãos e irmãs, vamos celebrar no dia 6/4 o último domingo da Quaresma. Foram momentos fortes de oração, penitência e jejum para que possamos ter um coração misericordioso e não juiz de alguém.

Somos convidados a ter fraternidade, não julgar alguém e nem atirar pedras em pessoas que caíram no pecado. O mal deve ser combatido com o bem, com a tolerância e amor.

A quaresma é propício para isso para que na Páscoa sejamos livres e melhores como pessoa, como cristão e como um bom exemplo que está em comunhão com Cristo, com os irmãos e na comunidade.

Isaías nos mostra um anúncio da libertação do Povo do exilio. Lá foram momentos difíceis, mas Deus ouviu a prece do povo. Agora estão no êxodo para a terra Prometida que Deus tinha falado e feito a aliança com povo no Deserto. Deus é fiel.

Esse caminhar do povo nos remete para quaresma que é um caminho para a vida nova sem pecado e viver a graça pascal que nos faz pessoas novas em comunhão com Deus. Devemos o que nos faz ser presos no mundo onde o mal não nos deixa livres.

Não podemos deixar ser escravizados neste mundo complicado pela violência, pelo ódio, terror e mal. (Cf. Is 43,16-21)

Na carta de Paulo nos exorta com a sua opção por Cristo, pois é isso que lhe interessa e o resto ele considera lixo. Assim é a melhor maneira de sermos melhores e santos. Fazer de nossa vida uma oblação agradável a Deus.

Não permitir que o mal nos engane e nem nos deixar se escravizar pelas coisas do mundo que são passageiros. De sim para a vida e não para o pecado que mata. (cf. Fl 3,8-14)

O evangelista João (cf. Jo 8,1-11) nos fala da cena de Jesus com as pessoas que queriam apedrejar a pecadora. Jesus é misericordioso com ela e diz quem te condenou, ela responde: ninguém senhor, então Jesus fala: eu também não, vai e não peques mais.

Nada passa percebido por Jesus, mas os escribas e os homens da Lei queriam pegar Jesus de qualquer jeito. Mas não era hora ainda, Jesus é o senhor do tempo.

Muitas vezes nós queremos julgar e atacar outros sem nos julgar primeiro as nossas atitudes que muitas vezes não batem no que Jesus quer. Devemos buscar a conversão sempre.

Que esta liturgia nos ajude a refletir para que não possamos ser algoz dos nossos irmãos que falham e que a misericórdia de Deus nos abrace. Amém.

Salve Maria e Viva Cristo sempre.

Christi semper sumus!!!

Jose B. Schumann

  O lugar é santo, então "Tira as sandálias..."



Queridos irmãos e irmãs, estamos celebrando neste domingo o 3º Domingo da Quaresma. O apelo que mudemos de vida e convertemos para Deus com uma vida diferente. O que faz a gente ser pessoa nova é o amor, a justiça, a misericórdia e ser um agente de paz.

Para que isso seja realidade é um processo longo, pois temos que desfazer muitas coisa que atrapalha de sermos livres e e sacrifício para acontecer isso. Mas Deus dá a graça. Deus nos manda tirar as sandálias para que só a nossa pessoa entre no caminho santo de Deus.

No livro do Êxodo (3,1-8.13-15) Deus se manifesta através de uma sarça ardente sem se consumir, é uma teofania de Deus para Moisés. Deus fala que o lugar é santo para se aproximar deveria tirar as sandálias, ficam descalços, pisando sobre a terra para significar que somos pó da terra. Assim começa a história do êxodo do povo de Deus. Deserto é o lugar onde podemos conversar com Deus e Ele se deixa encontrar.

O povo precisa tirar todas as coisas que se apegaram no Egito, terra de pagãos e assim purificar as más influências de lá que não deixa a pessoa ser livre e pura. Assim vão começar uma nova vida, mas não é fácil, pois tem que confiar no Deus libertador que foi conduzido por Moisés. Hoje devemos ter a coragem de tirar tudo que não nos deixa livre.

Na Carta aos Coríntios (1Cor 10, 1-6.1-12) nos mostra Paulo que nos faz lembrar dos grandes feitos de Deus ao Povo no deserto. Ele nos alerta dizendo: " Todos comeram o mesmo pão espiritual (o maná) ...Beberam todos a mesma bebida espiritual (água do rochedo) ...

Mesmo de tantas provas que Deus um Deus que cuida e zela o povo dele, mas não assumirá de fato a Aliança e por causa disso morreram e ficaram no deserto não entraram na Terra prometida.

Aqui tem uma observação dele é uma exortação pois não podemos cair na mesma tentação do Povo no deserto. O que importa para nós é a comunhão com Deus, sendo fiel a Lei, viver o amor verdadeiro e partilhar e não apenas cumpridor de ritos e sacramentos sem se comprometer com todos em Deus.

O Evangelista Lucas (Lc 13,1-9) nos fala de dois acontecimentos horríveis como a matança de Pilatos e a queda da torre de Siloé com 18 mortos.  Esses acontecimentos não são castigo de Deus, mas um apelo para que possamos converter e ficar preparados para as fatalidades do mundo sem perder a fé. Devemos querer a salvação que Jesus traz para nós, mas se rejeitarmos, isso será uma tragédia para cada um que recusa a graça da salvação de Cristo.

A parábola da figueira estéril que não dava fruto e Jesus queria que arrancasse e botasse fogo, mas os homens pedem:  "Senhor, deixe ainda esse ano.  Vou cavar em volta dela e colocar adubo...Talvez depois disso, venha a dar frutos...". Jesus aceita, isso demonstra que Deus tem paciência pela nossa conversão e mudança de rumo de vida, isto é do pecado para a graça de uma vida mais santa.

Fazer penitência e reconhecer que é pecador, mas caminharmos no bem para a direção das coisas boas com Jesus na graça do amor de Deus. Não podemos ser figueiras estéreis que não produz frutos mesmo com tanta adesão à comunidade, mas esfriando na fé. Devemos ser cristãos coerentes e como nosso agir testemunhamos Jesus com a nossa vida.

Que esta liturgia nos ajude a entender que é preciso que convertemos  o nosso coração com propósito de vivermos mais unidos a Cristo produzindo bons frutos. Vamos tirar de nós os apegos, tirando as sandálias porque o mundo é lugar santo onde Deus nos chama à conversão e libertação.

Tudo por Jesus, nada sem Maria!

Missionarius Christi semper!

Jose B. Schumann

 Quem vai atirar a Primeira Pedra



Queridos irmãos e irmãs, vamos celebrar no dia 6/4 o último domingo da Quaresma. Foram momentos fortes de oração, penitência e jejum para que possamos ter um coração misericordioso e não juiz de alguém.

Somos convidados a ter fraternidade, não julgar alguém e nem atirar pedras em pessoas que caíram no pecado. O mal deve ser combatido com o bem, com a tolerância e amor.

A quaresma é propício para isso para que na Páscoa sejamos livres e melhores como pessoa, como cristão e como um bom exemplo que está em comunhão com Cristo, com os irmãos e na comunidade.

Isaías nos mostra um anúncio da libertação do Povo do exilio. Lá foram momentos difíceis, mas Deus ouviu a prece do povo. Agora estão no êxodo para a terra Prometida que Deus tinha falado e feito a aliança com povo no Deserto. Deus é fiel.

Esse caminhar do povo nos remete para quaresma que é um caminho para a vida nova sem pecado e viver a graça pascal que nos faz pessoas novas em comunhão com Deus. Devemos o que nos faz ser presos no mundo onde o mal não nos deixa livres.

Não podemos deixar ser escravizados neste mundo complicado pela violência, pelo ódio, terror e mal. (Cf. Is 43,16-21)

Na carta de Paulo nos exorta com a sua opção por Cristo, pois é isso que lhe interessa e o resto ele considera lixo. Assim é a melhor maneira de sermos melhores e santos. Fazer de nossa vida uma oblação agradável a Deus.

Não permitir que o mal nos engane e nem nos deixar se escravizar pelas coisas do mundo que são passageiros. De sim para a vida e não para o pecado que mata. (cf. Fl 3,8-14)

O evangelista João (cf. Jo 8,1-11) nos fala da cena de Jesus com as pessoas que queriam apedrejar a pecadora. Jesus é misericordioso com ela e diz quem te condenou, ela responde: ninguém senhor, então Jesus fala: eu também não, vai e não peques mais.

Nada passa percebido por Jesus, mas os escribas e os homens da Lei queriam pegar Jesus de qualquer jeito. Mas não era hora ainda, Jesus é o senhor do tempo.

Muitas vezes nós queremos julgar e atacar outros sem nos julgar primeiro as nossas atitudes que muitas vezes não batem no que Jesus quer. Devemos buscar a conversão sempre.

Que esta liturgia nos ajude a refletir para que não possamos ser algoz dos nossos irmãos que falham e que a misericórdia de Deus nos abrace. Amém.

Salve Maria e Viva Cristo sempre.

Christi semper sumus!!!

Jose B. Schumann

A Igreja Católica, sob a liderança do Papa Francisco, tem se posicionado contra a pena de morte, considerando-a inadmissível. O Papa Francisco declarou que "a pena de morte é um ataque à inviolabilidade e à dignidade da pessoa" (Discurso ao Congresso Internacional contra a Pena de Morte, 2014). A Igreja acredita que a pena de morte nega a possibilidade de arrependimento e reconciliação, e que a justiça deve buscar a reabilitação do criminoso, e não a sua eliminação. A defesa da vida e da dignidade humana, mesmo daqueles que cometeram crimes graves, não é apenas uma questão de fé, mas também de razão. A pena de morte é um ato cruel e desumano, que não serve para dissuadir o crime ou para promover a justiça. A pena de morte é um sinal de desespero e vingança, que nega a possibilidade de esperança e reconciliação. A sociedade contemporânea, marcada pela violência e pela cultura da vingança, muitas vezes clama por soluções punitivas e retaliatórias. A Igreja, ao defender a vida e a dignidade de cada pessoa, mesmo daqueles que cometeram crimes graves, convida a sociedade a redescobrir o sentido da misericórdia e da justiça restaurativa. A legalização da pena de morte em alguns países representa um desafio para a Igreja, que continua a defender a vida em todas as suas etapas. A Igreja reconhece a complexidade da questão, mas acredita que a vida humana é um valor absoluto, que não pode ser relativizado em função de crimes cometidos. A Igreja também denuncia a cultura de morte, que promove a pena de morte como uma solução para os problemas de segurança pública. Essa cultura, que desvaloriza a vida humana, é contrária aos valores do Evangelho e à dignidade da pessoa humana. A defesa da vida e da dignidade humana é um chamado à conversão e à esperança. A Igreja acredita que é possível construir uma sociedade mais justa e humana, onde a vida de cada ser humano, mesmo daqueles que cometeram crimes graves, seja protegida e valorizada. A Igreja também reconhece o sofrimento das vítimas de crimes graves e de suas famílias. A Igreja oferece apoio e acompanhamento a essas pessoas, buscando promover a cura e a reconciliação. A defesa da vida é um compromisso de toda a comunidade cristã. A Igreja convida os fiéis a se engajarem na defesa da vida, por meio da oração, do testemunho e da ação social. A Igreja também reconhece a importância do diálogo com a sociedade, buscando promover uma cultura de vida que respeite a dignidade de cada ser humano. A Igreja acredita que é possível construir pontes de diálogo com pessoas de diferentes convicções, em busca de um consenso sobre a importância da vida humana. A defesa da vida é um sinal de esperança para a humanidade. A Igreja acredita que a vida humana é um dom precioso de Deus, e que cada ser humano, mesmo aqueles que cometeram crimes graves, tem um valor infinito. Trechos bíblicos e citações de documentos da Igreja: "Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que ele se desvie dos seus caminhos e viva" (Ezequiel 33:11). "A pena de morte é cruel e desumana, e não é necessária para proteger a sociedade" (Evangelium Vitae, 56).

Envolto em panos Jesus estava no presépio



Queridos irmãos e irmãs, hoje é Natal do Senhor, um menino Deus está no nosso meio. A humanidade tem um Deus conosco, esse é um grande presente. Ele é o nosso irmão e assim tornamos filhos e filhas de Deus

É uma noite de alegria grande que só Deus pode nos proporcionar.

No Livro do Profeta Isaías nos fala que a região que estava numa escuridão e ela foi dissipada pela grande luz.

Quem é essa luz? É a luz irradiada de um menino, o príncipe da Paz. É um descendente de Davi. Vai ter sabedoria mais que Salomão valente igual a Davi. Ele traz paz verdadeira e justiça duradoura.

Essa profecia deu uma falsa interpretação, pois o povo achava que era um rei forte e poderoso. Mas Não é um Rei servidor e que solidariza com a humanidade toda.(cf. Is 9,1-6)

Na carta de São Paulo aos Tessalonicenses que todos nós devemos acolher a salvação de Deus que vem através de Jesus. O que é viver a salvação? É renunciar aos valores do mundo e assumir a promessa na proposta do Menino Deus pobre e nascido em Belém, (cf. Ts 2,11-14)

O evangelho de Lucas nos narra como foi o nascimento de Jesus. Numa cidade pequena e desconhecida, nasce o Messias. Aquele que foi anunciado pelos profetas, e é da descendência de Davi. O lugar é humilde, nasci numa gruta rodeado por animais. Qual sinal que foi dado?  O sinal é um menino enrolado em panos e deitado na manjedoura.

Ele vem na simplicidade e pobreza, e em uma família vai crescer e se desenvolver. Quem são as primeiras testemunhas são os pastores pobres e humildes. São os marginalizados, têm sensibilidade e creram nessa boa notícia: um menino Deus está no nosso meio, trazendo a paz para todos que a querem.

A libertação chega aos que mais sofrem e estes as recebem com alegria imensa. A comunidade nova se estabelece na recepção do menino no Natal. Que Natal extraordinário. Devemos desamarrar todas as nossas armadilhas do mundo que não nos deixa livre. . (cf. Lc 2,1-14)

Natal é o tempo da vida nova e tudo se renova. A esperança aos doentes, aos presos, aos cegos, aos deficiente e todos que querem ser tocados por este menino luz Jesus, nosso Senhor.

A notícia boa é a libertação chegando a todos, principalmente aos que mais precisam. Devemos está com olhos abertos e um coração abertos ao Deus da vida e que possamos sempre acolher Jesus na nossa vida. Amém

Hoje se inicia o ano jubilar e que possamos vivê-lo com nova perspectiva e de renovado ardor missionário de Cristo. Vamos levar essa boa notícia a todos Amém.

Feliz Natal para todos. Missionarius Christi semper.

 Jose B. Schumann

  Uma mulher humilde e simples será a Mãe do Salvador



Queridos irmãos e irmãs estamos celebrando o 4º Domingo do Advento. Nesta caminhada do Advento acompanhamos quatro pessoas, todas preparam a vinda do Senhor. São eles: Jeremias, Baruc, Sofonias, Miquéias, João Batista...

Hoje temos o privilégio de acompanhar Maria, a mulher que dependeu da nossa Salvação. Sem o sim dela jamais Deus poderia se encarnar entre nós. Isso é incrível. Agora nós que estamos prestes a celebrar o natal do Senhor não podemos esquecer desta mulher corajosa, simples e humilde Maria. Não se pode pensar no plano de Salvação de Deus sem ter Maria nele. 

Maria é a mãe de Jesus e o próprio Jesus nos deixou como Mãe na pessoa do apóstolo João aos pés da cruz antes Dele morrer.

 A liturgia bíblica nos fala deste grande acontecimento que é o Natal, a festa do amor da simplicidade e partilha.

No livro do profeta Miquéias nos mostra o ambiente humilde onde irá nascer o nosso salvador, o Messias esperado.

O contexto histórico era que Israel passava por guerras e no exilio, sem liberdade; agora tem uma esperança, um Messias virá e trará todo povo na paz. Uma paz que dura porque vem do Senhor. Ele não nascera numa cidade grande e poderosa, mas numa cidade simples e sem importância. Um povoado pobre e desconhecido e sem importância, é a Belém.

 Se quisermos celebrar bem o Natal devemos ir a Belém do nosso coração, viver a simplicidade e o amor. Ele não virá de uma família rica e nem poderosa, mas de uma família pobre e aberta a Deus. A escolha de Deus é a simplicidade, pobreza e serviço. Pobreza aqui é sinal de desprendimento e confiança em Deus sempre. Pois que é o senhor do Tempo é Deus. (cf. Mq 5,1-4a)

Na carta aos Hebreus nos lembra que Cristo se ofereceu ao Pai de modo pleno para cumprir a sua vontade. Nossa trajetória aqui na terra é dá valor a nossa existência como oração, trabalhos e tudo que fazemos é para cumprir a vontade de Deus nesta vida. Ser um embaixador de Deus na terra, levando a sua palavra de espera na atitude de bons samaritanos com bálsamos regeneradores de alma. (cf. Hb 10,5-10)

O evangelista Lucas nos mostra o encontro de Duas mulheres, uma, na velhice, concebe uma filha na graça de Deus e a outra o próprio Deus se encarna em seu ventre para ser a mãe do Salvador. Mesmo grávida vai a serviço de sua prima. Ele é a mulher servidora que vai ao encontro da sua prima que necessitava de cuidados por ser idosa e esperando um filho. A nossa admiração por Maria está em ser uma mulher corajosa, servidora e mãe presente do Filho, nosso Salvador.

Quando estava na casa de Isabel, ela foi às pressas, isso nos quer dizer que o serviço ao que precisa não pode esperar. Assim está escrito: "Maria se põe a caminho... e vai às pressas à casa de Isabel". Logo que ela chegou foi saudada por Isabel que diz: Shallon". Shallon sintetizava o conjunto dos bens prometidos por Deus ao Povo... è a paz verdadeira que vem até nós. Maria era e é a mensageira da "PAZ". Maria é bendita porque teve fé e creu no que Deus quis dela através do anjo Gabriel.

Deus, na história da nossa salvação, serviu-se das Mulheres como Rute e Jael. Maria é a arca que vai, pois o seu filho está nela. "Donde me vem a honra de que a mãe do meu Senhor me visite?"

Esta palavra nos lembra quando Rei Davi fala ao receber a Arca da Aliança em Jerusalém. Deus sempre vem ao nosso encontro. Precisamos ter olhos e coração na fé em Deus sempre. (cf. Lc 1,39-45)

Queridos irmãos e irmãs, devemos valorizar as boas visitas, pois Deus sempre usa pessoas para essa missão de levar as boas novas de fé e restauração. Agora vamos celebrar o Natal, que sejamos portadores da esperança, de bálsamos regeneradores de alma que devem estar unidas a Deus na paz, na alegria apesar das nossa fragilidade humanas.

Que esta liturgia nos ajude a ir a Belém ver Jesus na manjedoura de nossos corações. As luzes da esperança, da fé e de amor iluminam esta noite santa de Natal. Na véspera do Natal, vigília de Natal, vamos celebrar a abertura do ano jubilar e que 2025 seja de bênçãos e encontros com Deus juntamente com todos, principalmente nas nossas comunidades cristãs.

Feliz Natal!!!

Missionarius Christi semper!!!

 Tudo por Jesus, nada sem Maria.

 Jose B. Schumann

 


Teóloga, freira e feminista são palavras recorrentes na biografia e descrição de Ivone Gebara. No entanto, elas não dão a dimensão de como a intelectual coloca mais perguntas do que respostas em uma roda de debates. Gebara acrescenta: é uma livre pensadora. Como tal, nos provoca a inquietude de quem tem certezas colocas em dúvida. Surpreende pela clareza com que expõe ideias, revisita conceitos e prega pela mudança de estratégias da luta feminista no diálogo com as religiões, com o Estado e com a sociedade. "Os conceitos se gastam. Estamos em uma espécie de círculo vicioso, principalmente nós da esquerda. Precisamos começar a pensar de novo", diz.

Uma das principais provocações, com relação à luta histórica por Estado laico, pauta levantada principalmente pelo movimento feminista, ela propõe virar a mesa e ampliar o conceito e análise feita: "Quando falamos de Estado laico eu tenho receio de que estamos sendo simplistas. O país não é laico, o país é religioso. Precisamos rever a luta pelo Estado Laico e o papel das religiões", a fim de incluir diferentes modos de ver e se situar no mundo. Para ela, isso pode ajudar o deter a força do fundamentalismo. Convidada para a mesa de abertura do curso Caleidoscópio: Corpos livres, Estado Laico - Feministas contra o fascismo e o fundamentalismo, realizado pela organização feminista SOS Corpo, Gebara participou atentamente de todos os momentos dos três dias de evento. Como se fosse uma jovem curiosa, não houve um espaço em que a senhora de 73 anos não tomasse notas e prestasse atenção a tudo dito - desde os debates sobre cultura periférica e fundamentalismo, a relação da religiosidade indígena, de matriz africana e as igrejas neopentecostais.

Sendo uma das fundadoras da Teologia Feminista, católica, e referência no campo de luta de mulheres religiosas que defendem o aborto, os direitos sexuais e reprodutivos, convidamos Ivone a refletir sobre os desafios do presente para as feministas no diálogo interreligioso e geracional.

O que é a teologia feminista e, nos dias de hoje, o que a teologia feminista pode trazer para o movimento feminista neste contexto de avanço do fundamentalismo, muito vinculado à figura de Bolsonaro, e tendo as religiões neopentecostais evangélicas  também como expoentes? 

A Teologia Feminista nasce inspirada pelo movimento feminista, ou seja, nasce do momento em que algumas mulheres interessadas pelo feminismo e militando na causa feminista percebem o quanto especialmente as religiões de corte monoteísta como o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, o quanto essas religiões fundamentam uma opressão das mulheres, um controle dos corpos femininos. Eu militei muito tempo na Teologia da Libertação e ela não denunciava isso, e eu não percebia enquanto não me aproximei do feminismo. O que a Teologia Feminista faz é mostrar que aquilo que a Teologia oficial, digamos patriarcal, chama de Deus, de Ordem, de Natureza são construções e construções que são marcadas por poderes. Um poder de homens sobre homens, mas um poder de homens sobre mulheres, poderes hierárquicos, poderes de raças, por exemplo, etnias brancas contra negras.

Então essa percepção a gente tinha na sociedade, mas a gente não percebia que ela se reproduzia na religião também. E a religião, por sua vez, dá todo um suporte, digamos, teórico, metafísico, transcendental, para a manutenção de uma ordem injusta.

A Teologia Feminista é importante porque ela desconstrói essa masculinidade do divino e essa ordem essencializada, de que tem que ser assim, a ordem da sexualidade, da maternidade. Ela desconstrói os modelos estabelecidos como modelos próprios da natureza ou modelos queridos por Deus. Evidentemente, essa Teologia não é do agrado da política atual, nem mesmo das religiões marcadas pelo patriarcalismo.

Nós frisamos muito mais as relações éticas, em vez de ficar o tempo todo falando que Jesus é a segunda pessoa da trindade, o filho de Deus, “está sendo à direita de Deus Pai todo poderoso”, a gente frisa uma dimensão ética. Ou seja, “eu tive fome e me deste de comer, eu tive sede me deste de beber”. Isso é uma relação ética. “Eu estava nu, você me cobriu. Eu estava com fome, você partilhou seu pão, eu estava sem casa, você me hospedou”. O que nós fazemos é em vez de relacionar ao aspecto mágico, próprio muitas vezes da religião, que tem seu valor, o aspecto mítico, mas nós reinterpretamos à luz de relações éticas, solidárias, que ajudam as construções das relações humanas.

Observando o mundo hoje quais seriam as grandes bandeiras que o feminismo, junto com a contribuição que a  Teologia Feminista traz, precisam enfrentar? São bandeiras diferentes daquelas que a senhora pensou junto com outras mulheres que pensaram a Teologia Feminista em primeiro lugar? O que mudou e o que permanece desde aquelas pautas originárias?

Acho que mudou porque o contexto dos anos… 80. Eu comecei a ser teóloga feminista nos anos 80, mas antes de mim havia outras, por exemplo, na Alemanha, eu li muito uma teóloga que se chama Dorothee Sölle e ela me impressionou muito porque fez uma crítica do nazismo a partir da crítica feminista. Quando li um texto dela que saiu numa revista que se chama Concilium eu fiquei tão impressionada porque eu nunca pude imaginar o quanto os ditadores da América latina precisavam da imagem de um Deus todo poderoso. Então, ela falava da Alemanha, de como muitos cristãos não fizeram absolutamente nada. Teve alguns que foram até presos porque criticaram o nazismo, mas as igrejas cristãs nãos e posicionaram de uma maneira categórica, mesmo sabendo da quantidade de judeus que morreram nos campos de concentração, nas câmaras de gás. E o nazismo é cristão, imagine isso. Quer dizer, nós começamos a perceber que esse esquema de autoridade que se reproduzia de muitas formas, às vezes menos drásticas, mas se reproduzia no controle dos nossos corpos. E também na exclusão dos corpos pobres, miseráveis e a gente continuava dizendo “Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra”. E olha aí os favelados, as pessoas que vivem debaixo de viadutos, crianças sem escola, crescimento de inúmeros imigrantes que tem que sair dos seus países. São outras formas atualizadas de extermínio. Não é mais o campo de concentração, mas é um extermínio que se move, que morre nos mares.

Sistemático, não é?

Morre de fome, é outro tipo de extermínio. Essa lzu que ela me deu me fez pensar uma porção de coisas e me faz pensar, hoje também. Mas é interessante, as pessoas não gostam de Teologia Feminista porque a gente não situa o poder lá em cima. A gente diz assim: o poder está aqui. Quer dizer, se nós duas víssemos cinco crianças famintas entrando aqui, o divino entre nós está aqui de acolher essas crianças.

O divino é a capacidade de sair de mim e acolher o outro. Então é o divino humano, mas também outra coisa. O divino é essa beleza desse sol iluminando essas árvores, essas plantas. É divino também que de repente a gente se encontrou e a gente está conversando e está sentindo que tem coisas que a gente se entende. Então, nós tiramos a verticalidade do divino e colocamos o divino numa circularidade muito maior a tal ponto de que a gente não vê, a gente não sabe o princípio e o fim. E a gente não diz mais as coisas como a tradição filosófica dizia, porque a tradição da fé continua a mesma. “Eu tive fome e me deste de comer, eu tava nu e...”. Essa é a fé. “Eu estava na prisão e você me visitou”.  O mundo vai ter gente que vai para a prisão justa ou injustamente, aliás, a gente pode criticar e eu critico o sistema prisional. Tem gente que vai pra prisão, mas qual é a minha obrigação em relação aqueles que estão na prisão? Vou deixar morrer de fome? O divino é a percepção de que somos coletividade.

Com relação à questão das pautas que tocam o corpo da mulher, o tema daqui também é corpos livres, estado laico. Como você analisa hoje as pautas dos direitos reprodutivos das mulheres, do aborto na relação com a igreja Católica. Houve avanços?

O avanço que houve foi na consciência das mulheres. Houve avanço, mas pouquíssimo na oficialidade das igrejas. Por exemplo, na Igreja Católica, onde me situo, já se fala na possibilidade de dar uma segunda chance para divorciados. São migalhas. Mas do ponto de vista das mulheres houve um crescimento. Muitas mulheres que eu conheço, que são divorciadas, que são lésbicas permanecem na igreja porque elas querem, porque gostam, porque se sentem bem. Outras não, se mandaram. Tem uma diversidade de pertenças. Tem gente que é feminista, mas não consegue sair do hábito de frequentar celebrações. Eu não tenho, não sou assídua frequentadora, eu vou quando eu preciso ir por solidariedade a algumas pessoas. Mas o tipo de devoção que eu tinha quando era jovem já não tenho mais.

Você, que tem a perspectiva histórica de diversas lutas, que conviveu com Dom Helder e morou em Pernambuco. Se vê o florescimento da Teologia da Libertação como um momento singular e muito importante na histórica brasileira de formação política das bases. Você acha que hoje existe outro movimento que se assemelha do que foi o momento de ouro?

Hoje já não existe mais. Eu vive 34 anos aqui, trabalhei com Dom Helder, trabalhei no Institutio de Teologia, fiz muitas assessorias pelo campo, pela cidade Nordeste afora e havia, sem dúvida, não só Dom Helder, mas Dom José Maria Pires, Dom Fragoso e vários outros. Existiam vários bispos que assumiam a causa da libertação dos pobres, que liam o evangelho a partir do favorecimento da vida dos pobres. Recife, por exemplo, foi um foco de luz iluminador. Claro que tinha a figura de Helder Câmara, mas havia várias outras. Tinha o Instituto de Teologia liderado pelo padre Humberto Plumen, tinha aqui a Pastoral Operária, a Pastoral Rural. Todo mundo muito preocupado. Porque tem que dizer que esse florescimento do movimento mais religioso era ligado a todo um florescimento dos movimentos sociais contra as ditaduras militares.

Por que eu tô contando isso para você? Porque eu acredito que coisas ruins podem inspirar o nascimento de coisas boas. Então naquela época muita coisa ruim estava acontecendo para que a gente se organizasse para fazer nascer coisas boas. E muita coisa boa nasceu, inclusive, por exemplo, o PT nasce de todos esses movimentos. No Sul, mas evidentemente com lideranças nordestinas. Lula é pernambucano, mas grande parte das lideranças do PT foram nordestinas. O que eu quero dizer é que hoje nós não temos. Quem são os herdeiros de Dom Helder Câmara? Não s ei dizer, tem aqui no Recife o movimento que se chama Igreja Nova, que são leigos da minha geração que se acham um pouco herdeiros. Podem ser herdeiros porque publicam cartas de Dom Helder, mas eu não acredito que essas coisas estão revivendo.

Acredito que vai acontecer, mas o que eu não sei. Provavelmente o que virá, não virá mais de nós. Virá da sua geração e das novas gerações. A gente encerrou um ciclo, que foi muito legal, mas que agora começa um outro super desagradável, mas que vai exigir das pessoas uma retomada do que querem fazer nesse mundo. O que essa nova geração está pretendendo? E aí entra também o feminismo.

Como combater o desânimo do aparente retrocesso que existe muito forte, principalmente, numa geração mais jovem, que não é a sua?

A gente não volta para trás. A gente vai sempre para a frente. Eu acho que a história é essa espiral. Nem sempre ela vai para cima. A espiral pode ter vários movimentos ascendentes e descendentes, mas não volta para o mesmo lugar.

Eu acho que vocês já estão dando resposta a esse desânimo. Eu trabalhei muito ano passado e eu partilhava reflexões mensais com um grupo de teatro jovem que se chama Companhia do Tijolo que, inclusive, apresentou uma peça sobre Dom Helder Câmara e foi assim que me aproximei deles.   Fui assistir à peça e não aparecia figuras femininas como importantes tecesse processo que se deu no Recife. Quando acabou eles começaram a conversa, tipo teatro de Arena, e eu falei que eu vivi no recife mais de 30 anos e as mulheres em torno de Dom Helder - aqui tinha vários movimentos liderados por mulheres - quer dizer, as paroquias não eram lideradas por mulheres, mas muitas catequeses eram. Então Dom Helder tinha um monte de amigas que quando ele estava no Concílio ele escrevia para elas e não para os padres. Aqui mesmo, quantas mulheres trabalham com ele? Tinha a secretária dele, tinha a que cuidava das finanças, a bibliotecária, até o final da vida dele esse homem é o que é porque havia muitas mulheres extraordinárias que estavam junto. E eles começaram a reformular a peça.

Aí a novidade é essa. De repente eles estão aparecendo, eles estão fazendo teatro de rua. O que eu quero dizer é que está existindo na arte, no teatro, nas músicas, nas universidades, nos secundaristas. Não vai ser depressa, mas vocês estão fazendo. Você fazendo um tipo de jornalismo engajado, comprometido. Isso é trabalho de formiguinha, mas vocês estão construindo outra página que vai ser diferente da minha. Não dá para ver ainda tudo, mas alguma coisa dá sim.

O tema do curso traz as bandeiras do "Estado Laico, Corpos Livres" e a senhora fez pontuações importantes sobre essas duas pautas. Ainda é estratégico reivindicar o Estado laico no contexto atual?

Não como nós estamos reivindicando. Nós temos que reivindicar, mas não dessa forma. Vamos dizer assim: achar que, ingenuamente, os governantes não são guiados por suas opções religiosas. É impossível. Eu se fosse presidente da república, eu sei que eu guardo sim as minhas opções éticas, que me vieram do cristianismo. A gente pode falar de Estado Laico, mas a gente tem que insistir também numa outra relação com as religiões. As religiões estão na sociedade. As religiões constituem comunidades que buscam sentido, e essas comunidades têm o direito de se expressar. Então, eu diria assim: conservar essa luta pelo Estado Laico, porém ressignificá-la introduzindo nessa questão do Estado Laico uma participação democrática das diferentes religiões.

Por exemplo, a representante dos Pankararus [que também participou do curso] fala dos encantados, e ela tem que falar. Ela não pode dizer que a luta dela tem que ser laica. A luta dela não é laica no sentido que a gente dá para laico. Ou seja, as lutas são marcadas por expressões políticas, mas também por expressões religiosas.

Os quilombolas também têm uma tradição Africana que você não pode negar. Por exemplo, tem uma socióloga boliviana que se chama Silvia Rivera Cusicanqui que mostra os limites que, às vezes, o mundo ocidental tem em relação às crenças. Ela vive falando e “mascando erva” [coca], ela masca isso, ela usa o chapéu. Ela reaprendeu o aymara, ela é aymara. Então, você pode desligar isso das crenças? Na força das plantas, do sol? Não, não pode. Existem crenças que fazem parte. Então, acho que a forma como nós, às vezes, inclusive nós feministas, falamos do Estado Laico é para reivindicar algumas coisas, como a legalização do aborto, corpos livres, a diversidade sexual, mas isso não significa que você esteja excluindo as crenças religiosas. Então, eu diria assim, conserva, mas alarga. Alarga como a necessidade de uma discussão democrática plural, que não existe, mas tem que começar a existir.

Como as Católicas pelo Direito a Decidir estão inseridas hoje no debate e luta pelos direitos reprodutivos? Existe perseguição à instituição e às mulheres que integram o movimento?

As Católicas pelo Direito a Decidir é uma instituição, ONG feminista, mas não é aceita como  instituição da igreja católica. Então, nós somos católicas, sem reconhecimento da instituição, da igreja católica, liderada por figuras masculinas. Têm algumas figuras masculinas, digo do clero, que mantém um certo contato conosco, mas, institucionalmente, têm alguns bispos que fazem questão de exigir que a gente retire o nome “católicas” porque não condiz com a igreja católica. Mas nós discutimos muito se colocávamos cristãs pelo direito a decidir em vez de católicas, mas até agora não, a gente está querendo guardar o nome católicas para dizer assim: na comunidade das pessoas que cresceram no meio católico, que algumas ainda frequentam esses meios católicos, tem gente que é pela diversidade sexual, tem gente que é pelo direito ao aborto, tem gente que é pela legalização do aborto, tem gente que é pelo casamento gay. Embora faça uma adesão à tradição de Jesus, a gente adere também à essas novas reivindicações da cultura, a gente adere à essa diversidade, a gente adere a esses apelos novos do mundo. Então, a gente guarda o nome de Católicas porque a gente não vê uma contradição. A gente vê a contradição da instituição, mas eu sendo católica e admitir, por exemplo, que uma transexual possa presidir uma celebração litúrgica, eu não tenho problema com isso.

Eu não tenho problema com o casamento gay, eu posso discutir se é necessário, às vezes eu acho que pode não ser necessário, mas tudo isso é discutível. Eu posso admitir tranquilamente a homossexualidade. Então, esse espaço não contradiz a minha “catolicidade”. Por isso, eu digo que somos católicas pelo direito a decidir como ONG, mas nós não somos reconhecidas como uma instituição ou como um grupo pela igreja institucionalizada.

Você sofre ainda algum tipo de perseguição pelo trabalho que faz? 

Eu não diria perseguição, diria ocultamento em todas essas discussões sobre aborto etc. Os bispos não nos chamam como pessoas representativas que refletiram e refletem sobre essas questões da sexualidade. Provavelmente vão chamar um padre moralista para discutir. Então, não nos perseguem. O meu caso foi diferente, eu não fui condenada porque era das católicas pelo direito a decidir, mas porque publicamente eu dei uma entrevista na Veja e isso criou aquelas confusões todas e me silenciaram e me fizeram retomar meus estudos, passei um tempo na Europa. Então, eu não fui condenada pelas Católicas, mas pela minha atuação individual.

Naquela época participava de forma organizada de algum grupo?

Meu problema com o Vaticano foi em 95/96, por aí. Católica fez 25 anos agora. Católicas pelo Direito nasce em 1994. Então em 1995/96, tenho problema, mas não tenho problema por causa delas. Eu pertenço a uma congregação religiosa, mas eu não pertenço a nenhum movimento feminista determinado, como o SOS Corpo, eu transito por todos eles. Porque me convidam como teóloga, como pensadora, mas eu não tenho uma identificação com nenhum deles. Sou livre pensadora.

 


“Dizer que a Virgem Maria é mais importante que os apóstolos só serve para que tudo continue igual. Isso não vem do Evangelho”. A teóloga brasileira Ivone Gebara é uma das máximas representantes da teologia feminista no mundo.

De Comillas [Espanha], onde esta tarde participou de algumas conversas organizadas pela Associação de Teólogas Espanholas, Gebara critica a “Igreja Patriarcal” que, afirma, corre o risco de “perder as mulheres que pensam”. Conversamos com ela exclusivamente.

A entrevista é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 01-10-2018. A tradução é do CEPAT.

EIS A ENTREVISTA.

Em sua exposição, você fala em alteridade, diferença e igualdade. O que quer dizer com tudo isso?

Ivone Gebara: São conceitos muito relacionados com o feminismo, e por isso algumas filósofas feministas trabalharam, e eu também, estes conceitos, que não nasceram com o feminismo, mas de outras reflexões filosóficas, como as do filósofo judeu francês Levinás, que falou muito do outro, de quem é o outro. Minha contribuição é levantar uma suspeita de que as reflexões sobre a alteridade colocaram a mulher como ‘a outra’. E quando se fala de diferença, se faz dentro de um contexto, onde a universalidade masculina é bastante forte.

Vivemos uma ética machista?

Ivone Gebara: Não necessariamente machista. Quero dizer que nem sempre estão relacionados a uma ética, mas, ao contrário, a uma maneira de reduzir o outro, de não levar em conta a diferença. Estes conceitos passam a ser teóricos, quase vazios na prática. A igualdade, a alteridade, a diferença… estão relacionadas a algo. Igual a quê, diferente de quê. Neste sentido, quero falar de algo que está relacionado à vida das mulheres, que é a beleza. Fabrica-se uma só beleza, que na realidade são os produtos que se vendem. As mesmas marcas produzidas para diferentes marcas…Esta é uma teia de aranha na qual todas nós caímos, porque essa beleza é algo exterior, e é muito sacrificada. Temos que nos sacrificar muito para ter o peso ideal, a pele sem rugas… milhares de escravidões. Finalmente, falo do corpo feminino a partir do Cristianismo. E é interessante que no Cristianismo, e quando falo do Cristianismo falo da teologia, não do tempo de Jesus, o ideal da beleza feminina é um ideal ‘espiritual’, mas é a beleza do serviço. A mulher que é boa é a que serve, a que é muito boa mãe… Por exemplo, todas estas mulheres que vão à rua para falar dos direitos das mulheres traem o ideal da mulher como mãe, cuidadora, contida, dona de casa, zeladora da Igreja, servidora dos padres. São as mulheres que cozinham para eles, limpam os seminários…

A Igreja não percebe que o dia em que as mulheres disserem: ‘Já basta’ de ser servas, escravas… e não a outras coisas dentro dessa Igreja, a Igreja pode ficar vazia?

Ivone Gebara: É que até agora eles veem este projeto de mulheres muito distante, sobretudo na América Latina. Percebem, mas agem como se o problema não existisse. Eu conheço alguns padres que pagam um salário mísero e, ao mesmo tempo, falam de justiça social. Estas contradições existem, porque existe a pobreza em que as mulheres vivem. Pobreza material, em primeiro lugar, mas também há uma ‘compensação’, porque às vezes o padre é bom tipo, educado, não é como o bêbado do marido. Existe o consolo…Sim, mas a mulher não muda seu papel, permanece submetida… Mas, a submissão é diferente. O padre não a pega, o padre lhe agradece, diz que irá rezar por ela. Há uma ideia do padre como representante de Jesus. Esta simbologia, de certa maneira, atrasa o processo. Isso, aqui, se chama ‘micromachismos’, sem você se dar conta… está fomentando a injustiça. E o dia em que o padre perceber, as relações irão mudar. Mas são mais relações de amizade.

Quando a Igreja também reconhecerá as mulheres como discípulas de Jesus?

Ivone Gebara: A primeira coisa que é necessário dizer é que se dizemos ‘discípulas’, já estabelecemos uma hierarquia. Eu prefiro falar de ‘Movimento Jesus’. Neste movimento, Jesus não sempre tinha a última palavra. As teologias masculinas destacaram uma sabedoria infundida em Jesus, como se não necessitasse aprender nada de ninguém, até o ponto de dizer que Maria foi a primeira discípula de seu filho. Isso não pode se sustentar. Jesus tinha que aprender, ser contestado, responder, se equivocar. Acredito que temos uma ideia muito romântica de Jesus de Nazaré, e ao falar de movimento estamos descendo à realidade da vida. No mundo judeu, as mulheres têm um papel importantíssimo, como mães, educadoras, que são escutadas. O mundo patriarcal, o Cristianismo a partir do século II e III, irá se vincular à ideia de poder do Império Romano, e aí as coisas começam a mudar. A autoridade pública da mulher se perde totalmente.

A Igreja é machista?

Ivone Gebara: Eu prefiro não usar a palavra machismo, porque essa palavra tem uma conotação de subjetividade e emotividade muito negativa. Nem todos os homens são machistas, nem todos os bispos são machistas, por isso eu prefiro falar de um fundamento patriarcal. Aqui, quem manda é o varão porque é o representante de Jesus, e eu não sou. Então, eu poderia estar mais com a razão do que você, mas a última palavra é sua. O mundo patriarcal não apenas subsiste na Igreja.

É evangélico que somente os homens possam ser sacerdotes, que as mulheres não tenham um papel sacramental na Igreja?

Ivone Gebara: Isto não vem do Evangelho. Os sacerdotes querem ver os 12 apóstolos, varões, como uma escolha de Jesus. Eu não vejo isso. A hermenêutica bíblica feminista vê outras coisas, mas infelizmente não nos leem, não nos escutam e nos deixam de fora das instituições de formação. As poucas teólogas que ensinam nas faculdades de Teologia precisam se ajustar às normas.

Como interpreta que o Papa tenha incluído três mulheres na Comissão Teológica Internacional e que tenha aberto uma comissão para o diaconato feminino?

Ivone Gebara: Eu sou muito crítica. Não sou a única que pensa assim. Primeiro, quem escolheu estas teólogas como representantes? Podem ser representantes do feminino, mas não do feminismo católico. Porque o que incomoda a Igreja não é o feminino, é o feminismo. Porque o feminino quer dizer, como disse o Papa, a Virgem Maria é mais importante que os apóstolos, esse é um discurso romântico e que serve para que tudo continue igual. O Papa coloca três mulheres, entre elas há uma freira, duas teólogas alemãs. Por que não perguntou às diferentes organizações de teólogas, por exemplo, para a ATE da Espanha, que nomes indicariam?

Acredita que é mais um assunto de cota, e não de convencimento?

Ivone Gebara: Claro, e depois colocam dois cardeais velhos que não tem nada a ver. Dizem que estão estudando, mas não chegarão a conclusão nenhuma. Já de antemão, ele já disse não à ordenação presbiteral. Agora, abre uma pequena brecha para a diaconal, mas não se deve ter muita esperança.

O que nós católicos feministas, homens e mulheres, que entendemos que a Igreja deve ser um lugar onde a igualdade seja praticada, precisamos fazer?

Ivone Gebara: Acredito que os varões falam muito pouco disto. Podem fazer isso em círculos fechados, mas não falam em congressos, não escrevem ao Papa. Estão satisfeitos, ainda que se poderia fazer diferente. Não há vozes masculinas. Há os dominicanos, jesuítas, que falam de respeito às mulheres, contra a violência, há textos muito bonitos sobre isto. Contudo, entre isto e dizer ‘É preciso mudar a teologia’, até quando falarmos dos apóstolos, de Deus Pai Todo-Poderoso, dos sacramentos somente relacionados à figura masculina de Jesus…, então, não haverá mudanças. E se houver mudanças, estou certa de que não será agora, mas é preciso começar a mudar.

Por onde deveríamos começar?

Ivone Gebara: Cada comunidade, em cada grupo, em cada país, precisa começar a partir de sua própria realidade. Eu convidaria as mulheres para que se reúnam, que estudem, por sua parte, e aos varões que reflitam por seu lado.

Que futuro espera pela Igreja, caso não rompa com o paradigma de varões com poder e mulheres servidoras?

Ivone Gebara: Não sei falar do futuro, mas no presente o que ocorre é que muitas mulheres saem da Igreja. A Igreja já perdeu os operários, já perdeu o campesinato, e irá perder as mulheres que pensam. As mulheres que pensam e as líderes de movimentos populares. A Igreja católica já não lhes diz quase nada. No mundo indígena, esta maneira da Igreja com o feminismo comunitário, não lhes diz nada. Sim, algumas permanecerão, mas perderão muitas.


A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho da Solenidade da Santíssima Trindade, ciclo C do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 16,12-15.

Eis o texto. “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo16,12).

Neste domingo, a Igreja celebra a Festa da Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.

É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.

Assim, a Trindade não é uma simples verdade para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é comunicada.

Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina trinitária.

Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”. Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.

Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão...

S. Agostinho afirmou que no Amor se encontram três realidades: o Amante, o Amado e o mesmo Amor.

“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se” na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.

A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor.

Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja, comunhão de Pessoas.

Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina que só vivemos quando "com-vivemos".

A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres humanos.

Deus é Amor e só amor. Percebemos, então que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em nossa vida e na Criação inteira.

Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12)

Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário.”

Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos doar e receber vida... estamos saboreando e visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte.

O amor intratrinitário não é um amor excludente, um “amor egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno.

Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da Trindade amorosa.

O ser humano não é feito para viver só; ele é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;

Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a comunicação.
Não fomos criados para viver sós; necessitamos conviver, viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e o excluído.

O sentido da vida em comum com os outros é um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro intratrinitário”.

A fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua gratuita...

O amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só deseja que o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como é...

O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós, ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade de amar.

Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.

O Deus de Jesus não é uma verdade para pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é uma ideia para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.

Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus. Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.

Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta da Galileia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples no Deus Comunidade de Pessoas.

Para meditar na oração:

A Trindade não é hóspede; é a essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de que é habitada pela Trindade amorosa.

- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.

- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?

 


Talvez um ponto de partida interessante para a leitura desta parábola seja tomar conhecimento da sua moldura, na qual ela se encontra inserida.

O primeiro elemento da moldura, poderíamos dizer: a sua porta de entrada, ou melhor, o seu pano de fundo, trata-se do encontro de Jesus com as crianças (Mt 19,13-15); apesar da tentativa dos discípulos de impedi-las de se aproximar do Mestre. Ele, simplesmente, declara: “Deixem vir a mim as crianças, e não as impeçam de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”. E Jesus impôs as mãos sobre elas. Das crianças é o Reino dos Céus, por causa de sua abertura, de sua docilidade acolhedora, ao espírito e aos valores do Reino e por serem contadas entre os últimos (excluídos/as) da sociedade do seu tempo.

Do seu lado esquerdo, vem o diálogo de Jesus com o “jovem rico” (Mt 19,16-30). Este à procura do que deveria “fazer de bom para ganhar a vida eterna”. A “vida eterna” para um judeu era, antes de tudo, a vida que poderia durar para sempre, a vida plena, na felicidade e na Paz (Shalon). O jovem estava no caminho: “cumpria a Lei”! Mas lhe faltava algo mais: “distribuir seus bens aos pobres”. A sua impossibilidade pessoal de cumprir esta exigência o impedia de entrar no caminho do Reino. O amor à riqueza era para ele um impedimento monstruoso e, consequentemente, não permitia sua solidariedade para com os empobrecidos, justamente pelo acúmulo do CAPITAL. Pedro, representando os 12, já queria saber qual a recompensa deles que optaram pelo caminho do Reino, mas Jesus não lhes assegura nenhuma primazia ou privilégio: “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”!

Do seu lado direito vem o anúncio da paixão de Jesus e a promessa da sua ressurreição para assentar-se na glória do Pai (Mt 20,17-28). De súbito, vem a intervenção da mãe dos filhos de Zebedeu, com um pedido a Jesus: “Ordena que estes meus dois filhos sentem um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu Reino”. Apesar de Jesus apresentar as condições para tal exigência, isto gerou uma indignação entre os discípulos. Ainda predominava entre eles a perspectiva e a expectativa do Reino nos moldes “do mundo”, do predomínio do PODER dominador, de privilégios, ao qual Jesus contrapõe o SERVIÇO gratuito: “Quem de vocês quiser tornar-se grande, seja aquele que serve a vocês”.

Sob o pano de fundo das CRIANÇAS como destinatárias do Reino e entre a ganância pela RIQUEZA e pelo PODER, como impedimentos para entrar nele, situa-se uma parábola tratando do TRABALHO humano (Mt 20, 1-16).

O TRABALHO diário traz em si uma ambiguidade. Se, por um lado, ele é um serviço à sociedade, fonte de realização humana, de participação criativa no plano da criação divina, por outro, ele pode ser vivido como uma tortura, castigo (tripálio). O trabalho quando subjugado pela injustiça, torna-se cruz. A mercadoria “trabalho” se torna muitas vezes a mercadoria “desemprego” (que é a moeda de troca pelo baixo salário) que engorda o capital e humilha o trabalhador. Na sociedade atual o trabalho tornou-se uma mercadoria disputada por dois polos tensos e antagônicos: o SALÁRIO e o LUCRO. Na disputa entre os dois, o dinheiro sempre corre para o lado do lucro e lucro vira LUXO e o salário vira FOME.

Nas atuais relações de trabalho predomina a lógica do individualismo meritocrático: quem trabalha come, quem não trabalha, passa fome! A pessoa vale pela que produz. Ainda que o resultado do seu trabalho produza o enriquecimento, o acúmulo de riqueza de poucas pessoas e a pobreza de muitos. A lógica ferrenha do sistema produtivo na sociedade capitalista é: trabalho, produção, comércio, lucro, capitalização. Além disso, as relações humanas, dentro deste sistema, são marcadas pelo exercício do poder verticalista, quase sempre autoritário, e pelo monopólio do saber nas mãos de poucos. O/a trabalhador/a é duplamente alienado/a: do exercício do poder e do domínio do saber.

A parábola dos/as trabalhadores/as vem questionar esta realidade e propor uma nova lógica nas relações humanas e no mundo do trabalho, ou seja, a lógica do Reino. Ao imperativo da justiça meritocrática ela aponta para a prática da generosidade, da gratuidade e da bondade. Se não se comete injustiça contra os primeiros, por que os últimos não podem ser tratados como primeiros?

A parábola sinaliza para o trabalho diuturno na “vinha do Reino” – trabalho coletivo em favor da vida e da alegria, construindo novas relações, dispensando um cuidado prioritário com as pessoas. No qual se respeita a hora, o tempo e o ritmo de cada trabalhador/a. O trabalho de cada pessoa não pode ser avaliado apenas pelo resultado produtivo, a pessoa possui um valor em si mesma. Na lógica do Reino não se avalia o resultado somente do ponto de vista individual, mas coletivo. Quem produziu menos, ou chegou mais tarde, ganha e come como os demais e todos vivem felizes. O prazer, a alegria, o lazer, o ócio saudável e o descanso devem fazer parte do trabalho.

O que há de comum nesta moldura? A apresentação das condições, das exigências, ou até mesmo da nova lógica para a entrada no caminho do Reino. É necessário tornar-se pequeno, acolhedor da sua novidade, este é o seu pano de fundo. É uma condição para entrar no Reino despojar-se da RIQUEZA e do PODER, tornar-se SOLIDÁRIO e se colocar a SERVIÇO dos empobrecidos pela ordem social vigente. É preciso agir na GRATUIDADE e na GRATIDÃO nas relações humanas.

Na contramão da lógica dos privilégios individuais e a justiça meritocrática, os/as caminheiros/as do Reino deverão abraçar outra lógica subversiva, na qual “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”! e “Quem de vocês quiser tornar-se grande, seja aquele que serve a vocês”. Deve-se romper com a lógica da acumulação individualista egocêntrica e romper com o exercício do PODER dominador e promotor de privilégios pessoais

Para finalizar este ensaio de reflexão em torno desta parábola, a música UM SONHO, de Gilberto Gil, poética e profeticamente, põe a nu a lógica das relações de trabalho e produção na sociedade capitalista e anuncia em suas entrelinhas a lógica do Reino. Vale a pena ouvi-la.

Ainda na borda da moldura, está o clamor dos dois cegos de Jericó: “Senhor, que nossos olhos sejam abertos”! (Mt 20,33). Seja ele nossa oração. Amém!

Autor: Zé do Cerrado

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