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A vida consagrada, dom à Igreja
  1. A presença universal da vida consagrada e o carácter evangélico do seu testemunho provam, com toda a evidência — caso isso fosse ainda necessário —, que ela não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja. […] Na verdade, a vida consagrada está colocada mesmo no coração da Igreja, como elemento decisivo para a sua missão, visto que « exprime a íntima natureza da vocação cristã » e a tensão da Igreja-Esposa para a união com o único Esposo. Diversas vezes se afirmou, no Sínodo, que a função de ajuda e apoio exercida pela vida consagrada à Igreja não se restringe aos tempos passados, mas continua a ser um dom precioso e necessário também no presente e para o futuro do Povo de Deus, porque pertence intimamente à sua vida, santidade e missão.
  2. « Que seria do mundo se não existissem os religiosos? ». Deixando de lado as avaliações superficiais de funcionalismo, sabemos que a vida consagrada é importante precisamente por ser superabundância de gratuidade e de amor, o que se torna ainda mais verdadeiro num mundo que se arrisca a ficar sufocado na vertigem do efémero. « Sem este sinal concreto, a caridade que anima a Igreja inteira correria o risco de refrear-se, o paradoxo salvífico do Evangelho de atenuar-se, o “sal” da fé de diluir-se num mundo em fase de secularização ». A vida da Igreja e a própria sociedade têm necessidade de pessoas capazes de se dedicarem totalmente a Deus e aos outros por amor de Deus.
A Igreja não pode absolutamente renunciar à vida consagrada, porque esta exprime de modo eloquente a sua íntima essência « esponsal ». Nela encontra novo impulso e vigor o anúncio do Evangelho a todo o mundo. Na verdade, há necessidade de quem apresente o rosto paterno de Deus e o rosto materno da Igreja, de quem ponha em jogo a própria vida, para que outros tenham vida e esperança. A Igreja precisa de pessoas consagradas que, ainda antes de se empenharem nesta ou naquela causa nobre, se deixem transformar pela graça de Deus e se conformem plenamente com o Evangelho.
A todos os fiéis, pede-se uma oração constante pelas pessoas consagradas, para que o seu fervor e a sua capacidade de amar aumentem continuamente, contribuindo para difundir, na sociedade atual, o bom perfume de Cristo (cf. 2 Cor 2,15). Toda a Comunidade cristã — pastores, leigos e pessoas consagradas — é responsável pela vida consagrada, pelo acolhimento e amparo prestado às novas vocações.
À juventude
  1. A vós, jovens, digo: se sentirdes o chamamento do Senhor, não o recuseis! Entrai, antes, corajosamente nas grandes correntes de santidade, que foram iniciadas por santas e santos insignes no seguimento de Cristo. Cultivai os anseios típicos da vossa idade, mas aderi prontamente ao projeto de Deus sobre vós, se Ele vos convida a procurar a santidade na vida consagrada. Admirai todas as obras de Deus no mundo, mas sabei fixar o olhar sobre aquelas realidades que jamais terão ocaso.
O terceiro milénio aguarda a contribuição da fé e da inventiva de uma multidão de jovens consagrados, para que o mundo se torne mais sereno e capaz de acolher a Deus e, n’Ele, todos os seus filhos e filhas.
Às famílias
  1. Dirijo-me a vós, famílias cristãs. Vós, pais, dai graças a Deus, se Ele chamou algum dos vossos filhos à vida consagrada. Deve ser considerada — como sempre o foi — uma grande honra que o Senhor pouse o olhar sobre uma família e escolha algum dos seus membros, convidando-o a abraçar o caminho dos conselhos evangélicos! Cultivai o desejo de dar ao Senhor algum dos vossos filhos para o crescimento do amor de Deus no mundo. Que fruto do amor conjugal poderia ser mais belo do que este?
Importa recordar que, se os pais não vivem os valores evangélicos, dificilmente o jovem e a jovem poderão perceber o chamamento, compreender a necessidade dos sacrifícios a enfrentar, apreciar a beleza da meta a atingir. De facto, é na família que os jovens fazem as primeiras experiências dos valores evangélicos, do amor que se dá a Deus e aos outros. Também é necessário que eles sejam educados para o uso responsável da sua liberdade, para estarem dispostos a viver, segundo a própria vocação, das mais altas realidades espirituais.
Rezo por vós, famílias cristãs, para que, unidas ao Senhor pela oração e pela vida sacramental, sejais fecundos viveiros de vocações.
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Crucifixo de São Damião
Neste dia 04 de outubro a Igreja celebra São Francisco de Assis, o verdadeiro "reformador" da Igreja de Cristo. Conta-se que, estando certo dia rezando na Ermida São Damião, ele ouviu uma voz que vinha do Crucifico (de São Damião) que dizia: "Francisco, restaura a minha Igreja". Primeiramente, Francisco achou que a voz falava da Igreja templo e chegou a juntar economias para reformá-la, mas depois entendeu que a voz estava falando da Igreja, povo de deus, instituição santa e pecadora, que naquele momento passava por séria crise. Assim, para reformar a Igreja, Francisco não fundou outra, mas criou um novo modo de viver baseado em Cristo e com o seu exemplo nos ensina a viver a humildade.
Nascido em Assis, provavelmente aos 05 de julho de 1182, Giovanni di Pietro di Bernadoni teve uma juventude inquieta e mundana. Seu pai era Pietro di Bernadoni, um comerciante rico. As origens da família eram francesas. Isso explica o nome que Giovanni adotou: Francisco, em latim, significa "francês".
Francisco jamais fora uma pessoa má, apesar de chegado aos prazeres mundanos na juventude, sempre mostrou ter uma índole bondosa. Entretanto, tudo mudou depois que Francisco ouviu a voz de Cristo. Abandonou as riquezas oferecidas pelo seu pai e dedicou-se a uma vida de completa pobreza e dedicação aos irmãos necessitados, seguindo o exemplo de Cristo. A grande revolução que Francisco causou na Igreja foi esta: numa época dominada pela venda de indulgências, os erros cometidos pelo Clero afloravam e manchavam a imagem da Igreja. Francisco mostra que há mais alegria em servir que em ser servido, como ele mesmo cantou em sua oração. Que mais importante que ser compreendido e amado, é que amamos e compreendamos...
A humildade de Francisco foi deixada nas suas belas composições: apesar de pouca instrução, Francisco era um poeta auto-didata. Sua mais bela expressão literária está no "Cântico das Criaturas", uma poesia na qual ele louva o papel de cada elemento criado por Deus. O que nos chama mais atenção é sua disposição em reconhecer que cada criatura criada por Deus é nosso irmão e nossa irmã.
Muitos outros poetas escreveram poesias baseadas na obra franciscana. Veja esta:

"Irmão vento, irmão sol, irmã lua, 
irmão lobo tu és meu irmão, 
rouxinol, sabiá, criaturas de Deus, 
somos obras de suas mãos..."
(Padre Zezinho)

Vejamos a letra do Cântico abaixo:
Oração de São Francisco

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar
e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão Sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas:
no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento
e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo,
pelo qual alumias a noite:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,
com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar:
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças
e servi-o com grande humildade...
Sobretudo neste ano de 2011 em que a Igreja trabalha o tema "Preservação da Vida", o exemplo deixado por São Francisco é o caminho a ser seguido  por nós. Pois enquanto não tivermos consciência de que somos irmãos, não haverá paz. Somos os responsáveis pela manutenção deste belo jardim e São Francisco soube preservá-lo. Hoje, o mundo vive as amarguras de um tempo em que a defesa da natureza foi deixada de lado, pois só se procura o desenvolvimento econômico, a qualquer custo. Mesmo que para isso, o ser humano seja vítima da sua própria ganância... Como nos conclama a CF 2011, "a terra geme em dores de parto", causadas pela própria irresponsabilidade do homem. Que saibamos atender o apelo franciscano de preservação da natureza e que assim, preservemos também a nossa vida...
Só para refletir, um provérbio popular já diz: "quando tiver sido poluído todos os rios, quando não restar mais nenhum dos animais, quando todas as florestas tiverem sido destruídas... aí é que o homem vai ver que dinheiro não se come!" São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia, exemplo de amor e de humildade... rogai por nós!

Ainda neste mês, pretendo escrever um pouco sobre a espiritualidade de dois amigos de Francisco: Santo Antônio de Pádua e Santa Clara de Assis.

Paz e bem a todos!

Francisco Marcos Araújo.




Para a grande maioria da população mundial a pobreza é um mal que deve ser combatido. Existe sim essa pobreza que traz miséria, doenças, violência e morte, e ela realmente deve ser combatida. Porém, existe também uma outra pobreza que santifica o mundo: a pobreza cristã. A pobreza do Cristo.

Muitos e muitos cristãos ao longo de toda a história de nossa Igreja largaram tudo que tinham para viver somente da Divina Providência. E esta atitude de entrega é, para muitos, assustadora. “Largar minha estabilidade financeira para servir a Deus?”, “Abrir mão do conforto da minha casa, do meu carro, das minhas viagens?”, “Eu não tenho que ser pobre para servir a Deus”, “Deus não quer isso para ninguém”, dizem as pessoas. Mas sim, Deus quer isso. Não para todos, mas para uma parcela de seus filhos, sim! É Ele quem convida e capacita para a experiência da pobreza. Uma pobreza material e uma pobreza de coração, que conduz à verdadeira humildade. Reconhecer-se pobre diante de Deus é, na verdade, o primeiro passo para conseguirmos viver a pobreza material, pois a humildade conduz à confiança no Criador.
Realmente assusta um pouco a ideia de viver na pobreza pelo resto da vida, mas não há riqueza alguma que pague a sensação de acordar pela manhã e saber que, com ou sem dinheiro no bolso, hoje servirei a Deus.
Deus nunca nos abandona. E a cada dia nos surpreende mais com sua providência. Aumentando a nossa fé e o nosso amor por esse “estilo de vida”.
Que sempre existam no mundo aqueles que servem a Deus com sua pobreza. E que a Igreja sempre Santa seja cada dia mais pobre para a honra e a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo Deus, se fez pobre para enriquecer o mundo com sua pobreza.


Engana-se quem pensa que Francisco tenha na origem do seu projeto de vida intencionado criar ou fundar uma Ordem. Não! O que fermentava nele e o que norteou seus primeiros passos foi a vivência pura e simples do Evangelho, cuja força inicial deste ideal escondia-se no apelo “Vem e segue-me”.
O pobre de Assis opta, pois, por uma forma de vida, em cujo espaço cada irmão pudesse livremente viver segundo o Espírito do Senhor, sendo este, lugar privilegiado de acolhimento para melhor seguir o Mestre.
Assim, a partir desta visão começa uma vida de seguimento do Cristo pobre, humilde e crucificado onde o dinamismo encontrar-se-ia no despojamento e na pobreza, cujo vigor seria a renúncia do mundo e dos bens, desfazendo-se de falsas seguranças e destarte pôr-se a caminho, seguindo a mesma direção do Cristo, direcionando sua missão. Este peregrinar culminaria no Alverne, como o peregrinar de Cristo culminou na Cruz e na Ressurreição.
Este foi o anseio acalentado por Francisco de seguir, ao longo da vida, os passos do Crucificado, fazendo dele o centro de suas buscas, no desejo de perfeição. Este intento deve ter sido confirmado e consolidado pela passagem bíblica de 1Ped 2,21: “Foste chamado para seguir os passos do Senhor”.
Francisco, no seguimento do Senhor, jamais cogitara em fundar uma Ordem, mas simplesmente viver um projeto tal para melhor assemelhar-se ao Cristo.O surgimento de uma nova família religiosa não foi senão conseqüência desta sua caminhada de fé.
Francisco foi atraído e arrastado pela “humildade patente da Encarnação e pelo amor ardente da Paixão” 1C84. Assim, sente-se tanto envolvido pelo Cristo do Presépio como pelo Cristo da Cruz. Nesta sua vocação fez a experiência do sofrimento do Senhor, sofrimento impresso no seu corpo pelos estigmas, revivendo o mistério pascal.
Encarnar o seguimento do Cristo é também encarnar seus padecimentos. Assim, andar nas pegadas do nazareno é palmilhar um caminho dinâmico, purificador e transformador.
Neste seguimento, a misericórdia divina se expande sobre os seguidores como o fogo do Espírito, a ponto de exclamar nosso pai Francisco: “Somos interiormente purificados, iluminados e abrasados pelo fogo do Espírito que nos purifica, podendo nós seguir os passos de teu Filho e mediante a sua graça, chegar até a ti, ó Altíssimo”.
O caminho do Cristo foi o caminho amado por Francisco!

FONTE: PRÓ-VOCAÇÕES E MISSÕES FRANCISCANAS


Um dia, enquanto São Francisco caminhava com Frei Leão, vindo de Perusa para Santa Maria dos Anjos, durante um rigorosíssimo inverno, Francisco o chamou, pois o seu companheiro andava mais a frente e lhe disse:

“Irmão Leão, ainda que o frade menor desse o maior exemplo de santidade e de boa edificação, em toda a terra, escreve que nisso não está a perfeita alegria”. E andando mais um pouco torna a o chamar:

“Ó Irmão Leão, ainda que o frade menor curasse os cegos, os paralíticos, os surdos, os coxos, os mudos e mesmo ressuscitasse mortos de quatro dias, escreve que nisso não está a perfeita alegria”. Andando mais um pouco, Francisco grita com força: “Ó Irmão Leão, se o frade menor soubesse todas as línguas do mundo, todas as ciências, escrituras e profetizasse e revelasse as coisas futuras, os segredos das consciências, escreve que nisso não está a perfeita alegria”.
Indo mais adiante, São Francisco o chama novamente com força:”Ó Irmão Leão, ovelhinha de Deus, mesmo que o frade menor falasse a língua dos anjos e soubesse tudo sobre as estrelas e sobre as ervas e lhe fossem revelados todos os segredos da terra, dos pássaros, dos peixes, de todos os animais, homens, árvores, pedras, raízes e águas, escreve que nisso não está a perfeita alegria”.

E caminhando mais um pouco torna a o chamar em alta voz:”Ó Irmão Leão, ainda que o frade menor soubesse pregar como ninguém e convertesse todos os infiéis da terra, escreve que nisso não está a perfeita alegria”.
Francisco continuou falando assim durante duas milhas. Então, Frei Leão, bastante admirado, perguntou-lhe: “Pai, peço-te por amor de Deus que me digas onde está a perfeita alegria”.

Então, o santo respondeu: “Quando nós chegarmos ao convento de Santa Maria dos Anjos, totalmente molhados, tremendo de frio por causa da neve, cheios de lama e de fome e batermos na porta e o irmão-porteiro nos disser: “Quem são vocês?” E nós lhe dissermos que somos dois de seus irmãos, mas ele irritado falar: “Não são não! Vocês são dois vagabundos que andam enganando a todos por aí, roubando as esmolas dos pobres. Por isso, fora daqui!” E não nos deixar entrar no convento e fazer com que fiquemos na neve, na chuva e com frio e fome até de noite: então, se suportarmos tudo isso com alegria, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele e até pensarmos humildemente que o porteiro nos reconheceu e nos falou aquilo tudo com a permissão de Deus: aí, sim, irmão Leão, escreve que nisto está a perfeita alegria!”

“Depois de tudo isso, irmão Leão, se continuarmos a bater na porta e ele sair do convento furioso e nos expulsar falando-nos muitas injúrias e nos der bofetas dizendo: “Fora daqui, seus ladrões vis, aqui ninguém lhes dará comida nem cama”. Se nós suportarmos tudo isso com paciência e alegria e de bom coração, escreve, irmão Leão, nisso está a perfeita alegria!”"

“E ainda uma vez, por causa da fome e do frio da noite, batermos e chamarmos e pedirmos por amor de Deus com muitas lágrimas que nos abre a porta e nos deixe entrar e, se ele mais escandalizado nos chamar de vagabundos importunos e disser que nos pagará como mercemos e sair com um bastão nodoso na mão e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater muito; se suportarmos todas estas coisas com paciência e alegria, pensando em tudo o que Cristo bendito sofreu por nós; escreve, irmão Leão, que nisso está a perfeita alegria e ouve, pois, a conclusão: acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo sempre concede aos seus amigos, está o dom de conseguir vencer-se a si mesmo e, de boa vontade, suportar todas as injúrias e desprezos, lembrando sempre que todos os dons vêm de Deus, como nos diz o Apóstolo: “Que tens tu que não o haja recebido de Deus? E se recebeste dele, porque te glorias?”. Mas, irmão Leão, nós podemos nos gloriar na cruz da tribulação de cada aflição, porque isto sim é nosso!

Foi também criada uma bela canção inspirada neste belo ensinamento de São Francisco
CLIQUE AQUI E BAIXE O AUDIO DA MUSICA

A perfeita Alegria

Cai à tarde de inverno impiedoso,
Francisco e Leão sob a neve caminham.
Vão tornando a Santa Maria,
Com fome e com frio
Ao final de outro dia.
Frei Leão vai à frente, ligeiro,
Frei Francisco o chama e lhe diz,
Frei Leão toma nota
Se queres saber,
O que é a Perfeita Alegria,
Se nós tivermos a graça de DEUS
De pregar o Evangelho e a Cruz
E por obras e exemplos pudermos
Levar a Jesus.
E convertermos os homens a fé.
Até mesmo os de mau coração
Frei Leão isto ainda não é
A Perfeita Alegria

Imagine Leão que DEUS nos tenha dado.
A graça de a todos curar.
De fazer ver aos cegos, e aos coxos andar,
Surdos ouvir e mudos falar.
E que até os demônios fugissem,
Ao comando de nosso olhar,
E que os mortos nós ressuscitássemos.
Isto não é a Perfeita Alegria:
E se falássemos todas as línguas
Com o dom de bem comunicar,
Transformando os reinos da terra
Em reinos de Paz.
E se soubéssemos toda ciência.
E os segredos da terra e do mar.
Frei Leão isto ainda não é
A Perfeita Alegria.

Mas então, Pai Francisco
O que é a Perfeita Alegria?

Se ao chegarmos ao nosso Convento
E batermos depressa e esperando entrar.
E o porteiro do lado de dentro,
Ao invés de abrir, põe-se assim a falar:
Quem sois vós, que assim importunos,
Nesta hora nos incomodais?
Somos nós teus irmãos
Frei Leão e Francisco
Que chegam e querem entrar.
E Frei Leão
Se o porteiro disser que é mentira
E que não abrirá
Que encontremos outro lugar
Em um canto qualquer.
E se nós diante da porta fechada,
Sob a noite e a neve que cai,
Conservarmos a paz
Isto ainda não é a Perfeita Alegria.

Mas se nós insistirmos em prantos que abra,
Que tenha piedade de nós.
Pois com fome e tão necessitados,
Na noite não temos consolo e lugar.
E se então o porteiro sair,
Empunhando um bastão e gritar.
E bater em você e em mim muito mais,
Nos deixando no chão a chorar.
E Frei Leão,
Se for DEUS quem tal faz,
Que nos deixa na noite e na cruz.
Se entendermos que este abandono
Imita a Jesus.
E se nós diante da porta fechada,
Sob a noite e a neve que cai,
Conservarmos a paz,
Isto é, a Perfeita Alegria.


Da Carta a todos os fiéis, de São Francisco de Assis
(Opuscula, edit. Quaracchi 1949,87-94) (Séc. XIII)

Devemos ser simples, humildes e puros


O Pai Altíssimo anunciou a vinda do céu do tão digno, tão santo e glorioso Verbo do Pai, através de seu santo, Gabriel, à santa e gloriosa Virgem Maria, em cujo seio recebeu a verdadeira carne de nossa humanidade e fragilidade. Ele quis, no entanto, sendo incomparavelmente mais rico, escolher a pobreza junto com a sua santíssima mãe. Nas vésperas de sua paixão, celebrou a Páscoa com os discípulos. Depois, orou ao Pai dizendo: Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice (Mt 26,39).



Pôs, contudo, sua vontade na vontade do Pai. E a vontade do Pai era que seu Filho bendito e glorioso, dado a nós e nascido para nós, se oferecesse em sacrifício e vítima no altar da cruz, pelo seu próprio sangue. Sacrifício não para si, por quem tudo foi feito, mas por nossos pecados, deixando-nos o exemplo para lhe seguirmos as pegadas (cf. 1Pd 2,21). E quer que todos nos salvemos por ele e o acolhamos com coração puro e corpo casto.

Ó como são felizes e benditos aqueles que amam o Senhor e fazem o que o mesmo Senhor diz no evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e ao próximo como a ti mesmo! (Lc 10,27). Amemos, portanto, a Deus e adoremo-lo com coração puro e mente pura porque, acima de tudo, disto está ele à procura e diz: Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade (Jo 4,23). É necessário que todos que o rito e em verdade (Jo 4,23). É necessário que todos que o adoram, o adorem no espírito da verdade. E dia e noite elevemos para ele louvores e orações, dizendo: Pai nosso que estás nos céus (Mt 6,9); porque é preciso orar sempre e não desfalecer (cf. Lc 18,1).

Além disto, produzamos dignos frutos de penitência (cf. Mt 3,8). E amemos os próximos como a nós mesmos. Tenhamos caridade e humildade e façamos esmolas, já que estas lavam as almas das nódoas dos pecados. Os homens perdem tudo o que deixam neste mundo. Levam consigo somente a paga da caridade e as esmolas que fizeram: delas receberão do Senhor o prêmio e a justa recompensa.

Não nos convém sermos sábios e prudentes segundo a carne, mas temos antes de ser simples, humildes e puros. Jamais desejemos ficar acima dos outros, mas prefiramos ser servos e submissos a toda criatura humana, por causa de Deus. Sobre todos os que assim agirem e perseverarem até o fim repousará o Espírito do Senhor e fará neles sua casa e mansão. Serão filhos do Pai celeste, pois fazem suas obras, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo.

Da Regra não burlada, de São Francisco de Assis
(Escritos e Biografias de São Francisco de Assis, Ed. Vozes-CEFEPAL, Petrópolis 1982, p. 146-147) (Séc. XIII)



Do modo de servir e de trabalhar

Os irmãos que forem capazes de trabalhar, trabalhem; e exerçam a profissão que aprenderam, enquanto não prejudicar o bem de sua alma e eles puderem exercê-la honestamente. Porquanto diz o profeta: Viverás do trabalho de tuas mãos: serás feliz e terás bem-estar (Sl 127,2); e o Apóstolo: Quem não quer trabalhar não como (2Ts 3,10). Cada qual permaneça naquele ofício e cargo para o qual foi chamado (1Cor 7,24). E como retribuição pelo trabalho podem aceitar todas as coisas de que precisam, exceto dinheiro. E, se for necessário ter as ferramentas necessárias ao seu ofício.

Todos os irmãos se esforcem seriamente em praticar boas obras, pois está escrito: “Vê se estás sempre empenhado em praticar alguma boa obra, para que o diabo te encontre ocupado”; e ainda: “A ociosidade é inimiga da alma”. Por isso os servos de Deus devem estar sempre entregues à oração ou a qualquer outra boa obra.

Cuidem os irmãos, onde quer que estejam, nos eremitérios ou em outros lugares, de não apropriar-se de qualquer lugar nem disputá-lo a outrem. E todo aquele que deles se acercar, seja amigo ou adversário, ladrão ou bandido, recebam-no com bondade. E onde quer que estejam os irmãos, e sempre que se encontrarem em algum lugar, devem respeitar-se e honrar-se espiritualmente e diligentemente uns aos outros, sem murmuração (1Pd 4,9). E guardem-se os irmãos de se mostrarem em seu exterior como tristes e sombrios hipócritas. Mas antes comportem-se como gente qu8e se alegra no Senhor, satisfeitos e amáveis, como convém.

Após a oração, o beato Francisco pegou no livro fechado e abriu-o, estando ajoelhado diante do altar. Quando o abriu pela primeira vez deu com o conselho do Senhor: “Se quiseres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu”! Quando o beato Francisco soube isso, alegrou-se muito e agradeceu a Deus. Mas, como era um verdadeiro venerador da Santíssima Trindade, quis experimentar uma confirmação tripla e abriu o livro uma segunda e uma terceira vez. Na segunda vez encontrou a palavra conhecida: “Não leveis nada no caminho...” Na terceira vez, no entanto, a palavra famosa: “Se alguém quer seguir-me renuncie si mesmo...” O beato Francisco agradeceu cada vez ao abrir o livro a Deus a confirmação do seu modo de viver e do seu desejo de há muito tempo, confirmação essa que lhe tinha sido dada pela terceira vez pela vontade de Deus. A seguir disse aos homens já mencionados, Bernardo e Pedro: “Irmãos, esta é a vida e a regra para nós e para todos que queiram unir-se à nossa comunidade. Portanto, ide e cumpri o que ouvistes.” Assim foi o Sr. Bernardo, que era muito rico, vendeu tudo o que possuía. E quando tinha a grande quantia de dinheiro junto distribuiu-o aos pobres da cidade. Também Pedro cumpriu a vontade de Deus conforme as suas capacidades. Após terem dado tudo, os dois tomaram o hábito do mesmo modo, que o próp rio santo, pouco tempo antes, tinha tomado, quando despiu as vestes de eremita. A partir daquela hora viviam juntos com ele segundo o Santo Evangelho como os Senhor lhes tinha ensinado. Por isso, o beato Francisco disse no seu testamento: “O Senhor mesmo desvendou-me que eu devia viver segundo a prescrição do Santo Evangelho.” (Leg3C)


Durante muitos anos, Francisco de Assis estava só na sua procura de Deus e de sentido. Mas, depois, a faísca caiu sobre outros. Vieram Bernardo de Quintavalle e Pedro Catanii, o primeiro um rico perito em direito, o outro um sacerdote rico. Ambos quiseram compartilhar a vida com Francisco.

Agora vivemos a hora do nascimento da Família Franciscana. Aconteceu numa igreja no encontro comum com a Palavra Divina. À primeira vista, trata-se duma espécie de bibliomancia por meio da Bíblia: abrir a Bíblia ao acaso e depois a frase que salta à vista. A Igreja proibiu este método de saber a vontade de Deus. Se os três irmãos o sabiam e se atuavam conscientemente contra esta proibição ou se simplesmente seguem a piedade popular, não fica claro. Fazem aquilo três vezes porque veneram a Santíssima Trindade, diz a fonte. Mas, possivelmente, esta já é uma interpretação posterior. Provavelmente, este abrir da Sagrada Escritura três vezes pertence ao ritual mágico da fé popular. Outras fontes dizem simplesmente que Francisco não era versado na Bíblia e não sabia exatamente onde se podiam encontrar certas diretrizes. De fato, Francisco só procura a confirmação do seu caminho andado até agora, que, a partir de agora, deve ser o caminho comum.

À segunda vista é demonstrado, no entanto, que Francisco não entende a descoberta da vontade Divina magicamente para a nova comunidade. O abrir da Bíblia está incluído na oração pessoal, na ânsia e na dedicação. As citações encontradas apontam todas para a pobreza radical e para a anunciação do Reino de Deus. Consequentemente, estes dois primeiros irmãos vendem tudo o que têm para seguir o caminho de Jesus.

Pois Jesus é o Próprio Deus que, na Sua encarnação “deixa para trás” a sua Deidade e se liberta para o nada do mundo para estar totalmente em baixo, em miséria e morte, e assim a esperança do mundo.

Perguntas

O que diz você em relação à bibliomancia abrindo a Bíblia ao acaso, e a outras formas de saber a vontade de Deus? Quais formas pratica você?
De que modo reconhece você a si mesmo/a no “ato da fundação” da Família Franciscana?
Extraído de:
Carisma 2008/2009 : intercâmbio de idéias e impulsos / Anton Rotzetter. Disponível em http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/bibliothek/charisma/2007_Charisma_Impulse.shtml?navid=104 acesso em 11 fev. 2009.

Ilustração: PORTINARI, C. São Francisco de Assis. 1943.

Nota do Brasil Franciscano:
Esta publicação encerra
a série de reflexões de Anton Rotzetter.
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